"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Territórios "ocupados"

Meu último post levou a um debate interessante. Está no Facebook, se te interessar. A conversa levou ao controle de comunidades do Rio pelo crime organizado. O discurso dominante diz que o Estado perdeu a soberania nesses lugares. São os traficantes que exercem o monopólio da violência. As UPPs, por exemplo, seriam para "recuperar o território". As UPPs são um projeto interessante, que ameaça ser enterrado pelos próprios erros. Mas esse é outro papo.

Territórios ocupados. Parece que uma potência estrangeira invadiu. É jargão militar, não por acaso. Confesso que usei a expressão várias vezes.

Seria melhor dizer "territórios abandonados" pelo Estado. Ou quase abandonados. Porque sempre faltaram todos os serviços que usualmente atribuímos ao estado moderno: faltava saneamento, urbanismo, transporte, educação, assistência à saúde. Só não faltava, nunca faltou repressão.

Este é o ponto do texto em que muitos vão dizer que o Brizola, em dois governos, proibiu a polícia de subir nos morros, fez acordo com o tráfico, etc. Pode muito bem ser verdade. Então, passou a faltar também repressão. Grande coisa.

Estudei toda a minha adolescência num colégio no morro do Turano. Era uma escola de excelência, portanto dedicada a rapazes e moças "do asfalto", não da favela. Hoje em dia pode parecer uma estranha localização. Na época, nós só reclamávamos da longa escadaria para chegar ao prédio. A comunidade era amável. Às vezes, a gente matava aula por lá. Meu grupo fez uma pesquisa entre os moradores. Ouvi cada história de arrepiar. Talvez exagerassem, para impressionar os meninos. Mas era tudo coerente com o que víamos, com frequência, das janelas da sala de aula.

Fato: as pessoas tinham medo da polícia. As pessoas comuns: trabalhadores, estudantes, donas de casa. E ainda não tinha Bope.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Mortes e mortes

Detesto comparar o sofrimento humano. Um assassinato é um assassinato é um assassinato. Mas às vezes parece que não é bem assim.

Também não vou comparar a violência dos "bandidos" com a violência policial. Ainda que seja possível: aí eu diria que a violência policial está numa categoria diferente, porque é terror de estado. Até Hobbes, teórico do absolutismo, dizia que o limite do soberano estava no direito à vida dos súditos.

Meu filho Daniel diz que as mortes nas favelas estão envoltas em brumas, não dá para saber se foi assassinato a sangue frio ou se foi reação da polícia à resistência armada do crime organizado. O Daniel é um cara legal. Ele não deve ler as páginas policiais. Alguns casos podem ser descritos assim - ou, com muita boa vontade, como "perdas colaterais". Muitos outros são claros episódios de desprezo pela vida humana.

E não é só a polícia. Vários são os homicidas que atuam nos bairros populares. Ninguém se incomoda muito. Às vezes tem um caso que gera indignação. O Amarildo, por exemplo. Mas a morte é cotidiana. O homicídio na Lagoa, muito mais raro, causa imediatamente uma revolta danada. Que fique claro: é uma revolta justa. O problema é que é unilateral.

Tem duas explicações para essa diferença. Uma é o medo. Eu não ando no Dendê ou na Coreia, mas ando na Lagoa. É até compreensível. Mas não dá conta da reação à morte do Tim Lopes, no morro do Alemão, ou de outros casos em que um cidadão de classe média perde a vida num gueto de pobreza qualquer.

A outra explicação é mais triste. O Tim Lopes era um ser humano. O ciclista na Lagoa. O meu vizinho. Os fodidos que moram no Alemão, na Coreia ou no Dendê, esses nem tanto. Eles fazem parte de uma massa indistinta, escura, mal vestida... e perigosa.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Disputa de hegemonia

Meus conhecimentos sobre os marxismos são limitados - como de resto, toda a minha precária erudição de especialista em assuntos gerais. Mas quero crer que o conceito de hegemonia, na tradição marxista, é de Gramsci.

Gramsci amplia o conceito de Estado - que deixa de exercer apenas uma função coercitiva. Para ele, o Estado, através de seus aparelhos ideológicos, exerce também hegemonia, cria consensos na sociedade.

Gramsci faz a gente pensar a luta de classes de uma forma mais sofisticada. Papel da cultura. Disputa de hegemonia. Atuação ideológica na sociedade civil. Alguns desses temas seriam explorados também pela Escola de Frankfurt, mas isso já é outro papo.

O que eu quero ressaltar é que - depois dessa produção teórica toda - não se pode falar de luta de classes só no plano econômico, ou mesmo na política strictu sensu. A relação entre infraestrutura e superestrutura não tem nada de mecânica. Tomar o poder do estado - ou mesmo da economia -  não é o mesmo que tomar o Poder.

A construção de uma hegemonia ético-política passa pela superação das contradições ideológicas da classe trabalhadora e pelo combate à introjeção da ideologia dominante. Complicado? No popular, é assim:
1. Superar as falsas oposições entre trabalhadores intelectuais e trabalhadores braçais, empregados com direitos trabalhistas e aqueles sujeitos a subemprego, torcedores do flamengo e do vasco.
2. Combater sem trégua a cultura dominante conservadora, excludente, preconceituosa, hierárquica e autoritária.

