"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo..."

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dunga

Não tenho nada contra o Dunga. O mau humor dele não me incomoda. Ser campeão do mundo e xingar a taça é um pouco muito, admito. Foi o que ele fez. Basta ver o vídeo. A leitura labial é a maior moleza. Em 2002, o Cafu fez uma declaração de amor. Em 1994, o Dunga soltou uma enxurrada de palavrões. Deixa para lá. Era o alivio do estresse. O desabafo. Sei lá. Cada um comemora como pode.

Repito: não tenho nada contra o cara. Em 1990, a seleção era limitadíssima. Alguém teve uma ideia de jerico: ia ser sempre assim, não cabiam mais craques no futebol moderno; aquele timinho inaugurava um novo e radiante período no desporto: a "Era Dunga". Coitado. Não tinha nada a ver com o pato.

Quatro anos depois, o time era melhorzinho. Pelo menos tinha dois craques na frente: o Romário e o Bebeto. O Dunga estava lá, de volantão. E não é que ele se superou? Além de tomar a bola e escalavrar as canelas do adversário - suas especialidades -, ele fez belos lançamentos de 30, 40 metros. O Brasil foi campeão. Foi quando ele xingou a taça. Esquece, esquece.

É isso. o Dunga foi um jogador valente, dedicado, um tanto violento, eficaz na proteção da defesa. Nada demais. Também não é motivo de vergonha.

Meu problema com o Dunga é outro. Ele é... digamos... desprovido de um intelecto superior... não, não é bem isso... pouco prendado em matéria de inteligência... ah, vou deixar de melindres: ele é burro, mesmo.

Em 2006, criticando a posteriori a seleção, o luminar pontificou: "o time nunca poderia ganhar assim, jogando no 4-2-4". Meudeus! Onde é que ele viu 4-2-4? O time base contava com quatro zagueiros, um volante, três meias mais avançados e dois atacantes. O cara tinha anos de janela e me sai com essa!

Chamaram o moço para ser ténico, na preparação para 2010. Ele montou um timinho marromeno. Fechava lá atrás e saía no contra-ataque. Nas substituições, era somar 11. Tirava o 2, punha o 13; tirava o 5, punha o 16; tirava o 10, punha o 21. Cada um na sua casinha. Perto disso, o Felipão é um misto de Zé Mourinho com Rinus Michels, técnico da "laranja mecânica" em 1974.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Família Bueno - Ana Lua, dois meses

Foi ontem. A gente combinou de comemorar cada mês até ela fazer um ano. Não. Não é bem assim. A gente não combinou nada. Ou foi uma combinação sem palavras. Por aí.

Comemoração bem simplezinha. Um bolo pequeno. Uns salgadinhos. Duas ou três amigas da mamãe. E o vovô, é claro.

Parece que ela não gostou muito da festa. Tinha tomado vacina. Que maldade.

Em dois meses, a Ana Lua virou duas Anas Luas. De três quilos para seis. É que ela é muito bem alimentada.

Mas não era tanto para falar da Ana, que às vezes eu chamo de Nhenhé por causa do chorinho. Era para falar da mãe dela. A Tereza.

A Tereza está aí, com seus 20 anos recém-feitos, mãezona do seu jeito meio estabanado, carregando a malinha dela para tudo quanto é lugar. Outro dia elas foram fazer compras na Rua da Alfândega. A mamãe chegou com as costas tortas de tanto carregar peso. Eu tinha dado um dinheirinho de presente de aniversário, ela comprou uma roupa para ela e outra para a filhota.

Enquanto eu escrevo isso aqui, saíram as duas. Foram na casa de uma amiga aqui perto. A mamãe vai arrumar os cabelos. Hoje à noite, ela vai sair. Arrumou uma amiga para ficar de babá. O leite da madrugada já está reservado. A Ana Lua não gosta muito de mamadeira, mas quando a fome aperta ela topa. Só precisa ser leite de verdade, vindo da fonte segura e conhecida, senão...

domingo, 13 de julho de 2014

Alemanha 1 x 0 Argentina

Primeiro tempo muito tático, com alguns momentos de pura e límpida chatice. O Sabella deu um nó no Löw. Armou o time fechado, só o Messi e o Higuain na frente, isso quando o Messi não voltava. Botou o Biglia fungando no cangote do Kroos. Quando tomava a bola, era correria em cima do Howedes, fraco lateral-esquerdo alemão.

O Löw começou com azar. Perdeu o Khedira no aquecimento. Entrou o Kramer. O Kramer deu um trombadaço de cabeça num argentino. Ainda ficou um pouco em campo, mas pensando que estava em Leverkusen. Saiu. O Löw aproveitou para mudar o time. Entrou o Schürlle, para abrir mais o ataque e dar um primeiro combate pela esquerda. O Özil foi jogar mais pelo meio.

A Alemanha tinha a posse de bola, mas a Argentina chegava com perigo. O Higuaín perdeu um gol feito, depois de ganhar um presente do Kroos. O Kroos estava visivelmente incomodado com o bafo do Biglia.

