"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

quarta-feira, 25 de março de 2015

Bebês, carboidratos e lipídeos

Ana Lua é fofinha 
A gente gosta dos bebês, mas não é porque eles são pequenos e fofinhos. A gente gosta dos bebês porque eles têm a cabeça grande, em relação ao corpo.

Os mamíferos nascem com cabeças grandes. Por isso um filhote de elefante é fofinho, mesmo não sendo exatamente pequeno. Nós somos geneticamente programados para gostar de seres cabeçudos. Nós e quase toda a classe Mammalia. Funcionou para a sobrevivência da espécie. Funciona, ainda hoje, para os fabricantes de bonecas.

Deixa eu explicar. Imagina o Brucutu. É tarde da noite. Amanhã cedo ele tem que sair e caçar um ou dois brontossauros para alimentar a família. A criaturinha começa a chorar. Não tem chupeta, não tem lenço umedecido para limpar o bumbum. O que impede nosso herói de silenciar o berreiro de encontro às paredes da caverna? É que o emissor do insuportável ruído é cabeçudinho e isso mexe com determinado gene, provocando o impulso de cuidar, não o de esmagar a caixa craniana. O primo do Brucutu não tinha esse gene em particular. Sua prole não viveu muito. O Brucutu passou algumas noites em claro, mas sua descendência proliferou, trazendo esse especialíssimo código de DNA até o século XXI.

Eram tempos difíceis. Nem sempre um brontossauro estava dando sopa. Não tinha pizza delivery nem supermercado 24 horas. O Brucutu, sua dedicada esposa e seus filhos fofinhos comiam até não aguentar mais, sempre que podiam. E preferiam os alimentos mais energéticos: os ricos em carboidratos e lipídeos. Até hoje é o que a gente mais gosta. Só que a oferta é muito, muitíssimo abundante: massas, pães, doces, linguiças, carnes suculentas...  Na etologia, isso se chama "superestímulo". O resultado é obesidade, diabetes, alergias e coronárias entupidas.

Moral da história: será que tem? Se tiver, é mais ou menos assim: nossos genes nos trouxeram até aqui, mas não confie neles para nos levar mais adiante. O bastão passou para a cultura. Não perca tempo estudando etologia. Leia Shakespeare. Ou Proust. Heidegger. Freud. Por aí.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quantos milhões?

Meus amigos governistas que me desculpem. A oposição deu show de bola.

Ah, mas foi convocado pela Globo! Não tem a menor importância. Botar gente na rua é sempre difícil.

Ah, mas só tinha classe média! E daí? Classe média também é gente - e eleitor.

Ah, mas não tinha tanta gente assim! É... se você pegar a Paulista todinha, bem cheia, dá marromeno 800 mil. Calculei no Google Maps. Claro que ninguém nunca encheu a avenida completamente. Nem no réveillon. Muito menos ontem. Mas é como eu disse em outra postagem: manifestação é isso - uns inflam, outros desinflam. Depende do interesse do freguês.

Eu gostei. Gostei da sexta e gostei do domingo. Acho legal que o debate político fique bem claro. Cartas na mesa. Gente na rua. Democracia sem povo é muito chato.

Já não lembro da minha primeira passeata. Foi lá pela década de 70. Ditadura. Era mais difícil. Saúdo a chegada da direita às ruas, com todas as suas contradições. Golpe militar. Impeachment. Encurralar o governo até 2018. Neonazistas. Cristãos fundamentalistas. Fascistoides. Conservadores mais ou menos democráticos. Faz parte. A esquerda também não tem essa unidade toda.

A senhorinha que fez sua estreia de sapato de salto alto, coitada. O único negão da manifestação da Bahia. A moça que virou meme, que tem problemas mentais por causa da "corrupissão". Aquela gente toda que protestou contra a corrupção vestindo a camisa da CBF. A fãzoca do Bolsonaro. O cara que queria participar, mas saiu correndo quando viu o Bolsonaro. Bem-vindos às ruas, todos vocês.

Repito: bem-vindos. Prometo que não vou chamar ninguém de "coxinha".

sábado, 14 de março de 2015

Quantos mil?

Nunca vi manifestação que não fosse inflada ou desinflada, de acordo com o observador. Também não precisa exagerar.

Existe método para calcular com razoável precisão. Precisa de uma boa foto aérea. O que a Folha fez ontem na Paulista, com pesquisadores no meio da massa, me parece uma sofisticada picaretagem.