Não adianta muito, quando as massas melhoram um pouquinho de vida, mas aderem a religiões fundamentalistas. Não ajuda nada opor os extratos médios da sociedade à base da pirâmide. Simplificar a disputa como uma briga entre "nós" e "eles" leva a erros tremendos. E principalmente, meu caro companheiro, minha querida amiga de esquerda: pregar para os convertidos é puro desperdício de latim e de saliva, ou pixels.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Variegado

Um amigo quer que eu fale da sabatina do Fachin. Não vi. Mas sei que ele se disse contra a descriminalização do aborto, contra a liberação das drogas, contra o casamento homoafetivo, que foi ambíguo quanto à redução da maioridade penal... e que garantiu ser "progressista".

Deve ser. Ultimamente, quem não brada palavrões da janela, em noites de panelaço, está à esquerda de muita gente.

Outro amigo pede para eu comentar o ajuste fiscal. É um amigo tucano. Só pode estar de sacanagem. Na atual conjuntura, é assim: ganha o candidato "A", aplica o programa econômico do candidato "B", o pessoal do "B" vota contra e cai de pau. Mas eu já falei tudo o que tinha para falar, quando a presidenta nomeou o Levy.

Amiga muito querida me inclui numa corrente de poesia. Preciso postar quatro poemas, um por dia, e convidar quatro internautas a fazer o mesmo. Nessa progressão geométrica, em 15 etapas se chega a marromeno dez bilhões - mais do que a população inteira do planeta, soldados e cachorros incluídos. Espero concluir minha tarefa, antes do travamento definitivo do Facebook.

Hoje tem Champions League! Que ontem não teve. Barcelona contra meio Bayern foi um amistoso de luxo. Valeu pelos golaços e pela dignidade do time bávaro, que jogou como se a vitória valesse alguma coisa.

O caro blogonauta e a internauta amável já notaram que estou enchendo linguiça. É que tem quase duas semanas que eu não escrevo aqui - e temo que me releguem a merecido esquecimento.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sexta de poesia - Torquato Neto

Let's Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that

terça-feira, 28 de abril de 2015

Cala a boca, Dilma

A Dilma resolveu que não vai falar à nação do Primeiro de Maio.

A presidenta, eleita pelo Partido dos Trabalhadores, não vai falar aos trabalhadores no Dia dos Trabalhadores.

Foi uma estratégia política bem calculada. Os protestos contra o governo minguaram. Não é hora de atiçar a classe média inconformada e a imprensa golpista. Recuar agora, para aglutinar forças, recuperar o capital político, descobrir novos rumos para o governo popular e democrático, acertar a macroeconomia, derrotar o PL 4330 e continuar firme na distribuição de renda e no combate à pobreza.

Ou então foi marketing. Evitar a superexposição. Atuar em low profile, nesses tempos bicudos. Esperar a recuperação da imagem por ínércia.

Ou talvez tenha sido cansaço. A presidenta está estressada. Rouca de tanto gritar com ministros, assessores, auxiliares, servidores, garçons do Planalto. Precisa de um descanso. Vai passar o feriado na praia, que nem a maioria da classe trabalhadora.

Ou, quem sabe, foi uma atitude zen. O som de uma só mão ao bater palmas. O barulho da árvore que cai na floresta deserta. O sermão da flor de lótus, que Buda teria feito.

Ou foi algo bem mais simples. A Dilma ligou para o Eduardo, ele disse para ela calar a boca. Para o Renan, ele a aconselhou a calar a boca. Para o Temer, ele garantiu que o melhor era calar a boca. Para o Levy, ele mandou ela calar a boca. Para o Lula, ele respondeu: "cala a boca, senão quem vai falar sou eu!"

segunda-feira, 27 de abril de 2015

"Ismos", "istas"

Acho que já falei sobre isso. O blog existe há vários anos e os assuntos não são infinitos. Volto ao tema, que acho um tanto curioso.

Como você pode comprovar, eu já fui um monte de "istas" e confesso isso com certa alegria. Quem viu "Les Invasions Barbares", belo filme do Denys Arcand, sabe que plagiei. Eu quase nunca sou original - o que me salva é que li muitos livros e vi muitos filmes.

Mas tem gente que se orgulha do contrário: que não é "ista" nenhum. O pensamento dessa turma é original e único. Nenhum deles se chama Sócrates, Descartes, Kant ou Hegel - mas eles se ombreiam com esses quatro filósofos, os que me lembro agora, que refundaram a filosofia. Wittgenstein, talvez. Mesmo esses se basearam na tradição, é claro - mas esse já é outro papo.

Eu, não. Já disse que não sou original. Sempre que eu penso - coisa cada vez mais rara - é referenciado em algum pensamento anterior a mim. Quero crer que isso me faz bem. No mínimo, evita que eu cometa erros risíveis. Algumas vezes.

Fui muitos "istas" e ainda sou "ista" isso ou aquilo, ao sabor dos ventos. É um pragmatismo safado, sei disso. Menos mau que o outro - que se desvincula da história do pensamento humano, na maior cara dura, como se fosse possível.

"Ismos" não te impedem de pensar. Te permitem. A não ser, claro, os fundamentalismos - esses, sim, tem respostas prontas o tempo todo e são confortáveis à beça.

Pensar é um exercício cansativo e o pior é que não emagrece. A gente sempre precisa de ajuda. O único cara que pensava sem ajuda era o Kaspar Hauser. Ele chegava a algumas conclusões interessantes, mas dificilmente comprováveis. Por exemplo: ele achava que o quartinho onde viveu confinado era maior do que a torre que avistava da janela. Isso porque ele se virava para qualquer lado - e sempre via o quartinho. Já a torre desaparecia, quando ele lhe dava as costas. Raciocínio sagaz. Infelizmente, por demais autocentrado. A culpa não era dele. O que não posso dizer dos meus amigos com aversão a "ismos".

terça-feira, 21 de abril de 2015

Quando eu discuto Illich com meus amigos professores...

