"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

domingo, 21 de dezembro de 2014

Faça como o Soros: compre ações da Petrobras!

O George Soros seguiu meu conselho. Comprou ações da Petrobras. Espero que, quando realizar o lucro, ele pague a comissão que me prometeu: zero vírgula zero zero um por cento. Já vai dar para comprar um conjugado no Leblon. Ou um castelo à beira do Sena.

É que eu não tenho grana para investir. Nadica de nada. Se tivesse, já estava tudo em ações da petroleira. Nunca foi tão fácil ganhar dinheiro.

A Petrobras está na hora da xepa por vários motivos. O preço mundial do petróleo caiu - jogada dos Estados Unidos, para sacanear o Putin. A empresa se endividou, para investir no pré-sal. O escândalo da Operação Lava Jato repercute no mundo todo. E principalmente: os espertos fazem terrorismo no mercado e vão comprando as ações que os bobos põem à venda baratinho.

Uns amigos fazem campanha para o pessoal comprar ações, motivado pelo patriotismo. Que patriotismo, que nada! Apelar para o bolso é muito mais eficaz. Compre ações da Petrobras e ganhe uma grana preta em dois ou três anos. Talvez menos.

Dois ou três anos é o tempo para o óleo do pré-sal dar frutos. Mesmo aos preços de hoje, lá embaixo, ele ainda é lucrativo. A experiência ensina que depois de uma desvalorização forte da commodity, o preço sobe. É que os depósitos das Sete Irmãs ficam abarrotados e é hora de vender. Cartel funciona assim. Você pensou que cartel era a OPEP? Doce ilusão.

Há mais coisas na Petrobras  do que a sonha a filosofia do moralista de plantão. Não faço pouco da roubalheira. Mas só descobriram agora? Como dizia a minha avó, debaixo do angu tem carne.

Não sei se você lembra, mas na outra eleição o Fernando Henrique foi a Foz do Iguaçu, para uma reunião de grandes investidores internacionais. Ele garantiu que o Serra ia mudar as regras da exploração do petróleo. Ia abrir a porteira. Mas o Serra não ganhou. Ganhou a Dilma. E agora ganhou a Dilma de novo. Que pena. Para eles.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ler e escrever

Ler era mais fácil na pré-história, onde passei a juventude. Tinha menos distrações. Até meus quarenta anos, por aí, tevê eram aqueles quatro ou cinco canais que hoje chamamos de "abertos". Internet não era nem ficção científica, que isso os caras não previram. Futebol ao vivo, só no estádio. Mesmo o telefone - fixo, é claro - demorava para dar linha. A gente tinha tempo.

Escrever também era mais fácil, na máquina de escrever ou a caneta mesmo. Que isso, Joel! Ficou maluco! Os editores de texto ajudam muito! Que nada. A escrita no computador só é mais rápida na aparência. Como é fácil consertar, a gente digita à medida que pensa. Depois é um trabalhão: corta aqui, acerta ali, põe um sinônimo acolá. Escrevendo à máquina - a minha era uma elétrica portátil, comprada de segunda mão - você era obrigado a pensar antes, para só depois datilografar. O texto saía mais limpo, de primeira.

E é tanta coisa para ler! Só estocados no guarda-móveis, desde que mudei para Brasília, eu tenho cerca de três mil livros. Voltei para o Rio e não pude resgatá-los, coitados. Falta espaço. São mais uns dois milhares aqui em casa, situação agravada quando minha filha Joana viajou e deixou seus alfarrábios comigo. Não conto os eletrônicos, que em menos de dois anos já passaram de duzentos. Nem os que peguei emprestados e devolvi de muita má vontade. A biblioteca do rei Carlos V tinha mil e poucos volumes. No século XIV, isso era um tremendo recorde.

Penso no Piaget. O Piaget escreveu quase cem livros. Já velhinho, perguntado sobre essa obra tão prolífica, ele respondeu: "me sobrou bastante tempo, porque eu não tive que ler Piaget." A gente tem que ler Piaget, Foucault, Deleuze, Camus, Sartre, Guattari, Castel, Beauvoir, Althusser, Gluksmann, Finkielkraut, Lévi-Straus, Derrida, ufa! Não dá nem para listar os franceses do último meio século.

Não leve a sério. São reflexões de quem virou a noite jogando Civilization V, não leu nada, não escreveu patavinas, e agora está de ressaca - não do álcool, que foi pouco, mas da falta de sono.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

AI-5 - o meu

Escrevo um pouco atrasado. O aniversário do golpe dentro do golpe foi dia 13.

No dia 13 de dezembro de 1968, vi o Cid Moreira ler a íntegra do AI-5, no Jornal Nacional. Eu tinha 13 anos. Não sabia muito bem o que era habeas corpus, mas fiquei com a sensação de que a coisa estava feia. A voz dele parecia coisa de filme de terror.

