"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo..."

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sexta de poesia - Mário Quintana

A Grande Catástrofe

No princípio era o verbo. O verbo ser. Conjugava-se
apenas no infinito. Ser, e nada mais.
Intransitivo absoluto.
Isso foi no princípio. Depois transigiu, e muito. Em
vários modos, tempos e pessoas. Ah, nem queiras saber
o que são as pessoas: eu, tu, ele, nós, vós, eles...
Principalmente eles!
E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira
Explosão do SER em seres, até hoje os anjos
ingenuamente se interrogam por que motivo as referidas pessoas
chamam isso de Criação.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Desmitificando (estragando) o mito

Se o mito não fosse aberto às interpretações, não era mito. A força da narração mítica se apoia, de um lado, na universalidade do tema; do outro, na sua rica estrutura simbólica.

Se me atrevi a fazer uma versão curtinha do mito de Adão e Eva, a culpa é do Eduardo Galeano. Eu estava lendo mais um dos seus livros onde ele recria histórias indígenas ancestrais. Faz tempo que eu tenho uma leitura particular do Gênesis. Resolvi escrevê-la.

No início eu achei que tinha falhado, quando vi o pessoal interpretando a minha interpretação. Era tão diferente do que eu tinha proposto! Depois, pensei melhor. Não era isso. Era a estrutura do mito, muito mais forte que eu.

Este post é sem graça, porque fecha caminhos interpretativos. Eu devia mais era ficar quieto. Mas eu quero explicar a minha leitura do texto bíblico. Não sei dizer se é inédita ou se alguém já a pensou melhor que eu.

Havia um símio que nem os outros, só um pouco mais esperto. Ele acabou desenvolvendo certas habilidades mentais que os outros não tinham. Então houve um momento de corte, quando ele se re-conheceu (viu que estava nu). Ao se reconhecer, ele se separou do mundo. Tornou-se sujeito. Começou a conhecer. O Éden não era o paraíso. Era o estado de natureza. Não é que o ser humano, antes, fosse imortal. É que ele não sabia que estava fadado a morrer.

A anatomia humana tem uma característica particular, que permitiu esse salto para fora de si, ao mesmo tempo maravilhoso e maldito: um cérebro desproporcional ao corpo, uma cabeça muito grande. Por isso o parto humano é mais complicado - e certamente mais doloroso - que o dos outros mamíferos.

Os pastores rudes que escreveram a Bíblia eram lacanianos e darwinistas avant la lettre. Quem diria...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Mito da criação

O Homem e a Mulher viviam nus entre os animais. Quando sentiam fome, comiam. Quando sentiam sede, bebiam. Quando algum perigo os ameaçava, lutavam ou fugiam, porque sentiam medo. Mas não tinham lembrança da fome, quando estavam saciados. Não lembravam da sede, depois de beber. E não guardavam o medo dentro dos seus corações, depois que o perigo passava.

Assim como os animais, o Homem e a Mulher estavam fadados a morrer. Assim como os animais, não sabiam disso. Então eles festejavam cada dia como se fosse único e como se fosse sempre.

Mas eles não estavam satisfeitos. Eles queriam conhecer. O Conhecimento era um dom que só Deus possuía. Os dois foram até Deus e pediram que Ele compartilhasse a dádiva. O Homem e a Mulher achavam que o Conhecimento faria deles deuses também.

Deus os advertiu: o Conhecimento não fará bem a vocês. Nada de bom virá junto com ele. Vocês nunca serão deuses. Mas o Homem e a Mulher insistiram tanto, que Ele mandou a Serpente à terra para ensiná-los a comer do fruto que abria portas e criava amplos salões na mente, de forma a abrigar os nomes das coisas e dos bichos, as ideias e as imagens, os sentimentos e os desejos, o passado culpável e o futuro temido.

O Homem e a Mulher comeram do fruto e suas cabeças cresceram, para que nelas coubesse o Conhecimento. Eles descobriram que estavam nus, e se vestiram. Eles passaram a lembrar da fome, e para que nunca faltasse comida começaram a plantar e cultivar e colher e armazenar. Eles souberam que um dia iam morrer e desde então viveram sempre com medo.

