"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Programa mínimo

Pelo meu perfil, você vê logo que eu não sou flor que se cheire. É muito "ex" para um sujeito só. Me desencontrei por aqui e por ali, sempre no campo da esquerda,. Hoje em dia as minhas convicções são muito poucas. Tento elencá-las.

Politica:
- Estado laico (não confunda com estado ateu, por favor).
- Democracia representativa, acrescida de mecanismos de democracia direta.
- Liberdade de expressão, limitada apenas pelos tipos clássicos de calúnia, injúria e difamação. Nenhuma forma de censura.
- Democratização dos meios de comunicação de massa.
- Acesso amplo aos mecanismos de comunicação horizontal, em rede.

Sociedade:
- Renda mínima.
- Saúde e educação públicas, universais e de qualidade.
- Políticas compensatórias para grupos historicamente desfavorecidos.
- Estado indutor do desenvolvimento regional sustentável.
- Função social da propriedade.

Economia:
- Crescimento sustentável.
- Sistema tributário progressivo, com ênfase nos impostos diretos.
- Taxação sobre as grandes fortunas.
- Imposto sobre herança que limite a acumulação de poder econômico.
- Controle público do sistema financeiro.

Programa mínimo é sempre resultado de compromisso. No caso, meu comigo mesmo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sexta de poesia - Drummond

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo

Não subestimo o poder do Império. Sei dos seus crimes. Mas não sou maniqueísta.

Parte da esquerda se encanta com o Putin, por exemplo. O Putin tem ligações com as máfias russas e pretensões czaristas. Sua política sexista é de conhecimento até das pedras. Enquanto o mundo aprova leis que estendem direitos a homossexuais, a Rússia anda para trás, com legislação homofóbica. Eu vou incensar um cara desses?

Outra coisa é a realpolitik. Reconhecer que o contraponto é melhor que a unipolaridade. Apoiar esforços internacionais de colaboração entre países emergentes.

Mas o Putin foi só aperitivo. Eu queria falar é do fundamentalismo islâmico. Por incrível que pareça, há quem justifique essa excrescência abjeta, porque acha que eles são anti-imperialistas.

Para começo de conversa, não é verdade. A Arábia Saudita é uma ditadura fundamentalista e se dá muito bem com os Estados Unidos. A Al Qaeda, como sabemos, foi armada pela CIA, para combater os soviéticos no Afeganistão. Naquela época, eles eram "heróis da liberdade". E quando o Bush mandou tropas para arrasar o Oriente Médio, foi no Iraque, que tinha um regime laico.

Continuemos. Concedo que existe, em parte do fundamentalismo islãmico, um viés anti-imperialista. Mas ele é mediado pelo fanatismo religioso, pela intolerância e pela teocracia. O que eles combatem para valer é o Iluminismo. A conquista civilizatória do estado laico, da democracia, da sociedade plural.

A esquerda (parte dela) fala tanto em dialética, mas na hora de pensar dialeticamente é um desastre. O fundamentalismo não é "violência do oprimido". Ele massacra os deserdados da terra - como vimos agora mesmo, na Nigéria.

O fundamentalismo encontra terreno fértil na miséria, na desqualificação cultural, na exploração colonialista e neocolonialista, na agressão armada, na ocupação do território, no racismo, no genocídio. Compreender não é justificar. Calar sobre o terrorismo islâmico é ser cúmplice. Apoiá-lo - por um minuto que seja - é uma abominação.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Eu não sei desenhar

Eu adoro desenho. Em especial, o desenho de humor. Mas não sei desenhar.

Em parte, a culpa é do meu primo Ciro. A gente era criança. Eu desenhava um bonequinho. Ele fazia uma pantera saltando, com movimento, volume, luz e sombra.

Não sei se o Ciro era tão bom assim, dede pequeno. É como eu lembro. Bloqueei. E até que eu levava jeito. Talvez.

Eu tenho déficit de atenção. Na adolescência, achei uma maneira de acompanhar as aulas. Era só ficar desenhando alguma coisinha. Desdobrada, a atenção não saía em voos imaginários, não acompanhava a mariposa voando na janela. Nem sempre dava certo. Às vezes, fazendo uns rabiscos um pouco mais elaborados, eu esquecia a voz do professor.