Depois botaram na cadeia quase todo mundo do Pasquim. O hebdomadário (como eles diziam) saiu magrinho, magrinho. O Paulo Francis escreveu a maioria dos textos, imitando os outros. O Henfil fez parecido com os cartuns. O tempo foi passando e o mineirim foi perdendo a paciência. Cada vez mais o ratinho Sig, que era do Jaguar, ficava parecido com a Graúna.

Dois meses antes, tinham prendido todos os participantes do 30º Congresso da UNE. Inclusive um tal de Zé Dirceu. Eu escrevi um artigo defendendo os estudantes, no jornalzinho do colégio. Para quê? Quase me expulsaram.

1968, o ano cheio de biógrafos, foi uma barra pesada. Depois piorou.

Nos anos seguintes, alguns amigos dançaram. Mais velhos que eu dois, três anos. Meninos, meninas de 16, 17. Todos passaram pela experiência indelével da tortura. Teve um que pirou, depois que foi solto queimava o próprio corpo com a brasa do cigarro.

Eu admirava o pessoal da luta armada, mas tinha a vaga impressão de que o caminho era outro. Um pessoal da Juventude do PC fez contato comigo. Concordei com a estratégia de conciliar trabalho clandestino pacífico e participação no MDB, que era o partido de oposição legalizado. Não lembro bem por que não entrei para o Partidão. Vai ver, eles não foram com a minha cara de anarquista.

Foi a minha adolescência. Mudar de calçada, ao ver um camburão. Ouvir notícias do Brasil na rádio BBC de ondas curtas. Esconder um ou outro amigo que era perseguido. Ler os jornais nas entrelinhas, onde se enganava a censura. Receber más notícias sem espanto: quem foi preso, quem fugiu, quem morreu.

O medo era uma coisa tão constante que a gente quase não percebia.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pela hora da morte... em Beirute

Deu na Folha de SP. O site Expatistan usa uma plataforma colaborativa para coletar preços de produtos e serviços no mundo todo, depois comparar o custo de vida das várias cidades. Fui lá ver. Eles contam com cerca de 300 mil voluntários e têm uma base de dados com 200 países e quase duas mil cidades.

A cesta de produtos e serviços é bem variada, mas aponta para a classe média alta. Por exemplo: o aluguel é numa área nobre. Também inclui luxos como jantar num restaurante italiano com vinho e sobremesa, TV de 40 polegadas, tarifa do táxi. Não ficou claro como eles ponderam os vários itens. Enfim, não chega a ser uma abordagem científica, mas é um bom tema para bate-papo.

O Rio é a cidade mais cara do Brasil. Depois vem São Paulo. O terceiro lugar é Brasília. Nenhuma novidade. O que me chamou a atenção foi que os cariocas são os únicos que moram em uma das cem cidades mais caras do mundo, assim mesmo por pouco - nosso balneário ficou em 97º lugar.

Mais caras que o Rio, entre outras, são: Perth, na Austrália, que fica no meio do nada; Beirute, no Líbano, que fica ao lado da guerra; Shangai, na China, que fica... dentro da China, caramba!

Sem falar, é claro, nas principais cidades europeias e norte-americanas. Morar em Nova York, por exemplo, é 60% mais caro que habitar em Ipanema. Miami é mais em conta. Só 15% acima da Cidade Maravilhosa. Em compensação, a vizinhança não é lá essas coisas. A cidade mais cara do mundo é Zurique. Diz que lá o cara só não morre de tédio por causa do susto na hora de pagar as contas.

Viver aqui é mais caro que em Montevidéu, em Santiago ou em Lima. Os preços portenhos são mais ou menos 2/3 dos cariocas. É... esse dado bate com a minha impressão em outubro, quando passei uns dias em Buenos Aires.

E não me mandem para Cuba! Havana é muito cara! Mas isso é por causa do preço do automóvel, da calça Levi's e do tênis Nike, esses símbolos do imperialismo ianque.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O corpo da modelo e o corpo do rei

O Pelé já escapou dessa. Tudo indica. Torço muito por ele. Pouco me importa o que ele fala. O Pelé me deu alegrias únicas. Ver o cara jogar era como ler um poema, um conto de Jorge Luís Borges. A mesma concisão, a mesma imprevisibilidade, a mesma beleza. Política é outra coisa.

A modelo Andressa Urach - que eu só conhecia vagamente, de nome - acordou do coma induzido e está melhor. Um médico escroto, que não acompanha o caso, disse numa entrevista que ela vai ter sequelas. Tomara que não. A moça é tão nova.

A Andressa teve uma infecção que desandou em sepse. Tudo por causa de um gel injetado há cinco anos, um troço para dar a impressão de coxas mais fortes. O Pelé teve uma doença banal, que foi agravada pelo fato de ele só ter um rim. Eu não sabia disso. Ele teve que extrair um dos rins quando jogava no Cosmos, de tanta porrada que tomou nos campos de futebol.

Fico pensando. O que as pessoas fazem de si mesmas. O que a sociedade do espetáculo exige das suas celebridades mais ou menos célebres. A modelo fez no total umas dez intervenções cirúrgicas estéticas. As pernas do Pelé são um entremeado de cicatrizes. Além do rim perdido. Sabe-se lá o que mais.