Os filhos do Homem e da Mulher já nasceram de cabeças grandes, prontas para o Conhecimento. Seu parto passou a ser difícil e doloroso.

domingo, 6 de abril de 2014

Fragmentos de uma biografia banal - dores

Meu joelho direito dói. Não é sempre. É de vez em quando. Sem motivo aparente. Um belo dia, a dor me acorda. Já sei que vai doer uns 5, 6 dias. Depois passa. A dor não é constante. É quando força o joelho. Subindo ou descendo escadas. Levantando da cadeira. Quando dobra, quando estica. Dói à beça se eu esqueço e faço um movimento giratório. Mais ou menos assim.

Não reclamo da dor. Ela me lembra de um rapaz de quase 17 anos, que teve um encontro mal havido com um ônibus em alta velocidade. Foi de raspão, é claro. Se fosse em cheio não ia ter ninguém aqui para lembrar nada. De raspão foi o suficiente para quase matar e quebrar mais ossos do que eu tenho vontade de listar aqui.

O joelho foi uma sequelinha. Teve outras. Todas desimportantes. O rapaz voltou a andar, voltou a correr, teve uma vida tão normal quanto a sua loucura particular permitiu.

Faz mais ou menos 40 anos. É como se tivesse acontecido com outra pessoa. Mas a dor me garante que não. Como eu disse: não reclamo. Ela me diz que estou no lucro, que já são quatro décadas de empréstimo, o filho e as filhas, as netas, os amores de final triste, as pequenas conquistas, tudo o que ficou muito perto de nunca acontecer.

sábado, 5 de abril de 2014

Teatro - lembranças

Eu tinha, sei lá, uns 16, 17 anos. O Teatro Oficina preparou uma retrospectiva: Pequenos Burgueses, do Gorki; O Rei da Vela, do Oswald de Andrade; e Galileu Galilei, do Brecht. Sempre com o Renato Borghi, a Esther Góes, um elenco da pesada. Vi tudo. O Galileu, umas três vezes. Triste a terra que precisa de heróis.

Na mesma época, a trupe do Rubens Correa e do Ivan de Albuquerque montou Hoje é Dia de Rock, do José Vicente - e marcou época. Aquilo não era uma peça, era um ritual de fraternidade. Ficou um ano e pouco em cartaz e parou no auge do sucesso. Eles não queriam banalizar a experiência. Se repetisse mais, corria o risco de virar teatrão.

No mesmo Teatro Ipanema, com a mesma turma, veio depois A China é Azul. O autor e protagonista era um ator novo, chamado José Wilker, que já estava no elenco de Hoje é Dia de Rock. Foi um desbunde, se você me permite usar uma expressão daquele tempo.

Teve também uma montagem de Édipo Rei, se não me engano no Tereza Rachel, que me marcou à beça.

Ah, meu amigo, minha amiga... depois disso tudo, ficou difícil ir ao teatro. Eu tinha começado de um patamar muito alto. Não aguentava aquelas encenações acadêmicas que deixavam o palco lá longe da plateia.

Lembro disso tudo agora, é claro, por causa do Zé Wilker. Não foram os personagens globais que me marcaram. Foi o jovem doidão do Teatro Ipanema. Foi o Tiradentes de Os Inconfidentes, filme do Joaquim Pedro de Andrade, que fez milagre com um orçamento baixíssimo. Foi o jovem pai de O Casal, do Daniel Filho, com quem me identifiquei um bocado.

Isso tudo faz tanto tempo. Tão pouco.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Sexta de poesia - Carlos Drummond de Andrade

Política literária

                                                        a Manuel Bandeira


O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Pesquisas, manipulação, dinheiro, voto

O instituto Datafolha fez uma nova pesquisa de intenção de voto. A Folha de SP deve publicar o resultado amanhã. O TSE divulgou a íntegra do questionário. O pessoal da esquerda ficou indignado.

Não foi à toa. O questionário é uma agressão à metodologia. Faz uma série de perguntas sobre problemas do país, reais ou supostos, e só depois verifica a intenção de voto. Coisa lamentável.