... Eles me contam experiências educacionais interessantíssimas, que vivenciaram nesta ou naquela escola.

Parêntese. Ivan Illich propunha uma sociedade sem escolas e onde a educação fosse viva, ubíqua, desinstitucionalizada. Se você quiser saber mais, seus livros são facilmente encontráveis na internet.

Não nego a vivência dos outros. Eu mesmo tive professores (poucos) que conseguiam transformar a sala de aula num ambiente capaz de criar conhecimento. Tarefa difícil. A sala de aula foi construída para adestrar, para controlar, para qualquer coisa, menos se aventurar a conhecer. A sala de aula é lugar de certezas. O conhecimento é fruto da dúvida, e mais: ele sempre duvida de si mesmo.

A escola, a prisão e a fábrica são contemporâneas. Também o hospital, o hospício, o serviço militar. Instituições disciplinares, necessárias à sociedade industrial. Disciplinar é muito mais que coibir comportamentos indesejáveis. A disciplina tem sua própria positividade, que produz os comportamentos almejados.

Senão, como é que iam amontoar centenas de ex-artesãos e ex-camponeses no ambiente insalubre de uma fábrica, trabalhando 16 horas por dia, submetidos ao ritmo das máquinas? Artesãos e camponeses estavam acostumados a trabalhar menos tempo, no próprio ritmo, sem coerção imediata, com certa autonomia. A fábrica era o inferno.

Para isso a escola foi criada, para isso ela serve até hoje. Claro que o trabalho mudou, graças à luta operária. Mas sua essência - a brutal heteronomia - continua a mesma. A necessidade de disciplina também. Exceções podem emergir no ambiente escolar. Emergem apesar da escola - não graças a ela.

Sociedade informacional - e desescolarizada

Lembro mais uma vez do velho Ivan Illich. "Sociedade sem Escolas" é uma tradução pobre do título do seu livro. Mais do que acabar com as fábricas de aprendizagem, o Illich pensava um modelo em que toda a sociedade fosse lugar da educação, em particular da autoeducação.

A utopia do ex-padre fica muito alcançável - eu diria, necessária - com a Revolução Informacional. Desde o neolítico até a Revolução Industrial, as máquinas-ferramentas substituíram trabalho braçal. O que a gente vê hoje é a substituição de trabalho intelectual. Esse insight não é meu, antes fosse - é do Jean Lojkine.

Parêntese. Trabalho braçal x intelectual é um negócio complexo e a distinção nem sempre é muito clara. Todo trabalho braçal envolve algum uso da inteligência, e vice-versa. Mas dá para separar, em teoria e na prática, a partir das áreas do córtex cerebral que são particularmente estimuladas.

A instituição escola tem similaridades com a prisão. Uma delas: desde seus primórdios, ela está em crise. A educação universal, tarefa da escola, é um ideal iluminista - e os iluministas já diziam que a escola não funcionava direito.

Nunca funcionou, porque não era para funcionar. Não no sentido de criar cidadãos que fossem sujeitos do conhecimento. O que a escola criou através de dois séculos e tanto foi uma legião de empregados dóceis e consumidores conformados.

De volta à Revolução Informacional. O trabalho braçal é automatizado. O trabalho intelectual, cada vez mais realizado por sistemas informatizados. O que resta de especificamente humano é o trabalho criativo.

"Criação" é a antítese da escola. Não dessa ou daquela. Da forma escola. Tema para mais papo. Até lá.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Marighella

O cara diz que o Marighella era bandido, assassino, que queria implantar uma ditadura comunista, essas coisas que a gente sabe.

Eu nem conheço. Mas resolvo responder. Lembro que o Marighella era da ALN - Ação Libertadora Nacional. O programa da ALN era o retorno às liberdades democráticas.

Aí ele garante que isso é o que a esquerda propaga através das escolas.

Caramba. Eu não sabia que a escola de hoje tratava da ALN, da Di-GB, da APML, da Molipo, da VAR-Palmares, da Polop, dos mais de vinte grupos clandestinos que combateram a ditadura de 64. Mais de vinte, se não me falha a memória. As diferenças programáticas eram muitas vezes sutis, mas levavam a "rachas" terríveis, que rompiam amizades e separavam amantes. Até porque os guerrilheiros, todos somados, eram muito poucos. E era ruim de acompanhar.

Mas da ALN eu sei. Não de aprender na escola, e sim da fonte primária: a publicação clandestina onde o grupo explicitava o seu programa. Meninos, eu vi.

O Marighella não estava para brincadeira. Escreveu um manual de guerrilha urbana, que era implacável. Ele lutava uma guerra desigual. Não é necessário ter vivido sob ditadura para entender. Mas talvez seja preciso, para sentir na pele. Nem falo do horror absoluto da tortura, que se abateu sobre opositores armados e desarmados, revolucionários e reformistas, comunistas e liberais. É a supressão da liberdade. O reino do arbítrio. A insegurança permanente. O medo como estilo de vida.

Ele lutou contra isso. Foi torturado pela ditadura de Getúlio. Foi cassado no regime não tão democrático do Dutra. Foi morto em emboscada em 1969, na fase mais hedionda do regime militar.  E agora me vêm uns basbaques ignorantões chamar o cara de bandido. Que merda.

Mil amigos

Fui atualizar meu perfil no Facebook. Notei que tenho 966 amigos. Quase mil.

Desses, quantos são amigos de verdade? Sei lá. Também depende da definição de "amigo".