A carreira de um boleiro é cada vez mais curta. O auge costuma durar uns dois ou três anos, e olhe lá. É muito jogo, muito esforço, muita exigência física, muita pancada. As moças das capas de revistas são cada vez mais artificiais, mesmo se você desconta o photoshop. Não são elas as retratadas. Somos nós.

O corpo não é biológico. O corpo é histórico. A gente não percebe. É uma construção constante, tão onipresente que se faz invisível. O corpo do Pelé, o corpo da Andressa são exemplares. Corpos em situação limite. Corpos que nos fazem pensar.

20 anos sem o Tom

Conheci o Tom Jobim há uns 40 anos. A Helena, irmã dele, era casada com meu sogro Manuel. Todos da família tinham casas em Poço Fundo, um lugar meio perdido, belo e rústico, perto de São José do Vale do Rio Preto.

A sala da casa do Tom tinha um pé direito altíssimo, com a frente toda envidraçada. De dia, a paisagem era demais. Nas noites de inverno, fazia um frio danado. Todo mundo se apertava em volta da ladeira enquanto ele tocava piano e contava histórias.

Nunca vi contador de histórias melhor. Um pouso no Galeão, vindo dos Estados Unidos. "O avião estava muito alto. Eu olhava para baixo. Muuuito alto." Cara de terror. Gole no uísque. Finge que esconde o copo debaixo do casaco, para a Teresa - sua mulher - não ver. "Aaalto!" Mais caras, mais bocas. A mão espalmada faz um avião que desce alucinadamente. Olhos esbugalhados. Caramba, tinha sido só uma aterrissagem.

Ou então, as fofocas da turma da bossa nova. O Tom gostava muito de de imitar o João Gilberto. Mão na frente da boca para se proteger dos germes. Hilário, mas sem maldade. O João, todo mundo sabe, é cheio de manias.

Às vezes, o Paulinho Jobim ia, levava a flauta. Às vezes, músicos amigos. Às vezes, uma turma amadora da região, que tocava chorinho. Sempre tinha muita bebida e era sempre muito bom. Meus 19, 20 anos. Eu achava tudo normal. Só mais tarde percebi que foi um privilégio ter sido espectador daqueles saraus.

Depois da morte dele, a Helena Jobim - que é escritora - publicou uma biografia. Não fui na noite de autógrafos, bicho-do-mato como sempre. Mas claro que comprei o livro. A introdução era intimista, narrada na primeira pessoa. Contava os últimos momentos do Tom. Chorei tanto que não consegui ler mais nada.

Eu sei. Essas pequenas memórias não têm a menor importância. Mas são as minhas.

sábado, 29 de novembro de 2014

Governo e poder - ou "quem pode, pode, quem não pode se sacode"

Tem uns e outros que acham que ganhar eleição é tomar o poder. Doces criaturas. Fazem tabula rasa da globalização financeira. Nunca ouviram falar em "poder econômico". Não leram Gramsci.

O que eu digo? Antes fosse uma questão assim sofisticada. É mais básico. A turma não se toca nem das diferenças entre governo e estado, das atribuições dos três poderes das república, coisinhas bem estabelecidas desde o século XVIII.

Aí vira muro das lamentações. Ou adesismo descarado. Stalin traiu a revolução. Stalin está certo, porque chefia o estado proletário e o estado proletário não pode errar. Hoje eu estou metafórico à beça.

Metafórico e histórico. O "comunismo de guerra" do Trotski deu numa merda danada. Aí o Lenin fez a NEP - Nova Política Econômica. Era confessadamente um retorno ao capitalismo. Recuo tático. A bugrada não coseguia gerir as fábricas, que dirá a economia nacional. Lenin chamou os capitalistas de volta. Aquela história da cor do gato. Não, o gato era chinês.

Ah, o século XX! Como foi interessante! Era um tal de gente matando gente!...

Desculpa. Minhas comparações são extemporâneas. É que o texto vai me embalando e eu esqueço o que ia dizer.

O que eu ia dizer, mesmo? Ah, lembrei! O Brasil é um país periférico. A classe dominante é escravocrata. Meia dúzia de famílias controlam a comunicação. Tem cachorro grande de olho no pré-sal. A banqueirada não quer largar o osso do lucro fácil. O Congresso eleito é o pior dos últimos 50 anos. Já deu?

Dilma se sacode.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Sexta de poesia - Jorge Luis Borges

Los Justos

Un Hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silenzioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El quel justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Leituras

Quando eu passo um tempo sem escrever, quase sempre é porque estou lendo muito. Foi o que aconteceu nos últimos dias. E divido aqui.

Heróis e Maravilhas da Idade Média. É do Jacques Le Goff, famoso medievalista francês. Vejo na Wikipedia que ele morreu este ano. O livro é de acadêmico, mas bem divertido. Acompanha como o imaginário europeu construiu e formou/deformou heróis como El Cid ou Arthur, seres míticos como o unicórnio, construções como a catedral ou o castelo.