Adulto, usei a mesma técnica para aguentar as intermináveis reuniões do movimento sindical. Meu traço melhorou um pouco. Consegui até fazer uma caricaturas reconhecíveis. O pessoal gostava do humor das minhas charges e historinhas. Desenho muito ruinzinho, mas dava para brincar.

Uma amiga ligada ao MST me pediu uns trabalhos para o jornal deles. Tentei caprichar. Comprei lápis, borracha, papel de qualidade, caneta nanquim. Os ativistas gostaram, porque era de graça. O Incra quis me processar, por causa de uma charge. Foi meu momento de glória artística.

Se eu soubesse desenhar, ia fazer agora uma coisinha à la Charlie: Stalin de quatro com um coquetel molotov aceso enfiado no rabo, gozando: "ai, Molotov, assim você me mata!" Legenda: "Stalin vive".

Porque o Pai dos Povos está vivíssimo em parte da esquerda, não é mesmo? Na intolerância, na falsificação da História, na destruição da imagem do Outro, na mal disfarçada libido totalitária.

Quadrinhos precários - Je suis


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sexta de poesia - Manuel Bandeira

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Je suis pas Charlie

Quem não é Charlie tem lá suas razões. Tento sistematizá-las.

"Os desenhos são de mau gosto." Longe de mim tirar o direito à crítica. Só acho que essa formulação é um tanto pobre. Também não é o momento mais adequado. Não que os mortos virem santos. Mas uma coisa tão irrelevante não precisava enodoar a solidariedade.

"Os cartuns eram ofensivos." Não existe humor a favor. Todo humor é ofensivo. Ou tem esse potencial. Vou mais longe: qualquer opinião, qualquer uma mesmo, certamente vai ofender alguém. Tem pessoas muito suscetíveis.

"É preciso respeitar as religiões." Por quê? Quem disse que as religiões têm um status diferente das ideologias seculares, que podem ser criticadas e escrachadas à vontade? Certamente não foi Deus. Ao que parece, ele aprova entusiasticamente quando os fiéis de um credo desrespeitam o credo dos outros.

"Eles atacavam minorias." Só se o conceito de minoria inclui - além dos muçulmanos - os católicos, os judeus, os social-democratas, os direitistas e o povo francês em geral. Não, meu amigo, minha amiga. Eles não eram "obcecados" com o Islã. Alguns cartuns particularmente pesados se explicam como corajosa provocação: antes da chacina, eles já sofriam ameaças e violências, inclusive um atentado a bomba.

"Eles queriam aparecer, publicando coisas chocantes." Santa ignorância. A Charlie reunia alguns dos cartunistas mais prestigiados do mundo. Eles não eram uns "manés" buscando notoriedade. O Wolinski, por exemplo, tinha 80 anos e era publicado e republicado nas mais diversas línguas há pelo menos meio século.

"Eles colheram o que plantaram." Esse é o argumento da covardia. Se te ameaçam, ponha o rabo entre as pernas e fique bem quietinho. Quem sabe os assassinos esquecem de você. Numa entrevista, o Charb deu a melhor resposta: "prefiro morrer de pé a viver como um rato."

"Eles abusaram da liberdade de expressão." Deixei para o fim. Porque chega a ser assombroso. Quem diz um negócio desses não consegue esconder sua nostalgia da censura.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão - limites

"Liberdade de expressão não dá direito a alguém de gritar Fogo em um teatro lotado." A frase do Oliver Wendell Holmes é boa, mas não resolve nada. O que está em jogo, na situação hipotética, é outra coisa: integridade física. Quando o chefe da máfia manda matar um desafeto, ele também não está abusando da liberdade de expressão.

Limites mais ou menos claros são a calúnia, a injúria e a difamação. Crimes contra a honra. Mas atenção: não tem crime contra a honra coletiva. É contra uma pessoa determinada.

Incitação ao ódio. Um limite relativamente novo. Vejo na internet que muitos países criminalizam o discurso de ódio. A definição é simples. A aplicação, mais complicada.

Imagina uma situação assim: três palmeirenses cercados por 200 corintianos. Um mano grita: "porrada nos porco!" Aí encaixa no exemplo do teatro lotado. O mesmo grito, numa reunião interna da torcida, é mais aberto a interpretações. Antes que me linchem em nome da não violência: não é que eu ache bonito. É que a linguagem não é só denotação.