O exagero começou para valer na campanha das Diretas Já. É que todo mundo era a favor. Cada um aumentava um ponto. O famoso comício da Candelária consagrou o número de um milhão. Não cabia. Fui conferir no Google Maps. São mais ou menos 125 mil metros quadrados. Na boa, umas 500 mil pessoas. Não tinha isso tudo. Mais para trás, perto da Rua Uruguaiana, a multidão estava bem dispersa.

De lá para cá, se não reunir cem mil é fracasso. Caramba. Nem jogo do Flamengo.

Vamos combinar que 10 mil fazem uma boa manifestação. 50 mil arrebentam. De cem mil para cima, só em grandes ocasiões: visita do papa, seleção campeã do mundo, show dos Beatles - mas só se for com o John e o George.

As manifestações de ontem foram bonitas à beça. Tinha muita gente, Faz tempo que a turma não ia para a rua com essa força. Valeu.

quarta-feira, 11 de março de 2015

"Vaca"

Palavras não me chocam. Fui criado na arquibancada do Maraca. Meu vocabulário é extenso. Só acho que é muita falta do que fazer.

Madame quer o impeachment da Dilma porque ela é uma "vaca"? É isso mesmo? Não tem um motivozinho melhor?

Ladra. Aí eu gosto mais. Crítica política - e das fortes. Motivo para impedir a presidenta. Pena que ela não é. Ou pelo menos não acharam até hoje o mínimo indício de que fosse. Corre atrás, madame. Contrata um detetive. Um hacker. Quem sabe, eles desencavam alguma coisa. Antes disso, é melhor guardar a boca para comer farinha. Ou trufas do Piemonte. Porque é um tipo penal bem conhecido - calúnia. Não chega a dar cadeia, mas desmoraliza quem faz.

Fico satisfeito que apareça uma direita atuante e mobilizada - mesmo que a mobilização seja mais virtual que outra coisa. O Brasil precisa disso. Antes, ninguém era de direita - nem o Zé Serra, que andava em cada companhia que vou te contar. Agora, não. O eleitorado tucano mostra a cara. O jogo fica aberto. Cartas na mesa.

Só queria que eles fossem um pouquinho melhores. A direita já teve um Gustavo Corção. Um Carlos Lacerda. Hoje, quem é o ideólogo? O Olavo? Quem é o líder? O Bolsonaro? Os direitistas se veem condenados a votar no Aecim, perder, depois pedir golpe militar.

Sou otimista. A direita vai melhorar. Por enquanto, é só um infantilismo.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Panelaço

Tem uns tipos de protesto que eu não gosto. Panelaço. Sei lá. Mania minha. Me parece coisa de argentino. Nada a ver, eu sei. Repito: é mania.

Agora... panelaço na varanda é bom demais!

Imagina só. Domingão. Madame assistindo ao Fantástico. Foi na hora do Fantástico? Não sei. Não vejo TV. Para mim, foi. Então madame está escarrapachada no sofá e o maridão cochila na poltrona. Um pouco ele ressona, um pouco ele arrota a cerveja do futebol. De repente, sai o apresentador bonitão. Entra a carantonha da Dilma. Ó, céus! Logo no Fantástico!

Trim-trim no Whatsapp, no Facebook da madame. Vamos bater panelas! Ela corre para a cozinha. Onde que a Creosoldette guarda as panelas, meudeus? Debaixo da pia. Tem que agachar. Ui, meu joelho! Madame pega a panela de pressão. Muito pesada. A frigideira. Muito sambista. Enfim, acha uma que serve. Já começou a bateção no bairro. Colher de pau! Colher de pau! Onde? Onde? Escancara as gavetas. Derruba tudo. O espremedor de alho cai no dedinho do pé. Aaaaiii!

Finalmente apetrechada, madame sai à varanda. Na pressa, derruba as rosas colombianas que ganhou pelo Dia da Mulher. A água do vaso encharca o tapete persa falsificado. Madame nem repara. Está possuída pelo espírito cívico. Bate-que-bate. Gritos politizados: Vaca! Puta! Gorda!

Não acredito! A panela da vizinha do 401 é Le Creuset!

Roída de inveja, madame se recolhe a seus aposentos. Lá fora, o panelaço vai minguando.

domingo, 8 de março de 2015

Essas mulheres - minhas histórias

Contar histórias é mister feminino. Desde sempre. Para acalentar. Instruir. Proteger. Divertir. Memorizar. Para fiar o fio que liga as gerações e tecer o tecido que a gente chama de cultura.