No intervalo, saiu o Lavezzi para a entrada do Agüero. A Argentina passou a jogar com três volantes, o Messi de enganche e dois no ataque. Não funcionou. Rapidinho a Alemanha encaixou a marcação. E os hermanos perderam o contra-ataque e um pouco da consistência defensiva. Sorte deles que os alemães não viravam a bola, quando toda a defesa estava de um lado só. Isso aconteceu várias vezes. E era muito chuveirinho. Se o primeiro tempo foi monótono, o segundo foi ruim mesmo. Lá pelos 30, os dois times já pareciam cansados. Ou segurando a onda, para a prorrogação - que veio, inevitavelmente.

Prorrogação é teste físico e mental. Foi a Alemanha que continuou procurando. Até mais do que no segundo tempo. O Schweinsteiger foi um símbolo - exausto, com cãibras, caçado em campo, mas de pé até o fim. A Copa das Copas não merecia terminar em zero a zero. Escapada do Schürle, belo gol do Götze. Símbolo, também - os dois nasceram depois da reunificação do país.

Futebol Borgeano

1

Em seu verde rincão, os jogadores
a bola vão movendo. O artilheiro,
marcado com rigor pelo zagueiro,
não consegue golear p'ras suas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores:
volante homérico, leve e ligeiro
ponta, armador de passe prazenteiro,
o ubíquo meia e os alas agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
e já trinado o derradeiro apito,
do torcedor o fatigado grito
manterá viva a essência dessa guerra,
que é gentil mas envolve toda a Terra:
o futebol é espelho do infinito.

(parte 2 depois do jogo, se eu conseguir... hehe)

Autópsia 3 - hecatombe

Recapitulando: um time de entressafra foi treinado em clima de ôba-ôba, depois da vitória enganosa na Copa das Confederações. Mas nada apontava para a hecatombe.

Acho que começou na overdose emocional. Eu nunca tinha visto um técnico começar um torneio se declarando favorito, dizendo que tinha obrigação de ganhar. Haja pressão em cima dos meninos. Aí o jogo não encaixava, as vitórias (e os empates) vinham no sufoco... o grupo foi ficando mais nervoso que gato em dia de faxina.

O primeiro apagão não foi contra a Alemanha. Foi contra o Chile. O Hulk até vinha jogando bem, mas deu aquele passe desastroso, eles pegaram a bola no ataque, empataram. O Brasil, que dominava a partida, parou de jogar. Os chilenos não ganharam porque respeitaram demais a seleção. Tomaram conta do jogo, mas ficaram tocando bolas sem profundidade.

Veio o atropelamento do Neymar. Lamentável. Mas a Colômbia tinha perdido o Falcão Garcia antes mesmo da Copa. Teoricamente, uma perda maior. Não foi. Porque - além do James Rodrigues - a Colômbia tinha um time acertado. Nada demais. Pobre, mas limpinho.

Contra a Alemanha, eu cheguei a pensar que o Felipão ia escalar um terceiro volante, para jogar fechado, atrás daquela bola decisiva. Mas não. Botou o Bernard. Pobre menino.

Por mais que eu explique, não vou explicar nada. Foi um resultado anormal, construído em apenas seis minutos, um negócio mais anômalo ainda.

Ninguém já sabia.

Autópsia 2 - me engana, que eu gosto

Você quer que o Brasil seja campeão em 2018? Então torce para perder a Copa América. Se perder a Copa América, não joga a Copa das Confederações. Se não jogar a Copa das Confederações, não pode ganhar. Ganhar a Copa das Conferações é uma roubada. A seleção foi campeã em 2005, 2009 e 2013. Ficou todo mundo achando que estava tudo bem. Tremenda enganação.

No ano passado, a seleção venceu a Espanha na final. A Espanha! Supercampeã! O time invencível! Pois é. O time invencível já estava na descendente, rumo à completa vencibilidade.

De lá para cá, não mudamos nada. Jogadores melhoraram, jogadores pioraram. Teve boleiro que sumiu no banco de reservas do seu time. Mas o grupo foi basicamente o mesmo.

Foi pior na parte tática. A tática da Copa das Confederações podia ser chamada de "canta o hino e sai correndo". Pressão total nos primeiros quinze minutos, turbinados pelo doping patriótico. Deu certo, num torneiozinho sem expressão. Na hora do vamos ver, já estava todo mundo preparado.

E o que o Brasil sabia fazer, além de marcar forte no campo adversário? Dar chutão para a frente. Bater falta. Toque de bola? Nada. Jogadas ensaiadas? Nenhuma. Contra-ataque? Pouco. Jogadas pelas pontas? De que jeito, se os pontas embolavam no meio?

O time foi passando aos trancos e barrancos. Só enfrentou time fraco ou freguês de caderno. O Felipão fez mudanças pontuais. Tirou o Daniel Alves, que não estava bem. Mas como tirar o Fred, se o reserva era o Jô? Mudar para valer, alterando a forma de jogar, ele nem tentou. Talvez fosse tarde. Não tinha treinado opções antes.

Eu disse em outro post que esse grupo é de entressafra. Mas também não é nenhuma porcaria. Podia ocupar melhor o meio do campo. Podia experimentar jogar sem centro-avante típico. Podia por três zagueiros e soltar os laterais, como o Felipão fez muito bem em 2002. Podia aproveitar melhor o Oscar, que virou um tomador de bola, logo ele que era para dar classe do meio para a frente. Podia tentar tanta coisa... mas precisava treinar, experimentar em amistosos, ver se dava certo.

É fácil crucificar o Felipão. Ele é o maior responsável, mesmo. Mas todo mundo achou que dava pé. Que ia ser difícil. Que ia precisar de superação. Mas que dava.