Apologia ao crime. Também não é pão, pão, queijo, queijo. Por exemplo: aquele deputado milico, que eu detesto e você também. Quando ele disse que a Maria do Rosário "não merecia" ser estuprada, é claro que fez ironia. Uma ironia machista, deplorável, escrotíssima. Mas é preciso torcer demais, para concluir que ele tem por costume estuprar as mulheres que acha bonitas. Quer um exemplo mais bacana? A Marcha da Maconha. Tentaram enquadrar. A defesa disse que eles não defendem o tráfico, mas querem mudar a lei, o que não é crime.

Ofender alguém - uma pessoa ou dez milhões - não quer dizer nada. É quase impossível emitir uma opinião sem que alguém se sinta ofendido. Se tratamos de humor, complica mais. O humor é sempre ofensivo. Não existe humor a favor.

Melhor que a frase do Holmes é a do Voltaire: "eu desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo." Ih! Fui conferir, não é dele. É de Evelyn Beatrice Hall, em correspondência com o filósofo francês.

Na dúvida, fico com o Voltaire. Ou com a Evelyn. Liberdade e pronto. Quando alguém tem o poder de interpretar e decidir o que é abuso da liberdade de expressão, isso tem um nome - censura.

As Torres Gêmeas e a Charlie Hebdo

Tem gente relativizando o assassinato de artistas. Como se fosse uma ação anti-imperialista. E eu que pensava já ter visto de tudo.

Em 2001, o atentado contra o World Trade Center foi uma ação anti-imperialista. Não, não justifica. Apenas coloca as coisas nos seus lugares. Faz tempo que eu digo que a guerra é o terrorismo dos ricos, que o terrorismo é a guerra dos pobres. Fórmula jocosa demais, talvez. Mas tem lá a sua lógica.

A França fornece armas aos rebeldes da Síria. A França e metade do Ocidente. Por isso o massacre da Charlie? Absurdo. A revista era de oposição. Essa ideia é tão disparatada quanto imaginar a esquerda armada brasileira, durante a ditadura, explodindo a sede do Pasquim.

Ah, mas eles estavam buscando! Não respeitavam Maomé. Zombavam de uma outra cultura. Muito bem! Agora o culpado é a vítima. Eles não respeitavam Maomé, Cristo, os judeus, os nazistas, o papa, a direita, grande parte da esquerda... precisa matar os caras mais umas seis ou sete vezes.

Foi um crime de intolerância. De fanatismo. Foi liberticídio. E não me venham com massacres pelo mundo afora: ah, você não protestou contra o genocídio no Babaquistão Ocidental! O que assombra, no massacre da Charlie, é o simbolismo. Quantos foram os mártires, em séculos de lutas pela democracia? Agora são mais doze.

Bush instrumentalizou o ataque às Torres Gêmeas para se legitimar e para arrasar com o Iraque, que não tinha nada a ver com o pato. A direita francesa quer aproveitar o morticínio para promover mais xenofobia. Metade dos hipócritas que manifestam solidariedade estão é bem contentes, porque eram alvos constantes dos implacáveis humoristas da Charlie. Mas isso não muda o horror essencial dos fatos.

Hoje o mundo amanheceu mais triste e mais burro. Se é que isso é possível.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo

Nada era sagrado para a Charlie Hebdo. Jesus na cruz curtindo um sado-masoquismo. Maomé de quatro, com uma estrela na bunda. Judeu beijando nazista na boca. As três grandes religiões monoteístas eram alvos frequentes da revista. Mais que as religiões: suas manifestações intolerantes, violentas, repressivas. Outros sempre escrachados eram a direita francesa, o império norte-americano, a União Europeia, o PCF, todos os governos da França...

A revista já surgiu sob o espectro da repressão. Em 1970, quando De Gaulle morreu, o jornal Hara-Kiri cismou de fazer graça. O governo Pompidou não gostou. Proibiu o Hara-Kiri. A equipe resolveu então continuar, com uma nova publicação.

Nesses 45 anos, a Charlie Hebdo teve sempre vida difícil. Parou de circular algumas vezes, por falta de leitores. Demitiu um dos seus principais colaboradores, Siné, numa história pouco virtuosa. Respondeu a inúmeros processos. Sofreu um atentado a bomba. Salvo em alguns números especiais, sua tiragem nunca foi das maiores - em total desproporção com sua importância cultural.