Fiar e tecer.

Um dia, os homens se apossaram das histórias das mulheres - e foi para cantar suas guerras e seus heróis. Histórias de morte.

As minhas histórias são simples. Não têm nada de mais. Mas são histórias de vida. De gente que passou o seu tempo no mundo tentando fazer o melhor.

Eu quase não sei da Luciana. Minha mãe falava muito pouco da mãe que não teve. Só fui saber o seu nome - acredite - por causa da lápide no túmulo que também é o da Ruth.

O que eu lembro da Zezé é uma passarinha. Passando pela vida sem se fazer notar. Suave, suave. Depois é que eu percebi o quanto ela era forte.

Custei a entender a Ruth. Só quando fiquei mais velho. Uma vida toda contida pelos limites impostos pelos azares da vida e pelos poderes dos homens. Mas ela nunca se entregou.

Dos amores da minha vida, eu achava que a Sandra era até que a morte. Só não sabia que ia ser tão cedo. Cicatriz que de vez em quando ainda abre.

Histórias de mulheres que foram, para as mulheres que estão aí. Fiando o fio. Dedicadas à Júlia, à Joana, à Tereza - filhas - e à Diana, à Manu, à Olívia e à Ana - netas.

Para a Sandra, minha companheira (1951 - 1998)

Maria, Maria (Milton Nascimento)

Essas mulheres - Sandra

Detonada, a Baixinha. "Baixinha". Era assim que ela era conhecida em Porto Alegre. Só um metro e 50. Ou melhor: um metro, 51 centímetros e meio, como ela fazia questão de precisar.

Imagina só: ela passou no vestibular sem ter tirado carteira de identidade. Foi enrolando a burocracia universitária até se formar em direito. Por toda a vida, sua única identificação formal foi a da OAB. Mas isso não é nada. Lá pelos 18 anos, ela viajou para o Uruguai com uns amigos. Como passar pela fronteira sem documento? A Sandra se escondeu na mala do carro. Ditaduras sanguinárias nos dois países. Se ela fosse pega, eu não ia ter história para contar aqui.

Pois é. Como tanta gente, a Sandra chegou à Universidade sem muita coisa na cabeça. Mas aí mudou tudo. Tinha uma escola de direito progressista no sul. Direito como resistência. Defesa corajosa dos fiapos de liberdade. E proteção dos trabalhadores - foi aí que ela encontrou sua vocação. Vinte anos de militância no direito do trabalho. Nunca defendeu empresas. E por isso jamais ganhou dinheiro a valer.

A Sandra era emoção à flor da pele. E ódio visceral à injustiça. Deixa eu contar uma história, que você vai entender.

Era o início dos anos 90. Violência urbana fora de controle. O governo fez a "Operação Rio": ocupação das favelas pelas tropas do exército. A Sandra estava na Av. Copacabana, quando viu um rapaz sendo espancado por quatro soldados. Era noite alta, mas já estava juntando gente. Todo mundo passivo. Ela não pensou... não digo duas vezes. Ela não pensou nem meia vez. Investiu contra os caras, dando bolsadas e xingando nomes que eu não escrevo aqui no blog. Uma cena. Precisou o namorado intervir, para ela cair em si, puxar a carteira de advogada, botar respeito.

A violência parou, mas levaram o moço. Era um tempo em que sumia gente. Lá foi a Sandra, Ladeira Saint Roman acima, até o QG da tropa. Um cara vestido a paisana, que se dizia coronel, ameaçou: "aqui não entra advogado". A Sandra não recuou. Garantiu que o rapaz tivesse atendimento médico. Exigiu que formalizassem a detenção. Acabou expulsa, escoltada por dois soldados armados até os dentes.

Nem assim ela desistiu. Encontrou a família. Fez  contato com associações de direitos humanos. Deu entrevistas para a TV. Acabou localizando o preso no quartel da PE. Ele foi solto uns quinze dias depois.

Com 40 e poucos anos, a Sandra estava cansada. Tanto trabalho, nenhuma recompensa. "Eu só sei fazer direito, eu não sei fazer negócios, mas o direito virou balcão de negócios." Ansiedade. Insônia. Anorexia. Úlcera aguda. Parada cardíaca. Coma vegetativa. Fim.