Pois é. Não deu.

Antes do jogo - Argentina x Alemanha

O Rio amanheceu com um céu azulão, poucas nuvenzinhas, um dia ensolarado de inverno como só o Rio pode oferecer. A Copa das Copas merece.

É uma bela final. Podia ter sido a Holanda. Melhor com a Argentina. Um país de cada continente.

Antes da Copa, a gente dizia que o problema argentino era a defesa. O time não tem mesmo expoentes por ali. Mas o que faz uma boa tática e muito treinamento. O Alejandro Sabella desencavou o veterano Demichelis, que montou uma boa dupla com o Garay. Nenhum dos dois se destaca no cenário mundial. Mas estão funcionando. A Argentina só levou três gols até agora, todos na fase inicial.

O Mascherano surpreende. É o Dunga deles. O Dunga de 94, bem entendido: aquele volante seguro que de repente se mostra capaz de fazer lançamentos, de comandar a transição da defesa para o ataque. Ao lado dele, o Gago tem bom passe curto.

E o ataque, aí que inveja! Nem vou falar do Messi. Mas eles se deram ao luxo de não convocar o Tévez. Bem que ele podia ter se naturalizado brasileiro...

A Alemanha é mais time. A equipe vem sendo montada há uns oito anos. Tem o melhor goleiro da Copa, o Neuer. Uma defesa firme, onde o elo fraco é o lateral esquerdo,  o Howedes, que é um zagueiro improvisado. Um meio de campo que defende, ataca, toca, lança, se infiltra. Um ataque muito rápido. Ótimas opções no banco.

O time alemão joga bem compacto, com a defesa em linha, e às vezes abre espaço para lançamentos em profundidade. Por isso o Neuer sai muito do gol. Com a bola, eles não têm nada a ver com a tradicional escola germânica, baseada em força e velocidade. Tocam muito. É o time que mais troca passes nessa Copa.

Já falei, repito agora. Num campeonato de pontos corridos, a Alemanha ia ser campeã com umas duas rodadas de antecedência. Mas é mata-mata. Final. Tudo ou nada. Coração na boca. Hermanos ocupando a cidade. A Argentina pode se superar.

sábado, 12 de julho de 2014

Autópsia 1 - entressafra

A onda agora é ser catastrofista. Está tudo errado. Desde a estrutura federativa do esporte brasileiro até a cor do cabelo do Neymar. E buscar judas que se adequem à cerimônia de linchamento. O Felipão. O Fred. O Hulk. O Paulinho. O Daniel Alves. Um outro qualquer.

Não embarco nessa. Já vi coisa pior. Em 1966, o Brasil tinha dezenas de jogadores que podiam brilhar em qualquer seleção do mundo. A preparação foi tão horrorosa que o time caiu na fase de grupos. Em 1990, teve briga por dinheiro, por escalação, por ciúme da namorada, o diabo. O grupo só tinha baba. Passamos. Perdemos nas oitavas para uma Argentina que era só Maradona. E essa foi a Copa de mais baixo nível técnico da História. Em 2006, uma ótima geração jogou muito menos do que podia, porque a concentração era uma esbórnia. Em 2010, o ténico era o Dunga. Pelamordedeus. O Dunga.

O Felipão não é o gênio da raça, mas tinha feito um bom trabalho em 2002. Não era um time encantado, mas jogava bem e vencia. Mas tinha o Ronaldinho, o Ronaldo e o Rivaldo, entre outros.

O time deste ano era de entressafra. Não tínhamos grandes jogadores entre os 25 e os 29 anos (por aí), que costuma ser o auge. Só zagueiros. O Neymar era a maior estrela - 22. O Oscar era para ser o homem das assistências - 22. A grande esperança era o Bernard - 21. Isso sem falar no Lucas, que tem 22 e com justiça não foi convocado - vivia má fase, coisa normal em jogador jovem. E no Philippe Coutinho, também 22, que podia muito bem estar no grupo.

O centro-avante era o Fred - 31. Não tenho nada contra ele. Mas na última Copa ele não foi nem chamado. Os laterais também estavam todos na casa dos 30. Os outros, da geração teoricamente no auge, eram todos coadjuvantes nos seus times. Bons jogadores. Volantes de qualidade. Só isso. Também o Jô. O Hulk.

Você vai conferir, e vê que a última temporada da maioria não foi grande coisa. A do Paulinho, mal adaptado ao Spurs, foi péssima. O Luiz Gustavo saiu do Bayern para um time mediano, senão não jogava. O Julio Cesar só arrumou uma vaguinha no Canadá. O Bernard sumiu, depois que saiu do Atlético. O David Luiz vinha jogando de volante. O Fred não se destacou nem no campeonato estadual. Etc.

Podia mudar alguma coisa na convocação? Podia. Mas não muito. Time de entressafra.

Holanda 3 x 0 Brasil

Difícil falar desse jogo. Primeiro, pelas circunstâncias extra-campo. A Holanda não estava muito a fim. E o Brasil vinha de você-sabe-o-quê. Além do mais, time todo mexido. Se os titulares já não mostravam esse entrosamento todo... Depois, pela arbitragem. Foram dois erros capitais em quinze minutos. Que maré!...