1965 - Enquanto o Brasil Nascia e 1789 - A História de Tiradentes. O primeiro trata do primeiro século do Rio de Janeiro. O segundo engana um pouco no título. Não é uma biografia de Tiradentes, personagem pouco documentado, mas uma história da Inconfidência. Não são livros de historiador. O autor é o jornalista Pedro Doria. Mas ele recorre a uma extensa bibliografia e faz umas reportagens deliciosas, que a gente lê sem parar.

De que é Feito o Universo? De Richard Panek. Sobre a constituição da cosmologia como ciência, com ênfase no problema da matéria e da energia escuras. Seria mais legal se não tivesse tanta fofoca científica - quem roubou a ideia de quem, quem descolava verbas com mais lábia, esse tipo de coisa. Livro para tarados por divulgação científica.

As Aventuras de Robin Hood. Versão do Alexandre Dumas. Não é a melhor que já li. Mas diverte um tanto.

Adhemar - biografia do Adhemar de Barros, de Amilton Lovato. Marromeno. Vale pelo retrato da época.

Amálgama - o último do Rubem Fonseca. Ele não é mais o mesmo. Parece um plágio de si mesmo. Histórias rasas. Mas sempre bem escritas.

Mais a releitura de umas tantas historietas do Decameron e dos Contos de Canterbury, que sempre valem a pena; Mais uns tantos contos da coleção Mar de Histórias, organizada pelo Aurélio Buarque de Holanda e pelo Paulo Rónai, imperdível antologia dos contos de todas as épocas.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Diversão e arte

Amanhã sigo para Conservatória, com o Iriel e a Jô - meu irmão e minha cunhada. Acho que todo mundo aqui do Rio conhece Conservatória, ou pelo menos ouviu falar. É uma cidade pequenininha na região de Mendes, Vassouras e tal. O caso é que lá eles cultivam a tradição da seresta. Todo fim-de-semana sai um grupo de velhinhos (são quase todos velhinhos) tocando e cantando pelas ruas. Param numa janela aqui, noutra ali. É bom demais.

Eu comecei a fazer uma lista de músicas para a viagem. Procurei umas coisas menos conhecidas, que pudessem ser novidade para os dois. Entre outros:

Zé Pretim - o cara é uma fera do blues, mas tem pouca coisa acessível. Olha só a versão dele para Asa Branca.

Spok Frevo Orquestra - fusão com jazz. Tem alguém fazendo um som mais interessante que eles? Aqui tem uma versão de Vassourinhas, onde todo mundo improvisa. E "todo mundo" é gente à beça: quatro saxes, quatro trompetes, quatro trombones...

Jovino Santos Neto - conheci o cara na adolescência. Amigo de um amigo. Ele tocou muito tempo com o Hermeto, depois fez seu próprio quinteto. Lembra um pouco o bruxo de Bangu, mas é, digamos, menos louco.

Jazz Cigano Quinteto - outro que faz fusão com ritmos brasileiros. Por exemplo, em Lamento, do Pixinguinha.

Pitanga em Pé de Amora, Filarmònica de Pasárgada, Trupe Chá de Boldo - turminhas novas, tudo garotada na fase dos 20. Eles costumam brincar com o Tom Zé, mas aqui eu linkei umas músicas próprias.

Danilo Brito e Felipe Soares - nova geração do choro. O Felipe Soares, então, nem no Dicionário Cravo Albim está.

Tem mais, mas fica para outra vez. A gente não quer só comida. Aproveita.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sexta de poesia - Manoel de Barros

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Marta é um suplício?

Fui apresentado à Marta Suplicy na década de 70, quando resolvemos lançar a revista Rádice em São Paulo. A Rádice era o projeto quixotesco do meu amigo Carlos Ralph - uma publicação alternativa, que abordasse o universo "psi" com enfoque jornalístico. Era tocada por um pequeno grupo de jovens estudantes e recém-formados. Durou pouco, mas foi marcante.

Pois bem. A Marta ainda não estava na política, mas era uma psicóloga/sexóloga muito conhecida, inclusive com programa de TV. Ela nos recebeu muito bem. Foi amável e prestativa. Topou coordenar uma mesa-redonda louca que tínhamos inventado, com mais intelectuais cabotinos do que o campus da PUC em Perdizes. Claro que foi um caos. Mas ela fez o possível.

Anos depois a reencontrei no Congresso. Lembrei-a daquela vez. Ela riu. E me repreendeu, de brincadeira: "não entrega a minha idade!" De novo ela nos ouviu e nos ajudou - agora éramos um grupo de sindicalistas encurralados pelo neoliberalismo. Lamento ter que dizer que nem todos os próceres do Partido dos Trabalhadores agiram como a Marta.