Sandra, minha companheira, mãe da Tereza, minha filha mais nova.

Para a Ruth, minha mãe

Jesus, Alegria dos Homens (Bach)

Essas mulheres - Ruth

Ela não conheceu a mãe. A tuberculose a levou quando a Ruth era um bebezinho. Tempos machistas. Mais machistas que hoje. Pai viúvo com a filha, nem pensar. Ela foi criada pela avó.

A Ruth queria ser médica. O pai disse que não. Não era profissão de mulher. Profissões de mulher eram muito poucas. Ela foi para o Instituto de Educação, se formou no Normal: professora primária. A primeira escola foi em Bangu. 19 anos. Uma turma cheia de repetentes. Os excluídos do sistema. Rapazes taludos de 14, 15. Mais altos que ela. Protegiam a professorinha no trem. O primeiro orgulho: todos acabaram o primário. Nenhum desistiu.

Para trabalhar no primeiro mês, a Ruth tinha pedido dinheiro emprestado com o pai, para as passagens e algumas roupas. O almoço ia na marmita. Com o primeiro salário, ela pagou os empréstimos e ainda comprou uns presentes: cortes de tecido para as duas irmãs menores, uma caixa de bombons para a madrasta.

Professora das antigas. Os olhos verdes, com uns raios amarelos de jeito felino, faiscavam, paralisavam os meninos que saíam da linha. Mas também era toda atenção, cuidado, carinho austero. Chegava a comprar material para os mais pobres. E fazia diagnósticos precisos, antes mesmo dos doutores. Não sei se também receitava. Mas bem que podia.

Os filhos lembram dela brava, mas também boa de beijo e abraço. Os netos passaram nos vestibulares com muita aula na mesa de jantar - qualquer matéria, de Português a Química. Os ex-alunos a reconheciam, chamavam a lembrança, agradecidos, olhos úmidos: eram padeiros, garçons, guardas de trânsito, caixas de supermercado. Gente de bem. Ela disfarçava a emoção desses encontros.

Quando a Ruth se aposentou, tinha bursite - de tanto escrever no quadro-negro - e calos nas cordas vocais - de ensinar em classes com 40, 50 alunos. Só não tinha comodismo. Depois dos 60, se formou em Teologia. Com 70 e poucos, em Filosofia. Foi dar aulas de lógica. Mas largou logo, que o marido estava doente e precisava do seu cuidado. Ou ela precisava cuidar dele.

Seu sonho era visitar Jerusalém. Viúva, ela podia. Mas nunca foi. Tinha medo de avião. Ou era porque não dava vontade de ir sem o seu homem. Como é que se diz? Na alegria e na tristeza, todos os dias da vida.

Ruth Carolina. Ela odiava o segundo nome. Minha mãe.

Para a Zezé, mãe do meu pai

Horizons (Genesis)

Essas mulheres - Zezé

Ela tocava violão. Não parece nada demais. Mas era o início do século passado. Violão era instrumento de malandro. Não tinha entrada nos salões da sociedade. Ainda mais sobre as coxas de uma moça de família. Instrumentos femininos eram o acordeon, o piano, e olhe lá. Tanto assim que quando casou - lá por 1920 - ela parou de tocar. "Violão não era pra mulher casada", ela diria depois, minimizando o preconceito .

A Zezé tinha suas manias. Bebia o café mais fraco do mundo. Arrumava gavetas como ninguém. Gostava de comer deitada. Não o almoço, a janta. Guloseimas. O filho trazia marrom glacé da Confeitaria Colombo. "Hummm... vou já pra cama pra comer!"

Ela estava com uns 60 anos. Contente à beça. A família ia aumentar. Sua primogênita ia ter mais um neném. Foi um desastre. Morreram mãe e filha na sala de parto. Não passaram nem duas semanas. O marido da Zezé teve um troço. Rompeu um aneurisma. Morreu na hora, em plena rua.

A Zezé quase enlouqueceu. Sozinha, com uma pensão magra que não dava para nada, foi morar com o filho casado. Passava os dias perambulando pelo apartamento, chorando sem alarde. O netinho mais novo disse: "vovó, não cho'a... p'ocu'a lê." Ela pegou os pocket-books do filho. Tudo em inglês. Um dicionário. Foi decifrando. Depois de uns meses, ela lia correntemente, em tradução mental. Entendimento de mão única: se você perguntasse o significado de "window", ela respondia logo. Se você perguntasse como era "janela" em inglês, ela não sabia.