O Datafolha já foi melhor. Lembro bem de uma pesquisa feita no auge da campanha pelas privatizações. Foi lá pelo final dos anos 80, se não me engano. A Folha estava engajada. Tinha um espaço enorme dedicado ao tema em todas as edições.  Em cada página, uma faixa no alto mostrava um elefante, símbolo do gigantismo e da ineficiência do estado. Pois a pesquisa mostrou que a grande maioria da população era contra privatizar. E o jornal publicou. Exemplo de independência do instituto de pesquisa e de seriedade do jornal. Outros tempos.

Pesquisa, a essa altura do campeonato, diz muito pouco. Ou melhor: a intenção de voto estimulada tem pouco significado. Valem mais outras questões, em particular a intenção de voto espontânea. Aí eu me pergunto: para que queimar o filme do Datafolha, um instituto respeitável, sem ganhar quase nada em troca?

Cherchez l'argent, que cherchez la femme é de um machismo danado. Agora é o momento de buscar recursos para a campanha. O Gilmar Dantas, quer dizer, o Gilmar Mendes já fez o seu papel - travou a proibição de doações de empresas. Todo mundo está correndo atrás.

O empresário pode até não gostar do PT. Mas o que ele gosta menos é de perder. Ninguém aposta grana alta numa candidatura natimorta. Claro que sempre tem um ou outro mais ideológico, mas é exceção. A grande maioria não doa nada - investe. Se não tem chance, não tem dindim. E a oposição, cá entre nós, anda mais por baixo que ânus de ofídio.

Concluindo, que já gastei muitos bytes para um negócio tão desimportante. Essa pesquisinha marota não é para derrubar a Dilma. Não é para virar o jogo. Até porque o jogo para valer mal começou. É só para que os endinheirados menos espertos metam a mão no bolso.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

De esquerda pra caramba à beça

Eles são todos de esquerda. Muito de esquerda. Garantem que o governo da Dilma é neoliberal. Detestam o PT, que traiu a causa do proletariado. Mas de vez em quando soltam a franga. Aí é que a gente vê quem é quem.

Tem aquele que é sábio. Ele fez pós-graduação numa faculdade de reputação duvidosa. Um dia, escreve uma asneira daquelas colossais. Vem um cara e derruba tudo, baseado no mais simples senso comum. Nosso herói contesta, ancorado em sua sólida erudição: você é um ignorante! não sabe nada! eu tenho mestrado em ciências políticas!

Tem aquele que é feminista. Tão feminista, mas tão feminista, que se dá ao trabalho de ensinar feminismo às feministas. Essas mulheres, coitadas, não entendem nada.

Tem aquele que acordou agora. Quando é confrontado com uma opinião diferente, chama o outro de velho, coroa, múmia, dinossauro. Não vou repetir os adjetivos que costumam acompanhar esses termos carinhosos. Nem todos são apropriados para ambientes familiares.

Tem aquele que posta piadas preconceituosas contra os pobres. Sabe aquelas, com foto do Miguel Falabella fazendo o papel de Caco não-sei-o-quê? Por exemplo: "pobre não pode comer uma coisinha melhor que tira foto e põe no facebook". Sem graça, não é? Mas ele adora.

Tem aquele que se revela na hora de declarar o imposto de renda. Aí ele esbraveja contra "a maior carga tributária do mundo". Tem aquele que é contra as quotas. Pergunta se ele é branco e se estudou em escola particular. E tem aquele que só faz mesmo é pose, na hora "h" vota na tucanada.

Eles são todos de esquerda. Mas usam black-tie.

As UPPs, os radicais chiques e as eleições

Afinal, qual é o conceito básico das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs? Por favor, não me venha com foucaultices. Eu também já li Foucault. O buraco é mais embaixo.

O conceito básico da UPP é o seguinte: polícia no morro. Tem polícia em Ipanema? Tem. Tem polícia no Grajaú? Tem. Tem polícia no Meier? Também tem. Você já viu algum foucaultiano de ocasião encher a boca de teoria mal digerida para exigir que tirem a polícia desses bairros? Da rua em que ele mora? Não? Pois é.

Acredite, meu amigo, minha amiga que não mora aqui no Rio: tem bairros da cidade onde a polícia não entra. Ou pior: só entra, de vez em quando, um batalhão especial treinado para enfrentar guerrilha urbana... e aí é um deus-nos-acuda.