Se os gringos já não queriam bola, imagina ganhando de dois. O Brasil tinha vontade. Mas era tudo no chutão ou na jogada individual. Os holandeses paravam nosso ataque fácil - ou na bola, ou na falta.

O time da camisa amarela... espera, deixa eu explicar. O João Saldanha chamava a seleção de "time da camisa amarela", sempre que estava irreconhecível, jogando pedrinha. Não pense que é coisa de hoje. A cartolagem sempre fez o possível para estragar nosso futebol.

Voltando. O time de camisa amarela não era um time. Era um bando.  Muita vontade. Pouca coisa mais.

E a Holanda ainda fez o terceiro no finzinho, só para ficar mais chato.

Antes do jogo - Brasil x Holanda

Não, o time do Brasil não é a pior porcaria do mundo. Se fosse, tinha saído na fase de grupos. A Espanha saiu. A Inglaterra. A Itália. O time do Irã, que é uma das piores porcarias do mundo.

Torcedores costumam ser ciclotímicos. Ou está tudo ótimo, ou está tudo péssimo. Estranho é quando os comentaristas também são.

O time da Holanda é melhor. Tecnicamente, tem um cara que está sobrando - o Robben. Ainda tem outros ótimos do meio para a frente. A defesa não é uma beleza, então o Van Gaal montou um esquema bem cauteloso, com três zagueiros e dois alas que defendem mais que atacam. Deu certo. É um time que leva poucos gols. Ou seja - é melhor em termos táticos, também.

O Brasil sofre das dores que conhecemos. Sem o Neymar, não há ninguém que desequilibre. Não tem toque de bola. Não dispõe de um reserva para o Fred, que está em péssima fase. Deixa o meio do campo às moscas. Essa última carência talvez melhore, parece que o Felipão vai escalar três volantes.

Tem a parte física e o estado anímico. Talvez decidam o jogo. A Holanda deve estar mais desgastada. Jogou na quarta, enfrentou uma prorrogação. E o que será pior? A desmotivação holandesa, onde até o treinador disse que o jogo não vale nada? Ou os nervos em frangalhos da nossa seleção?

Enfim... relaxe. É quase um amistoso. Pega uma cervejinha e vai curtir o jogo. O pior já passou. A não ser que... ih, espera, já volto, quase que eu esqueço do meu remédio!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Soneto da Eliminação

De repente, do riso fez-se o pranto
Que derrota é derrota, mas nenhuma
Foi esse amargo chope sem espuma
E teve tantos gols, mas que espanto!

De repente uma calma de convento
Na torcida que ulula, grita, inflama
A dor do brasileiro barulhento
Foi silencioso e solitário drama

De repente, não mais que de repente
Foram quatro seguidos num rompante
Depois mais três e então era o bastante

Fez-se do jogo um sonho torturante
Fez-se do treinador um meliante
E fez-se vira-lata o que era gente!

Day after

Ontem, eu desliguei a televisão quando um entendido garantiu que já sabia. Era o mesmo cara que lá atrás tinha dito que o Brasil era "favoritaço". Isso na ESPN, que é a melhorzinha de todas.

Eu não estava nem triste. Estava chapado. Mais de meio século de futebol, nunca tinha visto. Fui dormir às 9 e meia da noite. Sono agitado. Eu sonhava que tinha sonhado que o Brasil perdia de 7 a 1.

Acordei agorinha. Moído.

Alguns amigos me pediram para explicar. É o que dá escrever sobre futebol. Alguém pode pensar que a gente é entendido. Eu não entendo nada. Ontem, em particular.

Deu apagão. Faltou o craque. A escalação foi errada. O Felipão escalou mal. O time não treinava. Está tudo errado no futebol brasileiro. As explicações vão do menor (os seis minutos com quatro gols) até o mais gigantesco (a estrutura federativa do esporte).

Prefiro o minúsculo. A teoria do apagão. Que pode ser explicado (olha eu tentando) pela enorme pressão em cima de um grupo inexperiente. Mas 7 a 1! Está acima da capacidade humana de explicar tudo. É derrota de proporções... deixa eu achar um adjetivo, que "históricas" é pouco. Babilônicas. Homéricas. Faraônicas. Hiperbólicas. Supercalifragilisespiralidôsicas.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Alemanha 7 x 1 Brasil

Sem comentários.

Antes do jogo - Brasil x Alemanha

A Alemanha tem o melhor time dessa Copa. No mínimo, tem o melhor elenco. Se fosse um campeonato de pontos corridos, era favorita disparado. Mas é torneio curto, com mata-mata. E também não está "sobrando", como se diz.

O time alemão joga bem compactado. Às vezes, os dez ocupam só vinte metros do gramado. Não fica espaço entre zagueiros e volantes. Mas tem uma coisa. A defesa joga em linha. "Linha burra de quatro zagueiros", como dizia o João Saldanha. É burra porque, se você passa por um, passa por todos.

Com todo mundo pertinho, eles tocam a bola e evitam que o adversário faça o mesmo. Mas são vulneráveis no lançamento em profundidade, entre os zagueiros e a meta. É por isso que o Neuer sai à beça do gol, é quase um líbero.

Tudo indica que o Felipão vai botar o Willian no lugar do Neymar e pronto. Mas quem vai ficar no meio, mais perto do Fred, vai ser o Oscar. Pode ser uma solução. Pelo menos, é a que mexe menos no time. Ouço e leio alguns entendidos que querem trocar tudo. Cada um do seu jeito, é claro. As seleções deles poderiam ser ótimas. Só precisava ter treinado assim.