Passaram-se anos. A Zezé mudou do luto fechado para uns vestidos em preto e branco, que ela mesma costurava. Com um dinheirinho economizado, comprou um violão Di Giorgio. E voltou a tocar. Bem baixinho, que era para não incomodar ninguém.

No fim da vida, ela foi esquecendo. Esqueceu até quem era. O filho precisou interná-la numa casa de repouso. Todo dia ele ia visitar. Levava um pacote de biscoitos maizena, os favoritos. Ela abria um sorriso sem dentes: "hummm... vou já pra cama pra comer!"

Zezé, mãe do meu pai.

Para a Luciana, mãe da minha mãe

Eu Não Existo Sem Você (Tom - Vinícius)
com Tom Jobim e Ana Jobim

Essas mulheres - Luciana

Ainda menina, ela veio para o Brasil com a família. Deixou para trás a Ilha da Madeira, onde se falava um português arrevesado e onde as terras eram parcas e mal divididas.

Ela era muito jovem. Pegou tuberculose. Não tinha remédio. Era morte certa, mais rápida ou mais lenta. E o medo do contágio! Ninguém sabia direito como era e todo mundo se afastava.

Mas a Luciana se apaixonou. O Manuel era um rapagão: remador do Vasco, campeão sul-americano de single skiff. Cheio de saúde. Ele também não resistiu àquela beleza pálida, de cabelos negros suavemente encaracolados, olhos verdes de gata, narizinho fino, aristocrático, só um pouco arrebitado.

Eles se casaram. Foi um escândalo.

A família do noivo dizia: "ela vai te passar essa doença!" Os parentes da noiva sussurravam: "uma doidivanas!" Os médicos ameaçavam: "você não pode ter filhos!"

Contra tudo e contra todos, eles foram morar numa vilazinha no bairro do Leme, que era barato. A Luciana engravidou. Queriam que ela tirasse o neném. Os dois resistiram. Foi uma barra. A grávida emagrecia, ao invés de engordar. A doença se aproveitava. Comia os pulmões.

Que coragem. No segundo dia de 1927, nasceu uma menininha saudável de três quilos, que era a cara da mãe. Dois meses depois, a Luciana parou de lutar.

Luciana, mãe da minha mãe.

Essas mulheres

No distante ano de 2008 eu fiz uma pequena homenagem às mulheres. Eu falava das histórias de algumas que fizeram História. A escolha foi totalmente pessoal: gente que me encantou ao longo da vida, pela sua poesia, sua música, sua inteligência, sua coragem - Simone de Beauvoir, Josephine Baker, Marie Curie, Clementina de Jesus, Anita Garibaldi, Billie Holiday, Nise da Silveira, Elis Regina, Rosa Luxemburgo, Cora Coralina. O blog ainda estava na plataforma Uol, que depois me fez o favor de deletar meu trabalho todo.

Para minha sorte, teve quem gostou. As meninas do DCE da UEM copicolaram no blog delas e está lá até hoje. Se você quiser ver: essas-mulheres-homenagem-por-joel-bueno.

Abria com esse textinho aqui:

Essas mulheres que foram queimadas pela Igreja porque sabiam fazer poções melhores que os remédios dos médicos. Que foram estupradas pelos heroicos guerreiros de todas as guerras heroicas. Que foram trancadas nos conventos, e na clausura criaram os doces mais gostosos do mundo. Que substituiram seus homens nos teares da indústria, trabalhando 16 horas por dia pela metade do salário, passando fome e adoecendo de tísica. Que lutaram pela liberdade nas barricadas da Comuna de Paris ou nas trincheiras da Guerra Civil espanhola. Que jogaram o espartilho no lixo e saíram às ruas para exigir seus direitos políticos. Que foram artistas do palco tratadas como prostitutas. Que foram prostitutas tratadas como prostitutas. Que tiveram os seus corpos mutilados para não sentir prazer no sexo. Que tiveram as suas mentes mutiladas com a mesma intenção.

Essas mulheres que viveram a vida, trabalharam, cuidaram da geração passada e da geração futura, contaram e recontaram histórias, choraram, riram a valer, se divertiram como puderam, tentaram ser felizes.

Hoje eu vou fazer algo parecido, mas com uma seleção ainda mais particular. Tomara que alguém goste.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sexta de poesia - Cassiano Ricardo

O Relógio

Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.