Então, a UPP é um troço simples assim: polícia na comunidade, a mesma polícia, o tempo todo. Polícia que dá bom dia ao seu Zé, que vai tomar cafezinho no boteco do seu Manuel. A polícia do Rio, como sabemos, é muito, mas muito ruim. É mais chegada a dar um cachação no seu Zé e achacar o seu Manuel. Então eles formam policiais novos para essas unidades. E tentam botar no comando oficiais de reputação ilibada.

Nem sempre dá certo. Para o Amarildo, deu errado à beça. Tem vários outros casos. O Amarildo é só um exemplo. É preciso vigiar a atuação da polícia. E punir, quando for o caso. Desculpe. Jogo de palavras infame. Eu me empolguei.

O que não dá é dizer que as comunidades pobres, só elas, devem ficar sem policiamento. Porque é isso, no fundo, que significa "ser contra" as UPPs. Coisa de radical chique.

As UPPs estão no canto do ringue, neste ano. Têm pintado problemas por todo lado. É protesto num canto, é tiroteio noutro, é denúncia aqui, é sede apedrejada acolá. Até o ano passado, a gente via mais aprovação e menos questionamento. Agora é crise só. Por coincidência - só por coincidência, é claro - vai ter eleição para governador.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Menos Rio - fechou a Livraria São José

Eu era muito jovem, ganhava pouco, já era casado e tinha filho. Vivia na ponta do lápis.

Às vezes não tinha grana para almoçar. Então eu ia ali no sebo São José, que era pertinho do trabalho. Ficava sapeando uns livros. Quando achava um legal, escondia na parte de trás da prateleira. Em um mês eu garimpava quatro, cinco, seis volumes. No dia do pagamento tirava meu tesouro escondido e pedia um bom desconto ao vendedor.

Assim eu consegui algumas preciosidades. O Príncipe, de Maquiavel, com comentários de Napoleão Bonaparte. Era uma edição de bolso, mas com capa dura e fitinha para marcar a página. Reflexos Condicionados, de Pavlov, que não se achava no Brasil. O livrinho de Saussure, aquele que ele não escreveu, foi o resultado das notas que os alunos tomavam nas aulas. Muitos exemplares da coleção Os Pensadores, que era um excelente resumo da filosofia ocidental. Quase todos que eu tenho foram comprados lá, de edições despareadas, com várias capas diferentes. O Decamerão, de Boccacio. Com "ão" mesmo, a edição era portuguesa. Todos os romances de Machado. Eça de Queiroz. Tanta coisa.

Hoje eu fiquei sabendo que a Livraria São José fechou. Era o melhor sebo da cidade. Um daqueles bem tradicionais: uma bagunça danada, livros precariamente separados por assunto, poeira a valer. Era uma beleza. Era uma viagem. Para mim, era o céu.

Música de hoje - Gilberto Gil

Não Chore Mais

Amigos presos, amigos sumindo. Hipócritas disfarçados. A gente sentada na grama do Aterro, junto à fogueirinha de papel. A barra de viver debaixo de uma ditadura sanguinária. Essa versão do Gil parece a minha biografia.

Há 50 anos - memórias muito pessoais

Meninos, eu vi. Pela televisão. Eu tinha oito anos e fazia o dever de casa. A TV transmitia ao vivo o movimento das tropas em torno do Palácio da Guanabara. O dever de casa saiu todo errado.

Eu torcia pelo Carlos Lacerda. Torcer pelo Lacerda era toda a política que meus pais tinham enfiado na minha cabecinha. Fiquei contente, quando o Lacerda ganhou. Para mim, era isso: a vitória do Lacerda.

Não tardou muito para papai ficar contra. Depois eu soube por quê. Ele trabalhava no Banco do Brasil e logo começaram os IPMs - inquéritos policiais militares. Foi uma limpa. Anos depois, eu mesmo entraria para o BB. Fiquei contente, ou melhor, aliviado, quando colegas antigos me disseram: "seu pai era um direitista danado, mas não entregou ninguém". Mais para o fim da minha carreira, eu acabei sendo o responsável pela correção das aposentadorias dos anistiados do banco. Até então, eles ganhavam uma mixaria. Maldade dos burocratas do tempo de FHC. Deu um trabalhão para chegar a valores justos. A família Bueno e as voltas da História.