Amigos, amigos do peito, aqueles com quem você conta no luto e na dor de cotovelo, esses são muito poucos. Mas tem outros, de outro tipo, também valioso: gente que a gente gosta de graça. De graça, porque não há essa intimidade toda, mas não sem motivo. Existe alguma coisa em comum, algo não facilmente perceptível. Não é opinião política, não é clube de futebol, não é religião, não é filosofia. Talvez seja apenas compreensão mútua.

No Facebook, me pedem amizade, eu aceito. Sempre posso "desamigar" depois. Na vida é diferente. Nem me pedem, nem eu aceito - acontece.

Dos amigos, das amigas que eu creio serem "de verdade", tem um certo número que eu nunca encontrei cara a cara. Tem amizades virtuais que migraram para o chamado "mundo real". Se tenho melhor amiga (não sei bem o que é isso), com a minha melhor amiga foi assim. Tem uma meia-dúzia que mora tão longe, provavelmente nunca vou ver ao vivo. E tem aqueles - e aquelas - que retornaram depois de décadas. Ou fui eu que retornei?

Uma foi minha namorada, durou tão pouco, ficou o quê? Uma eu nunca namorei, mas sempre quase. Um trabalhou comigo e a gente se protegia naquele ambiente inóspito, depois eu mudei de setor, até mais. As meninas da faculdade - caramba, lá se vão mais de 30 anos. Os companheiros de partido, que continuaram no partido depois que eu saí. Aqueles que dobraram à direita com vontade, no entanto. Outros com quem convivi durante anos, só foram virar amigos depois, nas artes do virtual. Não são 966. Mas são mais do que eu consigo abraçar.

Essa lua, esse conhaque. Às vezes até parece que a vida vale a pena.

Um amigo

Conheci o Mário há quase 40 anos. Não nos víamos há mais de 30.

Eu tinha uns vinte, o Mário era trintão, mas a amizade foi imediata. É que a gente trabalhava no Banco do Brasil. Um lugar cheio de bancários. Ele não era. Era poeta. E eu era qualquer coisa que não sei bem. O que sou até hoje.

O Mário era (é) muito ruivo, cabelos vermelhos, mesmo. Ganhou logo o apelido de "Foguinho". Ele detestava. Mas o pessoal evitava abusar, porque ele era "intelectual". Um ser estranho. Parte do grupo, mas outsider. Pairava por ali como se não fosse com ele. Trabalhava direito, mas queria ficar nas seis horas por dia do horário bancário, sem ganhar mais com comissão de função, que exigia horas extras.

Nós conversávamos sobre literatura, psicanálise, filosofia, abobrinhas. Conversávamos tanto que o chefe me mudou para outra mesa, mais longe. Passamos a trocar ideias aos berros. Não demorou muito e eu voltei para o meu lugar.

Graças ao Mário eu tomei contato com a cozinha chinesa, o queijo roquefort, a poesia de Mallarmé e o pensamento de Schopenhauer. Não fui eu quem o apresentou a Freud, é claro. Mas quero crer que mostrei a ele certos caminhos nas elucubrações do bruxo vienense.

Às vezes, ele me trazia versos ainda em formação. Eu dava poucos palpites. Mas uma vez fiz uma sugestão mínima, que ele aceitou. Me lembro que era um texto chamado "Poema Úmido", sofisticado exercício de imagens mentais que a gente quase podia ver com os olhos. Eu propus trocar a expressão "os cogumelos", por simplesmente "cogumelos", sem o artigo. Tudo isso. A partir daí, eu me proclamava seu parceiro.

Pois é. Acabamos por seguir caminhos diferentes e perdemos o contato. Até outro dia. Foi o Mário quem apareceu, "pedindo amizade" no Facebook.

Que pedir, que nada, Mário. Pode entrar. A casa é sua. Tem cerveja e roquefort na geladeira. Em todos os cômodos, muitas estantes para você fuçar.

Poesia de segunda

foi ontem só
hoje não tem mais
era pra ser (não era mesmo?) tão bonito
faltou desejo, faltou
sentir falta do desejo

mas tem o seguinte, minha camarada

quem não gosta de samba
quem não gosta de susto
quem não gosta de dar o salto nem que seja pra se quebrar
mau sujeito não é
mas que falta de imaginação

................................................................................................................................................................

carrego as minhas coisas na sacola: 
            um celular, um livro eletrônico, esperança, três revistas, um pendrive de oito gigas,  
            maço de cigarros pela metade, isqueiro, escova e pasta de dentes, sorriso, uma caixa
            de fósforos com quatro palitos, analgésico, moedas, mentiras, manias, óculos de sol
            
vou-me embora pro meu canto
um brinquedo que eu mesmo joguei num canto
porque cresci

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quando o Windows tinha uma ampulheta

Ela ficava virando, virando. Era tudo demorado. E a internet! Minha filha foi de férias para Nova Iorque e voltou empolgada: "cara, você digita um endereço e a página entra! entra direto!" Porque aqui era aos pouquinhos. Página com foto, então, era um problema. Baixa resolução, mas mesmo assim. Conexão discada: prrriiiiii, priiiiii, priiiii...

Havia um ambiente só para chat, um para baixar arquivos, um para correio eletrônico... Aos poucos, a WWW, ambiente multimídia, negócio moderníssimo, foi absorvendo tudo.

Eu tinha um notebook 386SX e um endereço de email. O problema é que ninguém mais tinha. Eu só podia escrever cartas para mim mesmo. Joguei muito xadrez contra aquele computador.