Releio o pouco que escrevi e noto que usei o tempo pretérito. É que não dá para imaginar a Charlie sem o Wolinski, sem o Tignous e principalmente sem o Charb e o Cabu, que foram os dois que tocaram o projeto esse tempo todo.

É dificil até pensar o cartum francês sem esses caras. Como disse o meu amigo Maninho: é como se matassem o Jaguar, o Ziraldo e o Henfil no mesmo atentado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Parto no SUS - e o parto da minha neta

Leio que as mamães que têm plano de saúde estão escolhendo fazer o parto no SUS. De todos os procedimentos da saúde pública, o parto é o que tem maior adesão de usuários de planos privados.

Explica-se: é opção pelo parto normal. Nas unimeds da vida, é difícil: menos de 20%. No sistema público, são cerca de 2/3. Isso ainda é pouco. Na Inglaterra, são 92%. Na França, 80%. Na Argentina, aqui do lado, 78%. A Organização Mundial de Saúde recomenda que as cesáreas não passem de 15%.  

A minha filha queria ter parto normal. Foi num médico credenciado da Cassi do Banco do Brasil. Ele disse que sim, tudo bem. E foi tocando a gravidez, com razoável competência.

A sacanagem começou lá pelo oitavo mês. O doutor previu o nascimento para  o dia tal. Depois eu vi que essa data marcava o início do prazo para um parto não prematuro. Tinha pelo menos um mês de lambuja.

Começaram consultas semanais. Um monte de ecografias. É praticamente impossível marcar uma ecografia com menos de um mês de antecedência, pelo plano de saúde. Dizem que não têm horário. Você liga um minuto depois, pede para agendar por livre escolha, eles te encaixam no dia seguinte.

O doutor foi aumentando o terrorismo aos poucos. Não passa da semana que vem... e a semana que vem passava sem novidades. Mais uns três dias... nada. Olha, está ficando arriscado. Nada. Gravidez normalíssima. Umas duas semanas antes da data limite, ele garantiu que o bebê ia entrar em sofrimento e marcou a cesariana para o dia seguinte.

Depois eu notei que na maternidade, super metida a besta, não tinha como fazer parto normal. É tudo agendado antes. Lota. Se a mamãe chegar com a bolsa d'água estourada, mandam para outro lugar. Provavelmente, para o SUS.

A cesárea é feita no horário mais conveniente para o médico - e para o hospital. Costuma ser muito mais rápida que um parto normal. O valor do reembolso é o mesmo. O juramento de Hipócrates... deixa para lá.

Tereza sofreu uma anestesia raquidiana e passou a ter cefaleias insuportáveis. Coisa de chorar de dor. Suspeita de meningite, causada pelo procedimento. Felizmente não era. Foi só uma semana de tortura.

Não são 20 centavos

São 40, no Rio. Em São Paulo, 50. Aumentos de 13 e 17%.

Para não ter reajuste, ano passado, as companhias de ônibus ganharam uns agrados. No Rio, por exemplo, redução do ISS. Agora, a conta vem dobrada. A inflação dos dois anos e ainda tem troco.

Cadê os protestos? O pessoal cansou. Se ainda fosse por um real inteirinho...

Tenho uns amigos que são intelectuais super antenados, sempre atentos à última moda acadêmica. Eles viram as trombetas do juízo final na temporada de protestos. Outros amigos meus são diferentes. São uns petralhas empedernidos, que desconfiam de qualquer aglomeração sem uma bandeira vermelha, e ainda tem que ter estrela branca. Esses viram as bestas do apocalipse.

Eu mesmo, confesso, escrevi bastante a respeito. Sem cair em nenhum dos extremos, fiquei mais com as trombetas. É que escapei da academia por muito pouco. Destilei minha teoriazinha tosca, mais ou menos baseada em Hard e Negri, embora eu goste mais de "Império" que de "Multidão". O primeiro livraço me parece mais sólido. O segundo talvez peque pela pressa em surfar na onda.

No fim, não era nada disso. Só uma garotada meio perdida. Eu acompanhei a maior das manifestações aqui no Rio. A massa caminhava em silêncio. Faltava  uma palavra-de-ordem, umazinha só, que aglutinasse.

Ou talvez o problema seja explicável. Poder desconstituinte, poder constituinte: eles podem ser separados? Nenhuma revolução foi assim. "Contra tudo o que está aí" é só um desabafo. Talvez seja até um desabafo justo. E o que mais?

Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente. Mas cansou logo. Sobraram uns arremedos patéticos de anarquistas. Perdeu a graça quando um fotógrafo morreu, atingido por um foguete de são joão.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Ironia

Escrevi no final de 2013. Republico, em homenagem à moça que não entendeu minhas considerações sobre as roupas da Katia Abreu e da Dilma:

Volta e meia sou acusado de ser irônico. Parece que está tipificado no Código Penal. Eu respondo, com certo espanto: irônico, eu???

Ontem foi um sábio que disse que eu apelo para a ironia quando não tenho argumentos. O que ele não entendeu é que eu nunca tenho argumentos. Não entendo de nadica de nada. Costumo dizer que sou especialista em assuntos gerais. É uma auto-ironia. Mas aquele sábio, sei não... ele tinha como parâmetro uma dissertação de livre-docência da Universidade da Bahia. Vai ver, estava sendo irônico e eu não entendi.

Se foi o caso, eu estava em vasta companhia. O coletivo de "pessoas incapazes de entender ironia" é Legião. Às vezes é sutil. Mas mesmo a mais escrachada, reiterada, explícita. Será que tem ironia explícita? Esse último texto do Antônio Prata na Folha, por exemplo. Estou sem paciência de linkar. Vai no Google. É facinho. E muito útil. Dá para achar de tudo. Até dissertação de livre-docência da Universidade da Bahia.

Tudo bem. Eu confesso. Sou irônico. Às vezes. Quase sempre. OK, você venceu - o tempo todo. Tento melhorar. Ser mais amável. Louvar a força do engenho humano. Mas os coleguinhas não ajudam. Falam pelas tripas. Sei! Não sabe! Sabe! Uma pletora de certezas. Aí volta o comichão da ironia. Coisa de sapo cururu.

A ironia nunca tem certeza. É incerteza ontológica. Não chega nem a um ceticismo bem plantado. É dúvida sem método. Desconfiança até de si mesmo. O primeiro alvo da ironia é seu próprio autor. Quando mais não seja, porque respondem. E as respostas nem sempre primam pela lhaneza.

Meu caro amigo, minha amiga querida - não se ofenda com a ironia. Dê um sorrisinho meio de lado e siga em frente. Podia ser pior. Podia ser auto-ajuda. Podia ser apelo à sua fé em deus. Essas coisas que subestimam a sua inteligência. A ironia, não. A ironia pressupõe que você é capaz de somar dois e dois - e acertar a resposta. Convenhamos: não é pouco.

Regulação da mídia - o que não é

Parte da direita acha que a regulação da mídia é censura. Não é. Aliás, não tem nada a ver. A confusão é propósito das grandes empresas de comunicação. Eles temem pelo seu oligopólio. Cartel é difícil de defender. Então, elas bradam pela liberdade de imprensa.

Também não é coisa "bolivariana", o que quer que isso signifique. O projeto do Franklin Martins, elaborado e devidamente engavetado no governo do Lula, por exemplo. Sabe onde ele se inspirava? Não, não era na Venezuela. Nem em Cuba. Nem mesmo na Argentina. Era na liberticida legislação da... Inglaterra! Pois é. Todos os países de tradição democrática têm marco regulatório da mídia. Isso porque a comunicação social é importante demais para ficar exposta aos ventos do mercado.

Estados Unidos. Eu gosto de exemplificar com os Estados Unidos. Lá, a propriedade cruzada é proibida. Ou seja, o mesmo grupo não pode ser dono de jornais, revistas, emissoras de rádio e de tevê. É poder demais. Ufa! Ainda bem que isso não acontece no Brasil.

Os gringos restringem ainda mais o controle privado da comunicação. Uma tevê aberta não pode produzir a maior parte do seu conteúdo. Tem um percentual máximo, não me faça pesquisar, mas é bem pequeno. Tanto que as redes se concentram em produzir jornalismo e compram o resto de produtores independentes.