O Oscar deve jogar mais solto. Willian e Hulk voltam sempre. Dois dois, o que jogar pela direita vai ter uma avenida. É o elo fraco da corrente germânica. O outro vai ter que se preocupar com o Lahm, que talvez seja o melhor lateral do mundo.

Se prepare para uma partida em que a posse de bola é do adversário. David Luiz vai dar um monte daqueles chutões, que não são lançamentos de Didi, mas também não são jogadas de beque da roça. O Fred precisa aparecer, se movimentar mais. Ninguém quer que ele volte para buscar bola. Mas não pode ficar parado entre os beques, que são altos e têm categoria. Precisa se mexer, para facilitar o passe.

O Brasil pode ganhar. Mas vai ser no sofrimento. Quando é que não foi?

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Treinadores

O Van Gaal trocou o goleiro no finzinho do jogo contra Costa Rica, só para a disputa de pênaltis. E os entendidos já começaram a babar o cara. Ninguém se perguntou qual teria sido o peso de não usar todas as substuições possíveis na linha, numa partida de 120 minutos. Teve um entendidíssimo que garantiu que o técnico fora decisivo até nessa hora, que é a mais individual do futebol. Eu, que sou bobo, acreditava que decisivo tinha sido o Krul, que pegou duas bolas.

Diz que o gordo Feola, em 1958, tirava longos cochilos durante os jogos da seleção. Eu prefiro acreditar que ele fechava os olhos para visualizar soluções geniais que melhorassem o futebol do Nilton Santos, do Didi, do Garrincha, do Pelé, dessa turma meio mais ou menos.

Uma vez, o João Saldanha confessou que, quando treinava o Botafogo, ele fazia uma rodinha de dez para passar as instruções. O décimo-primeiro ficava de fora, brincando com a bola, que era o que ele gostava de fazer. Tratava-se de um tal de Mané.

O Garrincha, aliás, de bobo não tinha nada. Ficou famosa sua pergunta para o treinador, que explicava tintim por tintim como eles iam ganhar o jogo. Se não me engano, era contra a União Soviética. O "professor" dizia assim: "então o Didi pega a bola, lança para o Garrincha, que dribla o lateral e centra na cabeça do Vavá..." quando o craque das pernas tortas interrompeu, com ingenuidade fingida: "o senhor combinou com os russos?"

Os super-técnicos estão na moda. Eu sou da velha guarda. Acho que técnico é que nem árbitro: quanto menos aparece, melhor. Ou então é como o maestro da orquestra: o trabalho importante, mesmo, não é na hora do concerto - é nos ensaios. Outra comparação: assim como o goleiro, o treinador é mais importante quanto o time é ruim. Enfim, o técnico muito ajuda quando não atrapalha.

O goleiro titular da Holanda saiu literalmente chutando o balde. Depois se desculpou. É porque deu certo. Podia não ter dado. O Van Gaal ia ficar no Brasil mesmo, escondido da fúria da torcida holandesa. Talvez conseguisse emprego, treinando o XV de Piracicaba.

sábado, 5 de julho de 2014

Antes do jogo - Argentina x Bélgica

A Bélgica tem 30 mil quilômetros quadrados. É um pouquinho maior que Alagoas. Mas é dividida em dois pedaços que não se entendem, até porque têm línguas diferentes. Ao norte, na região de Flandres, a maioria fala holandês e alguns falam alemão. Francês é a língua da Valônia, que fica ao sul. É uma espécie de Suíça com briga na família. O caso é tão sério que o idioma oficial da Federação de Futebol é o inglês.

A Argentina a gente conhece. Não vou fazer piada, que já apanhei o suficiente. A Argentina é um país gigante, pelo menos quando joga bola. Mas me diga como é. Só ganhou duas Copas, uma a menos que o Pelé. Por isso mesmo, eles estão com ganas de empunhar o caneco aqui, em terras brasileiras. Os caras se acham. Não, eu não disse isso, desculpe.

A Bélgica tem um craque: o Hazard. Ele é valão, logo fala francês, logo o nome dele se diz "Azár" mesmo, oxítono, com "h" e "d" mudos. Mas os nossos locutores falam "Razár" ou "Rázar", até "Rázard", com "h" aspirado. Talvez para evitar o duplo sentido. Então não podia narrar jogo do Irã, que tem o Merdhad, nem do Japão, onde joga o Kagawa.

Me perco na prosódia. De volta. A Bélgica tem um craque, uns zagueirões fortes que batem bem, um motorzinho incasável no meio do campo - o Fellaini -, vários caras que correm muito e um centro-avante que está meio por baixo - o Lukaku. Cuidado na hora de falar o nome dele. Dizem que é a melhor geração do futebol belga, o que não chega a assustar ninguém. Mas o time é muito bem entrosado.

A Argentina tem um super-craque, desses que só aparecem de vinte em vinte anos. O Messi, claro. Também tem o Ángel de Maria, o Lavezzi, o Higuain, o Palacio... tudo atacante. O meio é esforçado e duro de encarar. A defesa não entusiasma. E o time ainda não "encaixou" tão bem quanto o belga. Mas tem uma coisa que valões e flamengos juntos jamais terão: camisa. E camisa ganha jogo, em Copa do Mundo.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Depois do jogo

Eu precisava sair de casa. Fui no boteco da esquina. Eles têm um chope bem tirado e uns tira-gostos legais.