O 30º Congresso da Une era para acontecer em 68. Mas foi todo muito em cana. Eu escrevi uma materiazinha para o jornal do colégio. Quase fui expulso. 13 anos. Quando tinha passeata, mamãe trancava a porta de casa para eu não sair.

Os anos 70 foram barra pesada. Não que eu tivesse grandes envolvimentos. Uma pequena participação num grupo clandestino da esquerda católica. Mas tive amigos e amigas presos, torturados. Teve um que enlouqueceu, depois de solto queimava a si mesmo com brasa de cigarro.

Meninos, eu vi. Sem nenhum protagonismo, talvez pela pouca idade. A gente acompanhava a guerrilha do Araguaia pela BBC de Londres, num rádio de ondas curtas na casa de uma amiga. Muito chiado e pouco conhecimento de inglês. Era o jeito de saber um pouco do que ocorria no país. Censura, tortura, repressão, medo - era o quotidiano.

Foi assim que eu cresci. Não quero isso para os meus filhos. Nem para as minhas netas. Não quero isso para ninguém. Nunca mais.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Eleições - é muito cedo

Meus amigos petistas estão numa alegria que só. A Dilma vai se reeleger no primeiro turno. Meus amigos cariocas estão numa deprê danada. O Garotinho está em primeiro lugar nas pesquisas.

É muito cedo, gente. Cedo para comemorar, cedo para lamentar. O eleitor ainda não está ligado e responde qualquer coisa nas pesquisas.

Rio. O Garotinho tem um tremendo recall. O Crivella também. O Pezão está lá embaixo, mas você acha que vai ficar assim? A máquina do governo é muito forte. O Sérgio Cabral pode estar num inferno astral danado, mas mesmo assim. Tudo indica que vai ser uma disputa equilibrada à beça, com vários candidatos competitivos, incluído aí o Lindberg. O problema do Lindinho é que o PT do Rio não é lá essas coisas.

Por outro lado, entendo a deprê eleitoral aqui no estado. Se peneirar bem, não sobra nada. Eu vou votar no Lindberg, é claro. Mas não posso dizer que seja o candidato dos meus sonhos. É só dar uma olhada no currículo do cara.

E para presidente? Em todas as eleições que o PT ganhou, desde a primeira do Lula, teve segundo turno. Será que agora não vai ter? Duvido. O problema da oposição é a falta de candidato. O Eduardo Campos está se lançando para 2018. Acho que não emplaca nem isso. E o Aecinho, convenhamos, é muito fraco e tem telhado de vidro. Mas é de Minas, colégio eleitoral grande à beça. Só perde para São Paulo, onde o PT não costuma se dar bem. Soma Minas e São Paulo. Dá mais de um terço.

E muita água vai rolar. Já teve sequestro encomendado. Já teve locaute de ônibus. Já teve o episódio nebuloso dos "aloprados". Já teve a milagrosa conversão do Serra ao cristianismo mais bizarro. Já teve "mensalão". Já teve de tudo, para tentar derrubar o PT. Este ano, ao que parece, vão apostar nos protestos sem causa e na desconstrução da Petrobras. Haja patriotismo.

Em suma, como gosta de citar meu amigo Gilmar Carneiro, é orar e vigiar. Terminou o primeiro tempo e está 2 a 0 para nós. Não tem nada ganho.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Música de hoje

Positivismo (Noel Rosa)

O mercado e a ideologia

Fui falar mal da Standard & Poor's, para quê?

Se você não lembra: a Standard & Poor's é uma agência de risco, que avalia a qualidade do crédito de empresas e de países. Pois é. Recentemente, ela rebaixou a nota do Brasil. E eu tive a audácia de lembrar que o banco Lehman Brothers tinha a avaliação máxima quando quebrou em 2008, arrastando o capitalismo internacional para uma fossa daquelas. 

Mas... sabe?... o pessoal acredita mesmo que o cassino financeiro internacional é um negócio técnico, um mercado livre, um conjunto imenso de investidores individuais agindo cada um por si... essa lenga-lenga. "Mão invisível", eu acho, ficou fora de moda.

Teve um cara que garantiu que os mega-investidores se baseiam nos rankings dessas agências. Quase caí da cadeira com essa revelação. Mega-investidores usam esses relatórios como papel higiênico. Eles sabem, entre outras coisas, que as notas das agências são compradas e vendidas sem o menor pudor. Então fazem suas próprias avaliações, que não são bobos nem nada. E têm meios de transformar essas avaliações em fatos futuros, se é que você me entende.