Outro lado. Parte da esquerda acha que a regulação da mídia é distribuição politica das verbas de publicidade. Pelamordedeus, gente. Para com isso. A publicidade precisa ter critérios republicanos. O que o Gushiken fez na Secom, em 2003, foi distribuir mais e melhor. Antes, a publicidade estatal ia para cerca de 500 órgãos de comunicação. O Gush dividiu a grana entre 5 mil órgãos, prestigiando a mídia regional. Daí o profundo ódio da Rede Globo, que perdeu uma bufunfa, embora continuasse abocanhando a maior parte. E tem que ser assim. Mais audiência, mais faturamento com publicidade.

Aquela revista cujo nome não digo. Você fica indignado porque ela tem propaganda estatal? É melhor você voltar a estudar, para aprender o que é democracia. O estado democrático é impessoal. Ele não esmaga economicamente os adversários, nem presta favores aos amigos desinteressados.

Bem que eu queria. Ah, se o meu blog irrelevante rendesse um dinheirinho!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Sexta de poesia - Mario Benedetti


Dilma e Lula

Tem as intrigas. O Lula está danado com o novo ministério. A Dilma jogou a turma do Lula no mar. Não demora muito e o Lula vai começar a criticar o governo em off. Mas as intrigas só vicejam em terra adubada de rancores oposicionistas.

Tem as análises. Dilma e Lula dependem um do outro. Eles não podem se separar. Lula e Dilma, cada um para um lado, podem ser governo e oposição ao mesmo tempo. Juro que li isso. Acho que é do Elio Gaspari. Essas análises desconhecem a natureza da relação entre os dois.

É que eles - intrigantes e analistas - partem dos exemplos errados. Maluf e Pitta. Itamar e FHC. Brizola e Cesar Maia. Criadores e criaturas de outro século, outra política. Quando a criatura, para se afirmar, precisava engolir o criador. Quando cada um tinha seu objetivo pessoal.

Lula e Dilma. Um amigo destacou bem. Um que foi retirante. Outra que foi guerrilheira. Não podia ser mais simbólico. Entre eles não cabem as escaramuças da politicagem. É mais que dependência mútua. É que nem Tabaré e Mujica, cada um do seu jeito, juntos na posse da presidenta.

Sei que o PT não é mais o mesmo. Sei que os governos populares fizeram concessões além da conta. Sei disso tudo e de muito mais. Mas a centralidade é a mesma de antes. Não é por acaso que em doze anos se muda a cara de um país, incluindo dezenas de milhões de pessoas nos direitos básicos de trabalho, comida, moradia.

A diferença, a diferença que eles não entendem, é essa: o Lula e a Dilma vêm do outro lado, não daquelas famílias que empalmam o poder há cinco séculos. Eles compartilham um projeto de nação, não a velha disputa entre os que são 1%, para ver quem pega o maior naco do butim.

O vestido da Katia Abreu

Você viu aquilo? Parecia um repolho. Uma melancia. Uma folha de couve. Uma espiga de milho verde. Ah, então estava adequado. Ela não é a nova ministra da Agricultura?

E a roupa da Dilma? A cor até que estava na moda. Na moda demais, segundo alguns. Mas e o corte? Que coisa mais troncha. A Dilma está tão gorda! E os sapatos, meudeus?

Direita e esquerda se irmanam na fofoca, na falta do que fazer e no machismo.

Ninguém falou do terno do Jaques Wagner. O terno do Jaques Wagner estava folgadão. Acho que o defunto era maior. Ninguém mandou o Ricardo Berzoini fazer regime. Ninguém botou reparo no cabelinho do Cid Gomes. Nossa, o cabelinho do Cid Gomes é qualquer coisa.

Campeã de epítetos sexistas é a Marta Suplicy. E não podem chamar de feia. Então é "dondoca", "histérica", "perua"... quando não é "vagabunda", mesmo. Quem mandou ser uma mulher sem papas na língua e que diz o que bem entende? Você já viu alguém chamar o Lula de "mal-amado"?

Lembrei agora de um curso que eu fiz em Brasília, lá pelos anos 80. Todo mundo hospedado numa pensão, nas quadras 700. Primeira noite, antes da janta, as meninas subiram para se arrumar e os marmanjos ficaram na varanda, tomando uma cachacinha. E começou aquele papo. Notas de zero a dez para as coleguinhas. Quem era comível, quem não era.

Dei uma olhada em volta. Vi uns caras feiosos, barrigudos, mal cuidados, nem todos muito limpos. Fiz uma pergunta inocente: "e quais serão as notas que elas estão dando para nós, agora?"

Tremendo silêncio.