Não moro em São Paulo, mas quero crer que ela foi boa prefeita. Criou escolas de tempo integral abertas à comunidade. Implantou o bilhete único. Fez corredores de ônibus. Abriu um monte de creches. Saneou as finanças. Saiu bem avaliada, mas perdeu a reeleição.

Acho que a rejeição à Marta é mais machismo que outra coisa. Ela já não é jovem, mas continua sendo uma mulher bonita, um tanto emperequetada, que não dá satisfação da sua vida particular. Não foi exatamente a esposinha fiel do Eduardo. Separou dele para viver com um argentino-francês-paraguaio. Diz o que lhe dá na telha, às vezes de forma um tanto infeliz: "relaxa e goza".

A Dilma também sofre com o preconceito, mas a imagem dela é mais palatável: a matriarca dura na queda, que se permite babar o netinho. A Marta está mais para femme fatale que para dama de ferro. Os homenzinhos a desejam - e a temem, e a detestam.

Agora ela sai do governo, para variar, atirando. Eu não gostei do "volta, Lula". Além de ser um golpe na presidenta, era um negócio derrotista. E acho que ela escolheu muito mal a hora de pedir o boné, quando a Dilma está no exterior. Mas insisto: não é por isso que jogam pedra na Geni.

Automóveis, vacas sagradas

Lá pela década de 70, o Ivan Illich fez um cálculo singelo. Ele pegou o tempo que o norte-americano médio gastava para se deslocar de casa para o trabalho - e vice-versa - no seu automóvel particular. Aí somou o tempo gasto trabalhando para pagar o carro. O tempo de trabalho para pagar a gasolina. A manutenção. Por falta de dados, ele não pôde acrescentar o tempo em hospitais, por causa de acidentes de trânsito. Tudo somado, ele dividiu pela distância percorrida.

O resultado: 4 quilômetros por hora. O que se faz a pé, num passo tranquilão.

Illich lembrou que essa era a velocidade do camponês da Idade Média, indo de casa para a gleba. Só que o camponês caminhava uma meia hora por dia. O norte-americano, entre engarrafamentos e trabalho, gastava cerca de quatro horas.

O automóvel é a vaca sagrada do Ocidente. É muito pior, aliás. A vaca indiana dá leite. O veículo a combustão dá enfisema, câncer do pulmão e aquecimento global.

Não sou tão radical quanto o Illich, que queria abolir todo e qualquer meio de transporte que ultrapassasse 40km/h. Coisa de louco, não é? Não. Não é. Ele tinha argumentos racionais, difíceis de refutar. Mas é muita utopia para o meu gosto. Eu sou um reformista cauteloso, que morre de medo das utopias.

Eu só quero livrar o centro das grandes cidades da presença nefasta do carro individual. Ou reduzi-la ao mínimo. Acabar com os estacionamentos centrais. Criar pedágio urbano. Derrubar todos esses monstrengos elevados. Encher a cidade de ciclovias e estacionamentos de bicicletas. Já que o país é tropical, não custa fazer também uns banhos públicos para os ciclistas. E melhorar o transporte de massas, é claro.

Imagina a Av. Presidente Vargas, aqui no Rio, com as pistas centrais transformadas em parque. A Rio Branco só para pedestres e ciclistas, toda arborizada, com uns cafés no meio da rua. A 23 de Maio, em São Paulo, sem engarrafamento. Aquele Minhocão horrível demolido.

Imagina uma vida sem carro. Ou menos:  uma vida que não dependa tanto do transporte individual, excludente e poluidor, que aumenta as distâncias, ao invés de encurtá-las.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Rui Falcão, o líder de massas

Confesso que a minha antipatia pelo Rui Falcão é pura birra. Até onde sei, ele é um sujeito correto, um dos fundadores do PT e um político de biografia impecável. Mas eu sou assim mesmo: superficial, emotivo, imaturo e birrento. Quero tudo de bom para o Rui Falcão - longe da direção do partido.

Mas, cá entre nós. Olha para a cara do boneco. Você acha que é essa a estampa do presidente de um partido que precisa empolgar as massas?

Vou de Google. Procuro buscar motivos para reclamar do Rui Falcão. Não acho nenhum. Mas também não descubro nada que me faça gostar dele. O homem é água de salsicha. Um sensabor só.

Tento ler um artigo dele. No segundo parágrafo, começo a pestanejar. Ele não escreve para a imprensa. Ele datilografa uma circular para conhecimento dos funcionários da repartição.

Quando teve a temporada dos protestos, o Rui Falcão passou umas três semanas fazendo de avestruz. Depois soltou uma convocatória aos petistas. Convocou pelo Twitter. Uns 30 ou 40 acreditaram e foram para a Paulista. Levaram porrada. O Rui estava bem longe. Mas não deixou de tomar uma atitude: apagou o que tinha escrito na rede social.

De novo. Olha para a cara do boneco. Ele parece um frenético usuário do Twitter?