Mercado, mercado... aimeudeus. O "mercado" é naturalizado e humanizado: fica de mal humor, se assusta, tem momentos de otimismo e de pessimismo, só não tem - até agora - TPM. Ontem saiu uma pesquisa dizendo que a aprovação da Dilma caiu um pouquinho. Ao mesmo tempo, a Bolsa de SP subiu. Os entendidos tentaram me convencer que o "mercado" estava contente, apostando numa mudança de governo nas próximas eleições.

(pausa para gargalhar.... afff.... faltou fôlego... aaiii... a barriga está doendo de tando rir....)

O pior é que quando alguém se dá ao trabalho de levantar o véu ideológico, essa massa de informação acrítica que se impõe como verdade para os trouxas.... esse cara é que é acusado de fazer ideologia. Porque no dicionário da novilíngua é assim: ideologia é sempre de esquerda. A direita é objetiva, ponderada e sábia. 

#VaiterCopa - #Vaiterblog

O blog estava parado há um tempão. Pensei em parar de vez.

Mas aí eu lembrei que vai ter Copa. E eu gosto à beça de comentar futebol aqui. Aí arrumei um pretexto qualquer - o penteado do Kim qualquer coisa - para o pessoal não esquecer totalmente das minhas reflexões irrelevantes.

O caso é que blog é que nem casa de praia. No início é uma beleza. A gente não quer saber de outra coisa. Depois de uns anos, meio que vira obrigação: "que saco, vou ter que ir para a praia outra vez!"

Com o tempo, o blogzinho foi ficando cada vez mais sobre política. Claro que é um assunto que me mobiliza. Mas vamos combinar: às vezes, é chato à beça.

Para falar a verdade, acho que eu é que ando chato. Assuntos não faltaram. O marco civil da internet, tremenda conquista. Os balacobacos na Venezuela e na Ucrânia. Os cinquenta anos da redentora. Os vexames do Barbosão. As peripécias do alcaide da Muy Heroica Cidade de São Sebastião. A luta política em torno das UPP. Os sádicos daquele zoológico na Dinamarca (foi na Dinamarca?). Os chavecos no metrô paulistano. A falta d'água. Meus fins de semana na Ilha da Gigoia, um pequeno paraíso escondido na metrópole. A Ana Lua, crescendo quietinha na barriga da mamãe. Tanta coisa.

Até o cabelo do Kim... Kim o quê, mesmo? Deixa para lá.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Coreia: ditadura capilar

Deu no Times, na BBC, na CBN, em tudo quanto é canto da imprensa livre - e o pessoal saiu espalhando: na Coreia do Norte, o ditadorzinho Kim Jong Un mandou todo mundo cortar o cabelo igual ao dele. Vamos combinar: não é lá um corte dos mais copiáveis.

Antes já tinha uma lei capilar estranha naquela ditadura horrível: eram só dez modelos permitidos para os homens. As mulheres têm vida mais fácil: podem escolher entre 18 alternativas de penteado.

Eu achei um pouco muito. Fui dar uma pesquisada básica.

A origem da notícia é uma tal rádio Asia Free, suspeitíssima. O sítio está em coreano, mas o Google Tradutor quebra um galho. Tem toda a pinta de ser uma agência de propaganda politica, no meio da guerra fria permanente entre as Coreias.

Mais Google. Para quem quiser imitar os comunas, tem a foto com os dez modelos que eram permitidos até agora. Nenhum deles é o corte do Kim Jong Un. Esquisito, não é?

Mais. A própria BBC. A rádio da Coreia do Norte fez campanha contra os cabelos compridos. Ué? Mas já não era terminantemente proibido??? 

Só mais um pouquinho. Fui ver umas fotos de lá. Não achei nenhum sansão, é verdade. Mas vi uma variedade de cortes de cabelo muito maior que os dez penteados "permitidos". Inclusive em fotos de cerimônias oficiais, com o ditadorzinho e seus asseclas.

Então eu compartilhei no Facebook minha pesquisa sumária. E fiquei esperando. Não demorou muito para eu ser acusado de defender ditaduras de esquerda.