De longe, achei que não ia dar. Era uma pequena multidão. Mas tinha mesa sobrando. A maioria em pé, para queimar a adrenalina.

Pedi um chope e dois pastéis, agradecendo a deus por não ser paulista. Fiquei ali, meio besta, vendo a TV sem som. Futebol na TV sem som é muito legal. Os comentaristas ficam calados.

Na partida contra o Chile, meu amigo Rui me convidou para ir na casa dele. Disse que ia. Não fui. Desculpa, Rui. Não deu. É que eu vejo a Copa aqui, neste apartamento, desde 1970. Depois do jogo contra o Uruguai, meu pai abriu uma garrafa de scotch para a garotada. Era o resgate do maracanazo, que ainda não se chamava assim.

Depois, sempre que pude. Morei um tempo em Brasília, e tal. Mas gostava de voltar aqui para assistir com o velho. Na Copa de 94, depois que o Baggio perdeu o pênalti, saí gritando pelo corredor e mordi a língua.

O velho não está mais aqui. O velho agora sou eu. Metade do segundo tempo foi com a netinha no colo.

Me perco na história. Bebi, comi, na hora de pagar a conta dei 20% para o garçom. Voltei para casa andando a uns dois palmos acima do chão.

Queria abraçar o meu pai.

Brasil 2 x 1 Colômbia

Nos primeiros cinco minutos, o Brasil já tinha tomado duas bolas no ataque.Numa dessas, teve escanteio, gol. Thiago Silva. Logo ele. Coisa de roteiro de Hollywood.

O jogo ficou do jeito que o Felipão gosta. Mas o time estava apressado. Errava muitos passes. Deu algumas chances de contra-ataque. Num deles eram quatro contra dois. O Thiago Silva cortou o cruzamento, com um tempo de bola incrível. Ele, de novo.

Primeiro tempo lá e cá. Corrido. Aberto. Um tanto faltoso. Quase sempre sem maldade. Apesar de não botar a bola no chão, o Brasil controlava o jogo.

Segundo tempo. A Colômbia voltou para sufocar. Normal. O Brasil até que se defendia bem. Mas entregava a bola para os caras o tempo todo. Nem com 2 x 0 o jogo ficou tranquilo. Com 2 x 1, então, foi uma odisseia.

Não que a Colômbia tivesse muitas chances. Mas faltava, no Brasil, o que a Alemanha teve de sobra: tranquilidade para tocar a bola e fazer o relógio andar. Os colombianos começaram a apelar. Futebol, que é bom, mostraram pouco. Faltas violentas. O Zuniga literalmente atropelou o Neymar, jamanta passando por cima de fusquinha.

Julio Cesar, muito bem. Maicon deu consistência ao lado direito, tanto na defesa quanto no ataque. Thiago Silva e David Luiz, dizer o quê? Não só defenderam muito, mas fizeram os gols. Aliás, que tirambaço do David! O Marcelo segurou bem o Quadrado e ainda apoiou. Os volantes foram bem. O Hulk, meio atrapalhado. O Oscar foi eficiente, mas ainda longe do que se espera dele. Não era o dia do Neymar. Ainda saiu machucado e preocupa. Fred saiu mais da área, ajudou à defesa, lutou muito.

Que venha a Alemanha!

Alemanha 1 x 0 França

Logo no início do primeiro tempo, deu para ver na tela da TV. A França tinha a bola, na defesa. No seu campo, da intermediária para a frente, eram seis alemães. Os outros quatro ficavam na linha do meio do campo.

A Alemanha começou assim. Na pressão. A França ficava atrás e tentava resolver na velocidade. Não conseguia. Depois do gol do Hummels, os gauleses adiantaram a marcação. Os chucrutes seguraram o facho, para ter fôlego até o fim. Começou a ola na arquibancada.

Segundo tempo. A França voltou para sufocar. Os alemães, a fim de passar o tempo. O jogo ficou travado. Sem muito brilho, fora uma ou outra jogada individual. Mata-mata não é hora de show.

Lá pelos 30, o técnico francês botou o Remy. Tudo ou nada. A Alemanha, só na defesa e no contra-ataque. O Müller perdeu um gol feito. 40 minutos. Saiu o Valbuena, entrou o Giroud. Desespero. O Giroud é o "brocador" do Arsenal.

Placar apertado. Claro que a França podia ter feito um golzinho e mudar a história da partida. Mas em nenhum momento deu pinta. Ao contrário. Fora aquele chute do Benzema no final, as melhores chances foram da Alemanha.

Teve entendido que disse que a França ficava melhor sem o Ribéry.  Piada. Craque sempre faz falta.

Acho que a Alemanha tem a melhor seleção dessa Copa. Não tem um boleiro-show, como o Messi ou o Neymar. Mas tem muitos jogadores excelentes. Sou mais o Neuer que o Ochoa e o Tim Howard juntos. Esses são muito bons debaixo das traves. O Neuer, além disso, sabe sair do gol - o fundamento mais difícil do goleiro. O Schweinsteiger talvez seja hoje o melhor meio campo do mundo. Tem o Lahm, o Müller, o Özil, o Kroos, o Götze... a lista é longa.  E o time já vem entrosado de fábrica - é muita gente do Bayern de Munique.