No fundo, acho que eu sou injusto com o Rui Falcão. É o meu bode expiatório. Se fosse só ele, estava bom demais. E antes que torçam o que eu digo: não é problema da corrente "A" ou "B". Não é nem "culpa da direção". É todo um espírito que foi tomando conta aos poucos, fazendo com que o PT cada vez parecesse menos consigo mesmo.

A vitória apertada parece que deu uma sacudida. Mas a mesma coisa aconteceu quando estourou o "mensalão" - aquele esquema mambembe de caixa 2. Na época, prevaleceram os panos quentes e a autodefesa. Minha esperança, pequena esperança, é que agora prevaleça a autocrítica.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Batendo palma pra maluco dançar

Um era só um deputadozinho do baixo clero, que se elegia com o voto corporativo dos militares. Outro era um cantor pop decadente, que não cantava mais nem em churrascaria. Um terceiro era um pastor de meia tigela, faturando seu dízimo de cada dia em cima de meia dúzia de otários.

Viraram celebridades instantâneas. São hoje os principais representantes da direita boçal. "Extrema direita" é outra coisa, faça-me o favor. Hitler empolgou um país. Franco ganhou uma guerra civil. Esses caras são uns bufões.

- Que isso, Joel, eles são um perigo! São o ovo da serpente! O nazismo também começou assim!
- Você acha? Então por que você dá o maior cartaz para eles? 

As redes sociais já saíram da infância. São adolescentes: hormônios explodindo, virgindade de experiência, desejo de tudo. Ainda não decidem eleição, mas influenciam. E já criam seus próprios heróis.

Quem é o seu herói? É o auto-intitulado filósofo, aquele que tem fixação em cu? Então fale dele. Cite-o. Publique vídeos onde ele regurgita sua verborragia de meia cultura. Pode escrever em cima: "olha que idiota, o fulano". Ele não se importa. Falem mal, mas falem de mim.

Vale a pena debater com os tucanos. Eles têm projeto de poder. Têm ideário. Às vezes eles escondem, não é? Então vamos escancarar. Vídeo do Serra dizendo que tem que enfrentar a crise fazendo o que a Grécia fez. Armínio deixando escapar que vai passar o rodo nos bancos públicos. Essas coisas. Jogar pedra no telhado de vidro também é bom. Aecim bebim na rua Prado Júnior, a popular PJ. Olha aí o candidato do PSDB. Um voto a menos a cada compartilhamento. Os tucanos são a direita perigosa.

Mas esses caras? Eles nem partido têm. Se acomodam aqui e ali. Seu projeto é manter a cabeça acima da linha d'água. E só precisam de exposição.

Respingos paulistas (novíssima antologia)

Chuveiro em SP
A situação em SP tá tão ruim que você pede um "whisky on the rocks" e o garçom traz o drinque com uma pedra dentro.

A situação em SP tá tão ruim que dedal virou balde.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que quando um paulista fala alguma coisa original e criativa o outro elogia:
- Você choveu no molhado!

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que o Cascão tá louco pra tomar um banho.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que tem ateu indo à missa só pra se respingar de água benta.

Quem governa a seca é São Pedro. Mas a falta d'água é do governo de São Paulo.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que os pessimistas acham que o esgoto não vai dar pra todos.

Governo Dilma - um passo atrás, dois adiante

Então, estamos combinados: partido é partido, governo é governo. Até porque o governo é de coalizão. O PT é o maior partido no Congresso, mas está longe, muito longe, de ser maioria. A maioria é de centro. Eu disse "centro"? É que hoje eu estou de bom humor.

A economia não está o caos que pregam, mas também não está uma beleza. A crise mundial continua. As medidas anticíclicas já cumpriram seu papel. Não tem mais como estimular o consumo pelo crédito - a não ser, talvez, na área habitacional, onde os contratos são de longo prazo. A inflação ronda o teto da meta. O PIB deve crescer um tantinho só. As contas públicas estão negativas.

A direita queria um freio de arrumação. Uma porrada fiscal. Um recessãozinha gostosa, com juros lá em cima. Não foi o que disse o Armínio? O salário mínimo está muito alto e o desemprego, muito baixo. Aimeudeus.

Eles perderam. Agora tentam pautar quem venceu. Claro que não é para fazer igual. O compromisso do governo Dilma é outro. Mas é hora de cautela e caldo de galinha.

Economia não é a minha especialidade. Você sabe: sou especialista em assuntos gerais. Mas parece que vai ser preciso uma segurada, para estabelecer novos pactos. É hora de preservar. Os novos avanços virão depois. Tem que ser tudo negociado, gente. O Lula, velho sindicalista, sabe bem disso.

O outro lado é a política. Dá para tensionar aí. Regulação da mídia, reforma política. Mas não depende do Executivo. Nem se pode esperar nada desse Legislativo que está aí. Tem que ter movimento de massas. O que a Dilma pode fazer é surfar a onda - se ela vier. E aí voltamos ao papel do partido. O papel do partido não é ser correia de transmissão. É tensionar pela esquerda.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Partido e Governo

Outro dia comentei que o PT e o governo de maioria petista têm tarefas urgentes. Também disse que não eram as mesmas.