Não é bem isso. Eu deploro o regime de monarquia comunista hereditária que tem na Coreia do Norte. Aliás, já sacaneei muito o Kimzinho por aqui. Convenhamos que ele é uma criatura bem fácil de sacanear.

Eu gosto muito de liberdade. Só não acho bacana quando aproveitam a liberdade e tentam me fazer de bobo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sexta de poesia - Manuel Bandeira

Bacanal

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Gol de honra

A maioria do Supremo já votou e absolveu os acusados de "formação de quadrilha". Camaradinhas comemorando na internet. Eu não. Continuo sentindo o gosto amargo de quem perdeu o jogo marcando contra a própria rede - quem foi mesmo que indicou o Barbosão? E agora esse golzinho de honra não me entusiasma.

Tem um sentido simbólico. A "quadrilha", no imaginário da grande mídia, era o próprio PT. Mas não se iluda. Não vão deixar de comparar o partido a uma associação criminosa. E o Dirceu vai continuar sendo o "chefe". Esses caras têm uma gana toda especial com o Zé. Por que será?

Bom mesmo é que as penas não foram agravadas. O Delúbio vai continuar a trabalhar na CUT. E o direito do Dirceu não vai poder ser negado por muito mais tempo. Imagino que seja um alívio danado sair da Papuda todo dia, encontrar os amigos e companheiros, fazer uma coisa útil.

Acho que não muda muito, do ponto de vista político. Apesar de todo o esforço midiático, o julgamento-show foi relativamente irrelevante. O governo da Dilma continua por cima da carne seca. O PT ainda é o partido com maior apoio popular. Caiu até a fortaleza de Tucanópolis - e o Haddad, atacado de todas as formas possíveis e imaginárias, até que vai indo. Aposto que ele vai sair da prefeitura com um saldo muito positivo.

Enfim, as cortinas se fecham no teatrão, os mervais vão estrebuchar um pouco, o julgamento dos tucanos vai ficar para as calendas, vai ter carnaval e vai ter Copa. Vida que segue. Supremo, só de frango.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Política e platonismo

Se livrar do platonismo é um negócio difícil. No fundo, no fundo, a gente quer se deleitar com as ideias perfeitas, transcendentes, imutáveis. É muito confortador.

Pior é quando a gente não pensa muito, ou melhor, quando não pensa nada no que vai dizer. (ou quando a pessoa é muito ignorante, mas prefiro supor que é sempre apenas um deslize dos meus interlocutores - ou meu, mesmo, a sinceridade me obriga a acrescentar) Aí acontece o seguinte: o cara transplanta o mundo das ideias para este mundinho daqui mesmo, cheio de imperfeições e mudanças.

Releio o que eu escrevi. Está um negócio um tanto esotérico. Vou dar um exemplo, para facilitar a minha vida e a vida do leitor esporádico ou da leitora ocasional.

Democracia. Democracia é um conceito danado. E também veio dos gregos, que nem o famigerado idealismo.

Pegue a ideia de democracia. Aplique-a a um caso concreto qualquer. Com má vontade, nenhum país é democrático. Os Estados Unidos têm leis anti-terror de exceção, aprisionam um percentual mais que razoável de sua população negra e pobre, mantém aquele horror que é Guantánamo, etc, etc, etc. A França discrimina culturas minoritárias na própria legislação. O sistema eleitoral inglês barra a representação de minorias. A Alemanha massacrou a extrema esquerda torturando e assassinando no cárcere. E vamos que vamos.

É o mundo real, gente. Democracia não é uma coisa pronta, não é nem mesmo um "valor universal". É um processo cheio de contradições. E tem um negocinho chamado "luta de classes". Quando a coisa está feia para o seu lado, a burguesia apela mesmo.

Quem tem a pachorra de acompanhar esse blog irrelevante já matou a charada. Estou pensando na Venezuela. Você limpa a área das acusações estapafúrdias da extrema direita e ainda tem muita coisa falha no sistema democrático de lá. Nem por isso o governo bolivariano é uma ditadura sanguinária que sufoca as liberdades dos sofridos cidadãos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

#Naovaitergolpe

Golpe de estado não é brinquedo de criança. Não se faz com meia dúzia de mascarados e um batman. A receita é outra: apoio de expressivos setores sociais, articulação com a potência imperial e tanques na rua. Nada disso está acontecendo. Os mascarados expulsaram as pessoas normais das manifestações; nossos irmãos do norte têm mais com que se preocupar; e o Exército não está a fim de entrar numa roubada dessas.