(quando eu era criança, meu pai foi a uma demonstração de um computador IBM cheio de válvulas e ficou impressionado porque o bichão jogava o jogo-da-velha)

O mundo gira e a Lusitana roda. Hoje em dia, quem usa smartphone também opera em vários ambientes. Recebi um, para um trabalho que estou fazendo. Tem um ícone para o Facebook, um para o Google, um terceiro para a internet e assim por diante. Tem até um só para telefonar! Coisa difícil: quando o meu aparelho moderníssimo não está sem serviço, é o da pessoa com quem quero falar. Mas deixa para lá. Quando privatizar, vai melhorar.

Tem também um para o Whatsapp, que o pessoal chama de "Zapzap". Era para mensagens, mas pode mandar imagens, videos, o diabo. Agora vai poder falar também, com Voip - voz sobre IP. Quem já testou diz que funciona muito bem - o que não se pode dizer da ligação convencional.

As teles que se cuidem, com seus pacotes caríssimos e limitados. O Zapzap ameaça virar a WWW dos telefones celulares.

Mercado? Livre???

Quando alguém fala "mercado", eu ouço "ideologia". Se o desinfeliz fala "livre mercado", meus ouvidos captam "ideologia e ignorância".

Não precisa ser um marxista severo, um leninista aplicado, muito menos um anarquista militante. Até as calçadas de Wall Street sabem que esse tal de mercado não existe. Não na forma que ele é idealizado pelos conservadores.

Para os conservadores, o mercado é o lugar - lógico, mais que físico - onde compradores e vendedores se reúnem para fazer negócios, de forma livre, independente, pulverizada. Cada agente econômico defende seus interesses o melhor que pode, mas como eles são muitos, certas regrinhas definiriam o comportamento coletivo.

Isso pressupõe que todos estão mais ou menos em pé de igualdade; que todos têm acesso às mesmas informações; que não existem monopólios, oligopólios, trustes, carteis. Talvez seja assim no marché aux puces; duvido um pouco, mas pode ser.

Infelizmente, minha amiga conservadora, meu amigo direitista, trustes e carteis não são exceção; são a regra. Sete companhias dominam o mercado de petróleo e derivados. Dez conglomerados mundiais controlam o que você compra no supermercado (amplie a imagem). Fala-se muito do tal 1%, que detém metade da riqueza do mundo, mas mesmo aí há estratificação: 0,1%  tem 1/5 de todo o patrimônio, de todos os habitantes da Terra. No Brasil, quinze ilustres famílias controlam 5% do PIB. Cinco bancos abocanham 80% da oferta de crédito.

Para essa gente, não há mercado. Ou melhor, o mercado é o que eles querem que o mercado seja. Para o resto de nós, é uma armadilha.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O pior chope do Rio

É o do Bar & Restaurante Cerejinha, que fica na esquina de Presidente Vargas com Uruguaiana.

Maldade minha. Tem muito chope pior. O do Cerejinha, pelo menos, é da Brahma. Está cheio de chope marca barbante por aí. Mas... convenhamos... é mal tirado à beça.

Chope é coisa do Rio. Qualquer botequim oferece um chope marromeno. Em São Paulo, é raridade. Em Brasília, sempre prefira a cerveja em garrafa. Em Belo Horizonte... bom, em Beagá tem um monte de barzinhos, não vou emitir juízo definitivo, mas minha experiência pessoal é desalentadora. E por aí vai.

Chope é coisa do Rio, e o carioca é metido a entender do assunto. Na verdade, são poucas coisas que definem um bom chope. A marca, é claro. A quantidade de copos servidos: o chope não é pasteurizado, por isso estraga logo - bar sem movimento não presta. O comprimento da serpentina - importantíssimo. Por fim, um cara que saiba tirar o chope, na pressão, com espuma e sem mesquinharia, porque um pouco sempre vai derramar.

O chope do Cerejinha tem apenas as duas primeiras qualidades. Logo, não é grande coisa.

Minha saudosa companheira Sandra não gostava de lá. Ela dizia que o Cerejinha não era um bar, era uma calçada. Isso porque a loja é bem pequena, então todas as mesas ficam na rua. Não é um grande problema, porque os prédios da Presidente Vargas, naquele pedaço, têm todos enormes marquises. Hoje em dia, chega a ser uma vantagem, porque não reclamam quando a gente fuma, embora não seja e-xa-ta-men-te permitido pela nova lei.

De resto, os tira-gostos são escassos, a pizza é gordurosa e não servem refeições, apesar do "& Restaurante".

Mas tem uma coisa. Eu fui para Brasília em 2003. Quando voltei, estava aposentado e não ia muito no Centro. Fazia uns doze anos que eu não aparecia no bar. Outro dia eu passava por ali, parei para um chopinho vadio. O garçom abriu o maior sorriso: "seu Joel!... há quanto tempo!"

Pequenas centrais, grandes negócios

Quando a CUT era a CUT, queria acabar com o imposto sindical.

A CUT não é mais a CUT, e não é porque virou "chapa branca" ou outra besteira parecida. A CUT não é mais a CUT porque o movimento sindical está numa draga tremenda, com as mudanças no mundo do trabalho. Os metalúrgicos, por exemplo. Eles eram os bam-bam-bans da Central, categoria politizada, organizada, numerosa. Hoje são meia dúzia de gatos pingados. A automação passou um trator.

Menos trabalhadores, menos associados, menos receita. O processo é mais complexo, mas fiquemos por aqui. O imposto sindical - aquele dia de trabalho descontado de todo mundo - cresceu de importância, no balanço dos melhores sindicatos. Cadê o povo que era contra?