A esquerda tem muita dificuldade, nesse negócio de partido e governo, partido e Estado. A solução leninista é conhecida. O Estado é revolucionário. O partido governa. Oposição, só interna. Bom, ao menos até chegar Stalin e acabar com essa brincadeira. Stalin matou mais comunistas que o Rambo.

A social-democracia pensou diferente. Em geral, ela chegou ao poder em países parlamentaristas. O Estado é profissional. O governo é de coalizão. O partido joga o jogo, na oposição ou na situação. Com o tempo, os partidos social-democratas abandonaram a tradição proletária. Tornaram-se, de certa forma, mais do mesmo. Aplicam as mesmas fórmulas neoliberais, apenas suavizando um pouco o impacto social.

É o caso do PT? Meus amigos do PSOL dizem que sim. Eu discordo. Ainda não é. E isso por um motivo que não tem nada a ver com as supostas capacidades dos próceres petistas. O caso é que o Brasil não é um país rico e é muito, muito desigual. Nem os tucanos conseguiram aplicar a cartilha neoliberal ao pé da letra. E as políticas sociais dos governos petistas tiveram um alcance extraordinário.

Portanto, o PT fez diferença nesses 12 anos. Mas também se fez diferente. É cada vez mais um partido de parlamentares. Parlamentares e seus séquitos. A dinâmica interna murchou bastante. E aquele partido combativo, sempre nas ruas, só aparece quando tem eleição.

Voltando ao início. Tarefas urgentes. A do partido é uma guinada à esquerda.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Reforma política - o projeto da OAB (1)

Todo mundo fala em reforma política, mas cada um tem a sua. O PT propõe financiamento exclusivamente público e voto proporcional em lista fechada. Grande parte da direita quer voto distrital. Um ou outro fala em distrital misto.

O voto distrital é o cúmulo da fulanização da política. Mas dele estamos salvos - ao que tudo indica - pela Constituição. Ela determina que a eleição para a Câmara dos Deputados tem que ser proporcional. Se insistem na tese, é para fazer cortina de fumaça.

O voto em lista fechada tem vantagens, mas pode conferir poder demasiado às máquinas partidárias. Pensando em realpolitik, é duro de passar. Vão logo dizer que o PT quer acabar com a democracia e cassar o direito do eleitor de votar no Tiririca ou no Bolsonaro. Desculpa, Tiririca.

Eu fico com o projeto da OAB, que hoje é assumido por mais de cem entidades da sociedade civil. Ele enfrenta os principais problemas do sistema atual:

- a influência fortíssima do poder econômico e a corrupção eleitoral;
- a baixa representatividade dos eleitos em lista aberta;
- a subrepresentação das mulheres; e
- a virtual ausência de mecanismos de democracia direta.

Vai ao encontro dos sentimentos das ruas. Não é projeto partidário. Claro que não vai fazer o Brasil virar Pasárgada. Mas pode melhorar muito essa nossa política tão reles.

Nos próximos dias, vou falar de cada ponto do projeto. Se você estiver com pressa, pode ler a cartilha da Coalizão pela Reforma Política Democrática.

sábado, 1 de novembro de 2014

Separatismo - Rio independente

Aproveitando a onda, quero defender o separatismo do Rio de Janeiro. O estado todo. Tudo bem, Porciúncula e Varre-Sai podem ficar de fora.

Juntos, os outros municípios vão fazer um país de Primeiro Mundo. Vai ter praia e montanha, igualzinho a Mônaco. Só que vai ser Mônaco com petróleo para dar e vender. Mônaco filiado à OPEP.

Falei no principado europeu? Pois é. O nosso país também vai ser monarquia. Monarquia constitucional, é claro. A família mais representativa de todas vai empalmar a coroa - os Silva. Rainha Benedita da Silva. Que porte! Que imponência! Que galhardia! Mas atenção: ela só vai reinar. Governar vai ser com quem sabe. (disposição extraordinária da Constituição determinará a sucessora -  a princesa Camila Pitanga)

O jogo será liberado. As drogas, também. Tudo com a iniciativa privada. Já temos empresários com o necessário know-how. E a criminalidade cairá vertiginosamente.

Os cidadãos serão todos "cariocas". "Fluminenses", não, para evitar novas secessões. Já que carioca é um estado de espírito, uma comissão de alto nível concederá naturalização para nascidos no Brasil, aqui radicados, que mereçam a honraria. O João Bosco, que é mineiro. O Rubem Fonseca, que é quase ipanemense, afinal nasceu em Juixx de Fora. O Noca da Portela, que por acaso veio ao mundo em Leopoldina. A Jandira Feghali, curitibana. Só gente boa. O Gabeira e o Lindberg ficarão sub judice.

Esse país tem tudo para dar certo! Já vai começar sediando a Olimpíada. O hino vai ser "Cidade Maravilhosa", e nada de cantar perfilado, tem mais é que dançar. A moeda vai ser o "merréis". Na bandeira escreveremos: " Yolhesman Crisbelles!" É o dístico da Banda de Ipanema e não significa absolutamente nada.