(a partir da citação da blogonauta amiga Deise Lessa)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Márcia

O nome dela não é Márcia. Mas pode ser que ela não goste da exposição. A Márcia é bem reservada.

Nos conhecemos há 16 anos. Eu estava numa fase ruim. Afetos desmoronados. Autoestima abaixo do nível do mar. Essas coisas que acontecem com todo mundo, de tempos em tempos. E ela era tão bonita, tão bonita.

A Márcia também não estava no melhor momento. Tinha saído de uma relação complicada. Ela não queria laços. Eu só queria garantir que estava vivo. Durou uns dois meses. Saí quebrado em caquinhos. Mas vivendo à toda.

Eu refiz a minha vida, como todo mundo refaz, de tempos em tempos. Ficamos sem nos ver. Até que a  minha companheira adoeceu de uma doença inesperada. Foram 80 dias de coma vegetativo e a morte inevitável. Muita gente fugiu. A morte é foda. A Márcia me ligou, da cidade dela. Várias vezes. Maior força.

Depois a gente fez uns trabalhos juntos. A amizade consolidou. Mas eu mudei de atividade, ela passou anos na Europa, faz tempo que a gente não se encontra.

Reparo que ainda não falei da Márcia, do seu jeito de ser. Vamos lá. Quando eu a conheci, com 20 e tantos anos, ela parecia mais velha. Muito séria, muito ansiosa em fazer tudo certo. Agora ela é mais jovem. Não. Não é nada disso. A Márcia sempre foi ao mesmo tempo. Garota e madura. Alegre e compenetrada. Estudiosa e esportiva. Forte e frágil.

Faz uns meses que a Márcia operou um câncer bem filho da puta. Eu queria ir a Campinas (não, não é Campinas), dar um abraço grande, conversar besteiras, chorar junto se precisasse. Não fui. Circunstâncias. Dei um apoiozinho à distância.

Minto. Não foram circunstâncias. É que eu não sabia se tinha essa intimidade toda, para partilhar o transe que era dela. Nós convivemos tão pouco, menina. E eu gosto tanto de você. Feliz aniversário.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sexta de poesia - Mário de Sá-Carneiro

Vontade de dormir

Fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte...

.....................................................................

— Ai que saudade da morte...

.....................................................................

Quero dormir... ancorar...

.....................................................................

Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Torcedores

Torcer por uma escola de samba é diferente de torcer por um clube de futebol. Para mim, pelo menos, é. Mas acho que para todo mundo.

O típico torcedor de futebol quer que seu time ganhe de qualquer jeito. Gol com a mão, em impedimento, na prorrogação. Tem uns mais fariseus que negam esse instinto assassino. Mas mesmo esses. Se o time jogar pior, mas ganhar, está de bom tamanho.

O torcedor do samba quer que a sua escola seja a melhor. Ganhar é decorrência. Ou deveria ser. Os julgadores não são grande coisa. Mas esse é outro papo.

A percepção do torcedor pode enganá-lo. Eu gosto do Salgueiro, tendo a achar o Salgueiro mais bonito. Mas nem sempre é assim. Com frequência reconheço que a minha escola foi mal. Aí não quero que leve na apuração o que não ganhou na avenida.

Outra diferença é que em geral não há tanto ódio. O cara torce pela Mangueira. Talvez deteste a Portela. Ou a Beija-Flor. Mas não odeia todas as outras. Vai ter sua simpatia pela Unidos da Tijuca, pela Mocidade, sei lá. No futebol é ao contrário. O cara pode ter afinidade com mais um ou outro time, pode execrar especialmente um - geralmente o Flamengo ou o Corinthians -, mas sua vontade de destruir o Outro a pontapés se distribui democraticamente pelos demais.

No samba, as escolas são "coirmãs". No futebol, os times são "adversários". Isso com muito flair-play. Já notou que não tem apelido depreciativo para torcedor de escola? Ninguém é porco, urubu, pó-de-arroz, bosteiro.

Na politica devia reinar um espírito parecido com o dos sambistas. Mais ainda, não é? Afinal, o objetivo da política é conquistar a hegemonia. Ganhar apoios. Ser majoritário. Chamar todos os que pensam diferente de coxinhas, imbecis, petralhas, ladrões, traidores, etc, etc, etc... sei não, mas quero crer que não ajuda.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Grécia, a Espanha, o Brasil e Rimbaud

Tem gente que mistura tudo. Vê a vitória da esquerda num país periférico da Europa e vai logo no Youtube, para aprender a cantar Bella Ciao. Lembra da multidão acampada na Plaza del Sol e corre para garantir sua carteirinha do Movimento Passe Livre. Geralmente é uma turma que acha que o mundo começou anteontem. As revoltas populares do século XXI surgiram que nem o Big Bang - de variações quânticas da energia do vácuo.