Desde março de 2008, as centrais sindicais são reconhecidas. Assim, elas também abocanham sua fatia do imposto. São mais de cem milhões por ano. Caramba! Isso é que se chama "janela de oportunidade"!

O PCdoB, que não é bobo nem nada, saiu da CUT e fez logo a sua centralzinha - a CTB. Até se antecipou, olha que esperteza: a CTB foi fundada em dezembro de 2007, para ninguém chamar de oportunista. Só que 90% da sua arrecadação vem do imposto. Depois surgiram outras. A CSB - não me pergunte o que quer dizer - é a mais novinha: foi reconhecida só este ano.

No total, hoje temos 12 centrais sindicais. É muito cacique para pouco índio. Segundo o portal Vermelho, as três menores representam, somadas, a multidão de 1.645 trabalhadores sindicalizados.

Enquanto eu garatujava essas mal traçadas, uma amiga me perguntou, no Facebook: "e a reforma sindical, tão falada nos anos 90?" Respondi que estamos precisando de uma revolução sindical.

Política e negação da realidade

Tenho um amigo que é stalinista. Um jovem amigo. Quando a União Sovíética acabou, ele estava largando a chupeta.

É difícil dialogar com o meu amigo. Ele é um cara inteligente e até saudável - em todos os aspectos, menos no que se refere ao Pai dos Povos. Nem fale com ele dos expurgos. Do assassinato de centenas de bolcheviques. Do Estado policial. Da morte de milhões de camponeses, na coletivização forçada da agricultura. É tudo propaganda imperialista. No máximo, houve alguns erros. Errinhos danados, esses.

E eu faço o quê? Levo na brincadeira. Meu amigo tem tatuagens enormes, que lhe cobrem os dois braços. Eu digo que papai Stalin não ia deixar, não. Ele gosta de rock. Eu falo que desse jeito ele ia parar na Sibéria.

Processos de negação da realidade são mais comuns do que a gente pensa. O do meu amigo é até benigno. Tem gente que nega o Holocausto. Há quem jure de pés juntos que o homem nunca pisou na lua. Ou que Elvis não morreu. Há quem garanta que o Plano Real é obra do Fernando Henrique. Ou que o Zé Dirceu é um congregado mariano.

Parte da atual virulência do debate político vem daí. Pessoas que habitam alegremente um universo paralelo. A imprensa livre não ajuda. "Imprensa livre" é ironia, não atire a primeira pedra. A imprensa livre entrou pesado no partidarismo e construiu um mundo de vilões - os petralhas - e mocinhos - a oposição, qualquer que seja. OK, eu exagerei. Mas foi só um pouco.

Realidade (1): a vida da maioria mais pobre melhorou muito nesses 12 anos de governos de maioria petista. Realidade (2): o modelo de crescimento baseado na expansão do consumo da base da pirâmide chegou a um limite. Isso na economia. Na política (1): o PT tem o crédito óbvio de incluir milhões que estavam à margem. E tem um débito pesado (2): não peitou a reforma política e se enfiou até o pescoço na lama dos financiamentos de campanha.

Essas premissas podem servir de base para qualquer discurso, governista ou de oposição, à esquerda ou à direita. Mas não. É "quadrilha", é "fascista", é "traidor"... muito adjetivo para pouca análise. A realidade está aí, para quem quiser... mas é um bichão duro de encarar.

E não dá para levar na brincadeira.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

PL 4330 - o admirável mundo novo da terceirização

O Congresso está para cometer um crime contra os trabalhadores: a aprovação do projeto de lei 4330, que abre a porteira da terceirização.

A principal mudança é a seguinte: hoje, as empresas só podem terceirizar atividades-meio. A nova lei vai permitir terceirizar qualquer trabalho, inclusive atividades-fim.

Por exemplo: uma montadora de automóveis. Hoje, ela pode terceirizar a limpeza, a segurança, a cozinha, a jardinagem. Coisas assim. Com a nova lei, toda a cadeia de montagem poderá ser feita por trabalhadores sem vínculo empregatício com a empresa - e possivelmente com outro enquadramento sindical. Ou um banco. Os caixas poderão ser terceirizados. Vão ganhar menos e terão menos direitos trabalhistas.

A situação é ainda mais grave no serviço público, que poderá contratar sem concurso. É o fim da estabilidade do servidor e da impessoalidade do Estado.

Todo mundo está de olho na Petrobras, na Operação Zelotes, nas trapalhadas políticas da Dilma. Um protesto contra a PL 4330, em São Paulo, não reuniu nem mil gatos pingados. Militantes da CUT foram para Brasília, tomaram porrada e gás de pimenta, eram poucos, não adiantou nada. A Força Sindical, acredite, está a favor do projeto!

O movimento sindical está numa draga danada. Ele representa cada vez menos gente. É que o mundo do trabalho mudou, e mudou o perfil do trabalhador. O novo proletário é um nômade, pelo menos um nômade metafórico: ele não permanece na mesma firma, passa grandes períodos sem emprego, trabalha part-time, por empreitada, em contratos de tempo definido, terceirizado, por conta própria, em situação de informalidade.

Essa é a tendência mundial. Ter emprego fixo, com salário decente e direitos trabalhistas - isso está virando raridade. Durante os governos de maioria petista, o Brasil fez um movimento inverso: aumentou o número de empregos com carteira assinada e os concursos públicos se multiplicaram. A renda média do trabalhador aumentou. A vida ficou melhor. Todo o avanço gradual de 12 anos vai por água abaixo, com uma única votação no Congresso.