Sonetinho boleiro

No futebol, metáfora da guerra
Se encontram hoje em campo tão distante
Dois vizinhos não mais beligerantes:
França e Alemanha. Paz reine na Terra.

Que viva o esporte-símbolo que encerra
A luta no gramado diletante!
Porém, se brota o ódio que era antes
(Também é gente o craque, também erra)

Então se volta ao tempo das caçadas
E das tribos trocando bordoadas
Retorna o recalcado e seus azares.

Até Pelé já deu cotovelada
Zidane, que é Zidane, cabeçada
Me poupem da mordida do Suárez!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Torcida politizada

Naturalmente, eu tenho vários amigos de esquerda. A maioria deles politiza a sua torcida. São sempre contra os Estados Unidos. Apoiam os africanos. Querem a derrota dos europeus, colonizadores. Sonham com uma "Copa América", cheia de latinos no final.

Não tenho nada contra. Nem a favor.

Ruim é transformar esse critério em dogma. Cada um tem seus motívos para torcer por um ou por outro. Eu, por exemplo. Queria torcer pela Argentina, contra a Suíça. É que eu adoro Buenos Aires. Tenho amigos e amigas queridas lá. O futebol do Messi me encanta. Aí eu vi uns vídeos da torcida deles aqui. Gente de todos os países chegou, confraternizou com os brasileiros, fez festa. Os argentinos - aqueles dos vídeos que eu vi - acharam mais divertido provocar, cantar musiquinhas sacaneando o Pelé, gritar coros contra o Brasil. Que simpatia. Virei suíço. Fui ver o jogo. O Messi deu uma daquelas arrancadas dele. Voltei a ser portenho. O Shakiri respondeu à altura. Suisse! Suisse! E fui nesse embalo o jogo todo.

Uma amiga disse que torcer contra a Argentina era o fim. Eu respondi, na brincadeira, que os argentinos são detestados na América do Sul toda. Ela me exigiu provas científicas da minha afirmação. Dos 400 milhões de habitantes do continente, ela é a única que não conhece a fama dos hermanos. Um outro ficou indignado com quem apoiava os Estados Unidos. Logo os Estados Unidos! Eu lembrei que ele estava junto com a extrema-direita de lá. É verdade. O Tea Party detesta futebol. Para aqueles fanáticos, o futebol é um esporte alienígena, que devia ser banido do país.

Eu torço pelo Brasil, como quase todo mundo. Diga-se, de passagem, que torcer contra é um direito inalienável. Depois, torço pelo bom futebol. Ou então pelo time teoricamente mais fraco. Por simpatia: Portugal, por motivos familiares; Uruguai, por laços de amizade. Ou torço porque me dá na veneta.

Patrulhar a torcida dos outros é sectarismo demais para o meu gosto. Imagina na eleição!

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Não tem mais bobo"

É... a seleção não tem meio de campo, os meninos estão nervosos e coisa e tal. Mas não tem ninguém sobrando, nessa Copa. Os bichos-papões estão sofrendo. Itália, Inglaterra e Espanha ficaram lá no início. Alemanha, Holanda e Argentina tomaram sufoco nas oitavas. A França passou mais fácil, mas também não foi moleza.

Um amigo meu acha que está nivelado por baixo. Não concordo. Tanto não é isso que os jogos, em geral, são muito bons.

A culpa, em parte, é da nossa memória. A gente tende a lembrar melhor os bons momentos, a recriar um passado mais colorido e mais bonito. Aquele super-time de 82 só ganhou da Rússia no apito. Em 2002, contra a Bélgica, se não fosse o juiz, não sei não. O escrete de 62 quase perdeu para a Espanha. Em 58, o Garrincha foi expulso na semi-final, os nossos cartolas sumiram com a súmula e deram um jeito de o bandeirinha-testemunha desaparecer.

Também tem razões objetivas.

A evolução e a globalização do esporte. As equipes menores melhoraram. Têm muitos jogadores que jogam na Europa. Importaram treinadores. Ganharam consistência tática. Todas têm saúde e pelo menos um ou dois caras bons de bola.

O preparo físico. O pessoal corre mais e o campo diminuiu. Ficou mais fácil ocupar todos os espaços. Bom para a defesa. Já na década de 80 o Saldanha queria que tirassem um jogador de cada time. Com dez, o jogo ia fluir melhor.

O calendário. Os jogadores chegam no fim da temporada quebrados. Principalmente os craques, que jogam mais torneios e entram em campo mais vezes. Esses estão, em geral, nas melhores seleções.

O fator anímico. Num torneio curto, onde cada jogo é decisivo, os caras dão tudo de si e mais um pouco. Não dá para jogar assim o ano todo. Ninguém ia aguentar. A superação marcou as atuações finais da Nigéria, da Argélia e da Suíça.

Claro que ainda tem bobo. Nessa Copa teve Camarões, Coreia, Honduras e mais um ou outro. Mas alguns "pequenos" fizeram bonito - para alegria dos amantes do futebol e dos cardiologistas.

domingo, 29 de junho de 2014

Holanda 2 x 1 México

"Eu não disse?" Ai, que frase cabotina. Mas eu disse, nenhum entendido disse, não vou ficar de falsa modéstia.