A Espanha e a Grécia são exemplos extremos de fenômenos comuns ao capitalismo avançado: automação da indústria, globalização da mão de obra, precarização do trabalho, financeirização da economia, crise cíclica. Nada que a gente não possa achar no cânone do velho barbudo. O Brasil é um tanto diferente. Um país que anda precisa incorporar grandes massas ao sistema de produção/consumo. E bem ou mal vem fazendo isso. Transposições mecânicas costumam fazer muito estrago.

O Syriza surgiu de uma coalizão de esquerda, inclusive um dos partidos comunistas gregos. O Podemos espanhol não construiu um programa muito bem definido, mas tem claro viés anticapitalista. Aí vêm aqueles pressurosos em explicar que o Syriza não é tão comunista quando devia e já começou a trair os interesses da classe trabalhadora. E que o Podemos é uma geleia geral pequeno-burguesa.

Menos, gente. Menos. Vivemos tempos difíceis. A experiência socialista fracassou. Ah, não era socialismo "de verdade". Pode ser. Mas foi o que tivemos. Moldou o século XX. Do outro lado, o capitalismo aparentemente vitorioso se afoga na água rasa das suas contradições: produz demais, distribui pessimamente, entre uma crise e outra inventa seus próprios inimigos e vai à guerra. No meio disso tudo, a revolução informacional está apenas começando.´

Não custa ter cautela. Observar com atenção. Opinar com parcimônia, sabendo que toda opinião é provisória. Desconfiar de modelos. Apoiar políticas que diminuam o sofrimento humano e esperar pela alvorada com a paciência ardente de Rimbaud.

Nós tateamos, quase às cegas. Nós, que reivindicamos a tradição intelectual empírica da esquerda. Outros caminham confiantes, iluminados pelo sol artificial da ideologia. O abismo está logo ali.

Autocrítica

A autocrítica está para a tradição marxista-leninista assim como a confissão está para o catolicismo. Com duas diferenças: 1. a autocrítica deve ser pública, enquanto a Santa Madre nos poupa desse vexame; 2.a autocrítica nem sempre garante a absolvição, ao contrário - às vezes, ela é acompanhada do fuzilamento.

Dito isto, vamos à minha.

Mas antes, um preâmbulo. Quem lê o meu perfil neste blog, com o tanto de coisa que já fui e não sou mais, pode perceber que minha vida se resume a uma série interminável de erros duramente reconhecidos. A essa altura do campeonato, eu pensava estar livre de certas tarefas no movimento: carregar pau de faixa, balançar bandeira, empurrar carro de som quebrado e fazer autocrítica. Mas a cobrança é imensa. Pior: se falto ao dever revolucionário, me criticam para valer, com aquela fraternidade de Caim para com Abel. Outro dia mesmo eu fui chamado de fundamentalista marxista, eu que nem sei o que é isso!

Então, sem enrolar mais, eu confesso.

Sou ignorante. Mesmo aprendendo um pouco a cada dia. Minha ignorância é que nem o hotel de Hilbert. O conhecimento ocupa um, dois, três quartos. Não adianta. Os quartos vazios continuam infinitos.

Não sou bom. Conheci pessoas boas, que se indignavam com as injustiças do mundo, que eram solidárias com a gripe do vizinho e com os milhões morrendo de fome na China. Eu não. A China, para mim, é uma abstração. E mal conheço meu vizinho. Minha solidariedade, quando existe, é sempre construção mental.

Sou arrogante, pretensioso e cabotino. Meu atenuante: sei disso. Assim, levo ligeira vantagem sobre outros arrogantes, pretensiosos e cabotinos.

Sou irônico, ás vezes sarcástico. Só não sei se isso é tão mau. Ao contrário do soco, recentemente sacralizado pelo santo papa, sarcasmo não quebra dentes.