Companheiros, companheiras, bem-vindos à pós-modernidade! Admirável mundo novo, onde ser explorado é um privilégio!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Somos reformistas

O pessoal da direita adora falar de Cuba, da Coreia do Norte, até da União Soviética, quem nem existe mais. Mas eles não têm o mesmo prazer em discorrer sobre a Finlândia, a Noruega ou a Suécia.

Menos, gente! A esquerda brasileira - aquela que conta - é profundamente democrática e assumidamente reformista. Até o Psol, que dizem ser da "extrema". Que nada. São uns carolas. Estamos todos mais para a Escandinávia que para o Vietnã.

Somos solidários a Cuba. Ah, somos sim! Como não ser solidário a um país pequeno e pobre, acossado pelo vizinho que é o maior império do mundo, e que ainda assim mantém serviços exemplares de saúde e educação? Isso não quer dizer que sejamos cegos aos defeitos do castrismo. Apenas não olhamos a História com viés moralista - tentamos entender as circunstâncias e buscar saídas possíveis. No caso cubano, como abrir o regime sem voltar a ser quintal.

De volta à Finlândia. À Suécia. Exemplos que a gente gosta mais. São países ricos, é verdade. Mas a Finlândia tem um PIB per capita menor que os Estados Unidos. O da Suécia é comparável ao do Qatar. Pergunta onde se vive melhor.

Aqui no Brasil. Quem é que propõe reduzir o poder econômico nas eleições? Quem é que senta em cima do processo? Quem quer criar um lei reguladora da mídia parecida com a da Inglaterra? Quem é que deturpa a proposta e quer manter o oligopólio? Quem é que defende a Constituição? Quem é que vai à rua pedir golpe?

Meu amigo, minha amiga direitista!... Você garante que é democrático até os ossos, que fez passeata para protestar contra a corrupção e isso e aquilo, que não foi para pedir ditadura militar. Pode ser. Mas... cá entre nós... você estava muito mal acompanhado.

terça-feira, 31 de março de 2015

Sociopatas

Quanto eu estava na faculdade, o termo era outro: "PP." Sigla para "personalidade psicopática". É que a doença mental, a psicose, desestrutura a personalidade. Não é o caso do PP. Muito ao contrário. Ele tem a personalidade muito bem estruturada. Só que é estruturada de modo patológico.

A principal característica do sociopata é a falta de empatia. Ele não consegue se colocar no lugar do Outro. Deriva dai o egocentrismo. E a falta completa de sentimento de culpa. Uma combinação explosiva.

Nem todos são serial killers. O assassino serial tem outras complicações. A maioria dos sociopatas está por aí, vivendo a vida. Alguns são muito, muito simpáticos. Todos são mentirosos. Todos são manipuladores. E pisam no pescoço da mamãe, se for para conseguir o que querem.

Pesquisa recente tentou localizar os monstrinhos. Claro que estava sujeita a falhas, porque se baseava em testes psicológicos, que são notoriamente imprecisos. Mas deu umas coisinhas interessantes. Sabe onde é que se encontra o maior percentual de sociopatas? Entre os altos executivos das corporações. Em segundo lugar, políticos profissionais.

Se a gente para para pensar, não se espanta. Quanto aos políticos, o velho Ulisses Guimarães já dizia: "O sujeito entra para a política por um de dois motivos. Ou ele quer se dar bem, arrumar sua família, se arrumar; ou ele quer salvar o mundo. Ou seja, a politica é a reunião do mau caráter com o.paranoico." Mau caráter é a expressão popular para sociopata.

E nas empresas? Quem é que consegue subir, se tiver um grilo falante de estimação? Quem é que chega ao topo sem atropelar os concorrentes, sem enganar os consumidores, sem ferrar a vida dos funcionários, sem tomar medidas que envergonhariam Átila, o bárbaro?

Sobe na vida quem tem uma personalidade doentia. O mundo está muito, muito doente.

Percepção, realidade, certezas

Os dois círculos centrais são do mesmo tamanho
A construção da imagem, a separação de figura e fundo, certamente é o maior problema da psicologia. Talvez seja também um dos grandes problemas filosóficos.

A retina é um mosaico de células sensíveis à luz. Elas não se relacionam entre si. Imagina uma imagem bem simples. Por exemplo, a bandeira do Japão: um círculo vermelho sobre um fundo branco. Um raio de luz de determinada frequência (vermelho) atinge uma célula da retina. Uma célula adjacente recebe luz branca. Uma não sabe da outra. No olho, não há nada que indique que esses dois estímulos são parte da borda do círculo.

Parêntese. Faço tábula rasa do problema da cor. Cor não é um atributo objetivo. É a sensação que atribuímos a faixas de frequência eletromagnética. Ou nem isso, em termos precisos, como os impressionistas provaram bem. Depende do contexto.

O cérebro reúne os estímulos que recebe da retina e constrói a imagem. A questão é: como ele faz isso? Segundo a teoria da gestalt, certas formas são fortes, o círculo mais que todas. É um negócio inato. A forma forte se impõe. A imagem constrói a si mesma. Já a psicologia elementarista do século XIX garantia que é tudo aprendido. Mais tarde, os behavioristas também foram nessa. Racionalismo e empirismo. O dilema de sempre.

A percepção dos objetos se confunde com a consciência de si. Sabemos que, para um bebê pequeno, tudo é indistinto. Ele não reconhece os limites do próprio corpo, nem a materialidade do mundo exterior. Até os seis meses, mais ou menos, todos nós vivemos num mundo de puros fenômenos.