Eu disse que a Holanda ia sofrer assim que enfrentasse um time com ataque. É que a equipe é ótima na frente, mas tem um goleirinho marromeno e uns becões lentos que só. O Van Gaal sabe disso melhor que ninguém. Então, ele botou três zagueiros que ficam lá atrás e armou o time para jogar no contra-ataque.

O México também usa três zagueiros e também gosta de contra-atacar. Mas não ficou no jogo de espera. Partiu para cima, ainda que com cautela. Teve várias chances do gol no primeiro tempo. A Holanda fez o quê? Acho que foi só um chute a gol em 45 minutos.

No início do segundo tempo, o Giovani dos Santos marcou. Joga muito, esse quase brasileiro. O jogo ficou do jeito que o México queria. Mas o Herrera fez uma substituição que eu não gostei: tirou o Giovani para a entrada do Aquino, um meia mais defensivo. Montou um ferrolho. Mas perdeu o contra-ataque.

Pressão, pressão, pressão. Até que o Sneijder acertou um tirambaço. Empate. O México desabou. Pênalti bobo no finzinho. Huntelaar bateu, inapelável.

A Holanda sofreu, enquanto o adversário tinha ataque. O México sucumbiu ao próprio medo. É a sexta ou sétima vez seguida que eles caem nas oitavas. Escrita existe, em Copa do Mundo. E camisa ganha jogo.

O esquema ideal

O consenso é que o jogo da seleção não flui. Não tem meio de campo. É muito chutão da defesa para o ataque. Os laterais deixam espaço nas costas. A bola não chega no centro-avante.

Ao contrário da maioria dos entendidos, eu não acho que o Felipão seja só um motivador. Ele não teve sucesso com o limitado time de Portugal à toa. E montou muito bem a nossa equipe, em 2002.

Em 2002, o Felipão escalou três zagueiros. O pessoal estranhou. Não era usual no futebol brasileiro. Ele explicou: os laterais (Cafu e Roberto Carlos) avançavam muito. Era a maior qualidade deles. Com três zagueiros, eles ficavam de alas, mais liberados. Dois volantes acabavam de fechar a defesa. Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo ficavam soltos para criar.

A gente não tem um meia armador. Mas repara: em 2002 também não tinha. Mas os volantes não precisavam se restringir a marcar: eram três na última linha. Os alas faziam a transição. O Ronaldinho voltava para armar o jogo. Ò Rivaldo, às vezes. O meio de campo era mais povoado.

Eu gostaria de ver a seleção de hoje jogar assim. Pode ser o Henrique de terceiro zagueiro. Ou entra o Dante, e o David Luiz fica sendo o líbero. Os dois sabem jogar como volantes. Podem sair com a bola, quando o momento do jogo propicia.

O Daniel Alves (ou o Maicon) e o Marcelo, com mais cobertura, iam chegar na linha de fundo. Cruzamentos para o Fred, que do jeito que está quase não pega na bola. O Neymar podia jogar solto, uma espéce de "limpador de para-brisa" ofensivo. E o Oscar, pelo meio, um pouco mais recuado, talvez recuperasse seu futebol.

Isso é só palpite meu. Como todo mundo sabe, eu não entendo nada de futebol. Mas uma coisa eu sei: não existe esquema ideal. O esquema ideal é o que encaixa nos jogadores que você tem.

Torcida e boas maneiras

Vários amigos estão indignados com o comportamento da "elite branca" nos estádios da Copa. Primeiro, com os xingamentos à Dilma. Depois, com a vaia ao hino do Chile.

Tenho a impressão de que eles nunca foram de frequentar arquibancada. Ou então já esqueceram. Porque quem vai a estádio está acostumado. Pode até não gostar, mas não vai inventar razões de classe para a grosseria.

Torcida de futebol pode ser criativa, animada, divertida. Pode também ser agressiva, mórbida e preconceituosa. Nem me refiro aos marginais que tomaram conta das organizadas. Falo do torcedor comum, que vai ao estádio para apoiar seu time.

Uma das coisas mais engraçadas que já ouvi no Maranã foi, se não me engano, da torcida do Vasco. O Flamengo tinha contratado o Edmundo e o Romário. Já tinha o Sávio, jovem promissor, vindo da base. O pessoal do Fla é sempre grandiloquente e apelidou o trio de "melhor ataque do mundo". Só que o melhor ataque do mundo não funcionava. O Edmundo e o Romário viviam à turras e ambos boicotavam o pobre do Sávio, que jogava bem mas era tímido, introvertido, incapaz de peitar os medalhões. Pois a torcida do Vasco começou a cantar a musiquinha de uma companhia aérea, com a seguinte letra:

"Pior ataque do mundo, pior ataque do mundo... para um pouquinho, descansa um pouquinho, Romário, Sávio e Edmundo!"

Esculhambava o meu time, mas eu não pude deixar de rir.

O outro lado. Uma das coisas mais mórbidas que já ouvi foi da minha torcida. O Vasco tinha uma boa dupla de ataque: Denner e Valdir. Pois o Denner morreu num acidente de carro, enforcado no cinto, um negócio horrível. No domingo seguinte teve Flamengo e Vasco. O pessoal gritava assim:

"Ei, você aí! O Denner já morreu, só falta o Valdir!"

Confesso que eu gritei também.

Arquibancada não é lugar para monge beneditino, nem para freira carmelita.