Somos hospitaleiros. Turistas brasileiros serão bem-vindos. Até os paulistas. Mas os paulistas vão ter que tirar visto no consulado.

Cariocas! Amanhã lutaremos pela independência! Hoje não, que deu praia.

Halloween - cuidado, que a Cuca te pega!

Cultura é caldeirão. Em qualquer lugar do mundo. Ainda mais no Brasil, país tão miscigenado. A metáfora pode ser outra. Liquidificador. Você vai botando os ingredientes e ele mistura tudo.

Não tem besteira maior que almejar uma cultura livre de influências alienígenas. Uma besteira até perigosa. Era o ideal de Hitler. Calma, não vou chamar ninguém de nazista. Foi só um exemplo extremo.

Estou pensando, é claro, no Halloween. Tem gente que detesta. Diz que é coisa de americano. Yankee go home. Fala para um cara do sul dos Estados Unidos que ele é ianque. Mas fala e sai correndo, antes que ele reaja.

Só que não. A festa tem origem celta. E os celtas foram um dos povos que se juntaram para formar a nação portuguesa. Nação essa, como sabemos, um tanto ou quanto influente aqui no nosso Brasil.

Todo mundo veste jeans, come hamburger, digita num tablet, compra no shopping e diz hello no telephone. Mas chega outubro e o pessoal fica mais nacionalista que na Copa do Mundo de Ludopédio.

Querem transformar o Halloween em "Dia do Saci", para cultuar só monstros bem nacionais. A Cuca, por exemplo. A Cuca deriva da "Coca", que é da península ibérica. Ela é representada por uma abóbora moranga, cortada de forma a desenhar uma careta e iluminada por uma vela na parte oca. Você já viu algo assim? Exato. É o "jack-o'-lantern" imperialista.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sexta de poesia (de volta!) - Oswald de Andrade

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Gotas paulistas (nova antologia das minhas besteiras no face)

Viagem pra SP - fazendo a mala
Nordestinos, cariocas e mineiros se solidarizam com os flagelados de SP!
Os quartéis dos bombeiros já estão recebendo doações: fraldas descartáveis, roupas, desodorantes, sucos de caixinha e água mineral. Leite em pó, NÃO.

Como todos sabem, São Paulo se separou do Brasil depois da reeleição da Dilma. Pra viajar pra lá, agora, é preciso passar na alfândega. Atenção para os limites máximos de alguns produtos:
- ciagarros: 1 pacote
- vinho e outras bebidas alcoólicas: 12 garrafas
- pequenos presentes e souvenirs: 20 unidades
- água da bica: 10 litros.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que o garrafão de água mineral de Itu cabe no bolso de trás da calça.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que o pessoal tá fritando o peixinho pra beber a água do aquário.

A situação em SP tá tão ruim que precisa de porte de arma pra comprar revolvinho d'água.

A situação de SP não tá tão ruim. Eu é que tô fazendo tempestade em copo sem água.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A dissonância cognitiva e os eleitores do Aecim

Tem um experimento clássico em psicologia social. Você paga a dois grupos para fazer um trabalho maçante. Um grupo recebe uma boa grana. O outro grupo recebe uma merreca. Depois você avalia a satisfação de cada um com o trabalho.

Quem você acha que ficou mais satisfeito? O grupo que ganhou bem? Nada disso. Os que declaram mais satisfação são os que receberam pouquinho.

É que rola o que se chama "dissonância cognitiva". "Aceitei fazer um trabalho péssimo para ganhar pouco" é uma constatação dolorosa. O sujeito se defende desse sentimento. Então ele atribui mais satisfação ao trabalho chato.

Acho que aconteceu coisa semelhante com vários eleitores do Aecim. Foi gente que não resistiu à pressão do grupo. Votar nos petralhas ficou fora de moda na classe média do sul/sudeste. O cara não teve força para remar contra a maré. Tucanou.

Mas ficou aquela dissonância. No fundo, no fundo, o neotucano sabe quem é o candidato dele. Conhece seus antecedentes. Mais: ele passou pelos governos do PSDB. Vamos imaginar que é um coleguinha do Banco do Brasil: dos oito anos do reinado do imperador Fernando II, foram seis sem aumento. Nem meio por cento. Teve gente demitida por nada. Teve até gente que se matou.

O jeito é passar uma borracha na memória. Corrupção, é claro, é coisa que começou em 2003. Juros altos são os 11% de agora, não os 45% dos tempos áureos do FHC. A Petrobras era valorizada à beça. Tinha emprego para todo mundo. Crise mundial? Crise braba foi aquela da Rússia, foi aquela do México, foi aquela de... sei lá... Kuala Lampur - todas enfrentadas com galhardia e empréstimos do FMI.

Nosso herói faz de tudo para evitar o sofrimento psíquico. Acaba ficando mais reaça que o Malafaia.