Construímos a nós mesmos enquanto construímos o mundo, e essas duas entidades - o Eu e o Outro - têm muito de arbitrário. As ilusões de ótica, tão divertidas, não são exceção - são regra. Não é o engano provocado por uma imagem habilmente desenhada que é maravilhoso. Maravilhoso é a gente perceber um objeto que realmente existe. Se é que a gente consegue.

Pense nisso, quando você tiver muita certeza de alguma coisa.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Bebês, carboidratos e lipídeos

Ana Lua é fofinha 
A gente gosta dos bebês, mas não é porque eles são pequenos e fofinhos. A gente gosta dos bebês porque eles têm a cabeça grande, em relação ao corpo.

Os mamíferos nascem com cabeças grandes. Por isso um filhote de elefante é fofinho, mesmo não sendo exatamente pequeno. Nós somos geneticamente programados para gostar de seres cabeçudos. Nós e quase toda a classe Mammalia. Funcionou para a sobrevivência da espécie. Funciona, ainda hoje, para os fabricantes de bonecas.

Deixa eu explicar. Imagina o Brucutu. É tarde da noite. Amanhã cedo ele tem que sair e caçar um ou dois brontossauros para alimentar a família. A criaturinha começa a chorar. Não tem chupeta, não tem lenço umedecido para limpar o bumbum. O que impede nosso herói de silenciar o berreiro de encontro às paredes da caverna? É que o emissor do insuportável ruído é cabeçudinho e isso mexe com determinado gene, provocando o impulso de cuidar, não o de esmagar a caixa craniana. O primo do Brucutu não tinha esse gene em particular. Sua prole não viveu muito. O Brucutu passou algumas noites em claro, mas sua descendência proliferou, trazendo esse especialíssimo código de DNA até o século XXI.

Eram tempos difíceis. Nem sempre um brontossauro estava dando sopa. Não tinha pizza delivery nem supermercado 24 horas. O Brucutu, sua dedicada esposa e seus filhos fofinhos comiam até não aguentar mais, sempre que podiam. E preferiam os alimentos mais energéticos: os ricos em carboidratos e lipídeos. Até hoje é o que a gente mais gosta. Só que a oferta é muito, muitíssimo abundante: massas, pães, doces, linguiças, carnes suculentas...  Na etologia, isso se chama "superestímulo". O resultado é obesidade, diabetes, alergias e coronárias entupidas.

Moral da história: será que tem? Se tiver, é mais ou menos assim: nossos genes nos trouxeram até aqui, mas não confie neles para nos levar mais adiante. O bastão passou para a cultura. Não perca tempo estudando etologia. Leia Shakespeare. Ou Proust. Heidegger. Freud. Dashiell Hammet. Por aí.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quantos milhões?

Meus amigos governistas que me desculpem. A oposição deu show de bola.

Ah, mas foi convocado pela Globo! Não tem a menor importância. Botar gente na rua é sempre difícil.

Ah, mas só tinha classe média! E daí? Classe média também é gente - e eleitor.

Ah, mas não tinha tanta gente assim! É... se você pegar a Paulista todinha, bem cheia, dá marromeno 800 mil. Calculei no Google Maps. Claro que ninguém nunca encheu a avenida completamente. Nem no réveillon. Muito menos ontem. Mas é como eu disse em outra postagem: manifestação é isso - uns inflam, outros desinflam. Depende do interesse do freguês.

Eu gostei. Gostei da sexta e gostei do domingo. Acho legal que o debate político fique bem claro. Cartas na mesa. Gente na rua. Democracia sem povo é muito chato.

Já não lembro da minha primeira passeata. Foi lá pela década de 70. Ditadura. Era mais difícil. Saúdo a chegada da direita às ruas, com todas as suas contradições. Golpe militar. Impeachment. Encurralar o governo até 2018. Neonazistas. Cristãos fundamentalistas. Fascistoides. Conservadores mais ou menos democráticos. Faz parte. A esquerda também não tem essa unidade toda.

A senhorinha que fez sua estreia de sapato de salto alto, coitada. O único negão da manifestação da Bahia. A moça que virou meme, que tem problemas mentais por causa da "corrupissão". Aquela gente toda que protestou contra a corrupção vestindo a camisa da CBF. A fãzoca do Bolsonaro. O cara que queria participar, mas saiu correndo quando viu o Bolsonaro. Bem-vindos às ruas, todos vocês.

Repito: bem-vindos. Prometo que não vou chamar ninguém de "coxinha".

sábado, 14 de março de 2015

Quantos mil?

Nunca vi manifestação que não fosse inflada ou desinflada, de acordo com o observador. Também não precisa exagerar.

Existe método para calcular com razoável precisão. Precisa de uma boa foto aérea. O que a Folha fez ontem na Paulista, com pesquisadores no meio da massa, me parece uma sofisticada picaretagem.

O exagero começou para valer na campanha das Diretas Já. É que todo mundo era a favor. Cada um aumentava um ponto. O famoso comício da Candelária consagrou o número de um milhão. Não cabia. Fui conferir no Google Maps. São mais ou menos 125 mil metros quadrados. Na boa, umas 500 mil pessoas. Não tinha isso tudo. Mais para trás, perto da Rua Uruguaiana, a multidão estava bem dispersa.

De lá para cá, se não reunir cem mil é fracasso. Caramba. Nem jogo do Flamengo.

Vamos combinar que 10 mil fazem uma boa manifestação. 50 mil arrebentam. De cem mil para cima, só em grandes ocasiões: visita do papa, seleção campeã do mundo, show dos Beatles - mas só se for com o John e o George.

As manifestações de ontem foram bonitas à beça. Tinha muita gente. Faz tempo que a turma não ia para a rua com essa força. Valeu.