E o pior de tudo, custo a admitir: até nem parvo sou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Mundo cão do trabalho

Minha filha Tereza acabou o ensino médio e queria trabalhar. Quem acompanha o blogzinho sabe que ela é disléxica, portanto não muito afeita às salas de aula. Mas trabalhar onde, sem experiência e com escolaridade marromeno? Ela descolou um trampo numa lanchonete de uma grande rede internacional.

Salário mínimo. Mas no período de experiência era menos. Trabalho direto de 10 às 5, sem horário de almoço. Uniforme: Tereza calça 39, deram para ela uns sapatos tamanho 37. Em pé o tempo todo, sem intervalo de descanso. Para sentar um pouquinho, ela fingiu que precisava ir ao banheiro.

Tereza chegou em casa morta, faminta, com os pés em chamas e uma dor nas costas desgraçada. Em compensação, trouxe um sanduíche de frango frito. Nossa, que sanduba ruim.

No dia seguinte, ela faltou ao trabalho. A moça do RH ligou, toda atenciosa. Pediu para ela voltar na segunda, que iam arrumar sapatos do tamanho certo.  Tereza foi, a meu conselho - só para dizer que não queria mais. De lá seguiu para uma escola técnica, onde vai fazer curso de auxiliar de enfermagem.

(Parêntese: eu sempre digo para a Tereza que a dislexia não a impede de nada, só demora mais e custa mais esforço. Na escola foi assim. Ela se formou no ensino médio com 20 anos. Muita sessão com a psicopedagoga e com a fonoaudióloga, Professores particulares. Mas ela conseguiu e me deu um orgulho danado. O curso agora é de um ano e meio, eu conto que vai demorar dois anos, talvez mais. Dá emprego garantido. Depois, se quiser, ela pode seguir para a faculdade.)

Voltando ao tema. O desrespeito às normas mais básicas do direito trabalhista ocorre numa franquia multinacional, na segunda maior cidade do país. Eu sugeri denunciar na Delegacia Regional do Trabalho. No sindicato, nem pensar. O Sindicato dos Comerciários está sob intervenção, porque o presidente fraudava as eleições, concedia a si mesmo um salário de marajá e nem trabalhador era, mas dono de uma empresa de táxi aéreo.

(observação - no Facebook, meu filho Daniel me corrigiu: os trabalhadores de restaurantes têm sindicato próprio, não se enquadram mais como comerciários. O Sindirefeições, que os representa, também não deve ser grande coisa, considerando que é filiado à peleguíssima UGT)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Iluminismo

Era uma vez um grupo de intelectuais franceses. Eles não tinham muito em comum entre si, a não ser a certeza de que a razão humana era o melhor caminho para chegar à verdade. Por isso, se juntaram para escrever uma Enciclopédia. Eles queriam consolidar e reunir o conhecimento disponível no seu tempo. Eram os meados do século XVIII.

Talvez eles não imaginassem que sua maior façanha não seria colecionar o passado, mas preparar o futuro. São filhos do Iluminismo tanto a direita liberal quanto o socialismo marxista.

Estado laico, direitos humanos, liberdade de expressão, objetividade científica, combate à superstição, crença no progresso da humanidade. Não eram mais que ideias. Minoritárias, por sinal.

Sei que simplifico. Até distorço. Foi muito mais do que os enciclopedistas. É que me deu vontade de começar por eles. Sei lá por quê.

Muito estranho, o século XVIII. Na França, a burguesia resolve se livrar do poder despótico e se vê arrastada por um movimento popular que ultrapassa em muito seus propósitos de uma monarquia constitucional, ou mesmo, vá lá, de uma república bem comportada. Do outro lado do oceano, meia dúzia de sujeitos, reunidos num porão obscuro, redigem um texto onde se auto-intitulam "representantes do povo reunidos em congresso geral." Depois, saem às ruas para fazer a Revolução.

Desse jeito improvável se fundou a contemporaneidade. Até hoje tem gente que não se conforma. Os mais assumidos defendem teocracias. Os xeques da Arábia. Os fundamentalistas do Tea Party. Os sectários do Exército Islâmico. Os lamas do Tibet.

Mas também tem pré-iluministas "no armário". Até de esquerda. Esses fazem juras republicanas, mas querem um Judiciário de olhos bem abertos, para não condenar os amigos; um Legislativo amestrado, onde só se pronunciem parlamentares de bom gosto estritamente correto; e um Executivo maneta, que distribua favores entre os camaradas, enquanto deixa à míngua quem não reza pela cartilha.

Família Jota Bê - trabalho (3)