Leio um camarada dizer que a direita não tem candidato viável, por isso quer o golpe. E tinha, em 2006? Em 2010? Nas duas vezes, precisou de um esforço enorme de manipulação e terrorismo midiático para levar a um segundo turno de resultados mais que previsíveis.

Não precisa de candidato. Se precisar, eles inventam um. Em 1989, a direita não tinha candidato. Inventaram o Collor. A conjuntura permitia. Agora, só com uma virada muito grande - na economia, na vida cotidiana, na percepção das pessoas.

Parênteses. A esquerda também inventa candidato. Consegue ganhar, se for competente na campanha e se as condições forem favoráveis. Dilma. Haddad.

Os manifestantes sem causa atendem a interesses mais sutis. Manter a tensão permanente. Gerar uma percepção de desgoverno. Desestabilizar para vencer nas regras do jogo. A campanha presidencial está só começando. Lembra da baixaria serrista? Vai parecer coisa de congregado mariano, perto do que vem por aí.

Mas golpe, golpe mesmo, Egito, Ucrânia, Honduras, Paraguai... isso não vai ter aqui, não.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sexta de poesia - Julio Cortazar



 Yo tuve un hermano.

No nos vimos nunca
pero no importaba.

Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.

Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.

No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

URSS, Venezuela, catecismo, photoshop

No Facebook, um amigo comparou a Venezuela com a União Soviética. Acho que ele quis dizer que o regime bolivariano é tão autoritário quanto o stalinismo. Me deu vontade de falar um pouquinho de cada um.

O comunismo marcou o século XX. É uma história cheia de contradições. Stalin instaurou, sim, um regime totalitário. A coletivização forçada do campo foi um desastre e um massacre. Os revolucionários da primeira geração foram quase todos assassinados pelo terror de Estado. Não havia liberdade nenhuma, nem dentro do partido.

Outro lado. A União Soviética foi o contraponto do império norte-americano. O Plano Marshall, que recuperou a Europa ocidental, foi idealizado com a intenção expressa de impedir que os países empobrecidos fossem para o comunismo. O regime de bem-estar social não foi uma generosa dádiva do capital, mas uma tentativa quase desesperada de barrar a revolução. A derrocada do socialismo real permitiu a ascensão do neoliberalismo. Não foi só isso, é claro. Mas a correlação de forças mudou, com o fim da União Soviética. A burguesia comeu pelas beiradas muitas das conquistas sociais do pós-guerra.

A História não é aula de catecismo.

Na Venezuela, tem eleição a toda hora. Ah, mas não são eleições livres! Caramba, são os pleitos mais fiscalizados do mundo, com carradas de organismos internacionais catando pelo em ovo - e no final todos concordam que os resultados foram legítimos. Ah, mas a imprensa não é livre! Chega a ser um acinte dizer um negócio desses, com a internet à disposição. É só ter paciência para dar uma olhada nos sites dos jornais de lá, ou então acompanhar a programação da TV, ao vivo.

Canso de dizer aqui que não sou fã do chavismo. Tem muita coisa errada no regime bolivariano. Mesmo assim, o governo de Chávez reduziu a pobreza, praticamente eliminou o analfabetismo, transformou a Venezuela no país menos desigual da América do Sul. Eu sei, são coisinhas que não emocionam a classe média bem pensante.

Já a oposição... o que dizer da oposição de lá? Para manipular fotografias, eles têm uma gana danada. Mas isso Stalin já fazia. Muito melhor, por sinal. E sem photoshop.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Pátria grande

Foto de Leo Ramirez
O Emir Sader diz que a esquerda viável, hoje, é aquela que se opõe ao neoliberalismo.  Mais ou menos isso. Cito de memória. Se é assim, tem uma vanguarda mundial aqui na nossa América Latina. Com diferenças importantes, em países distintos. Mas o que a gente vê acontecer aqui, no Uruguai, na Argentina, no Chile (agora, de novo com Bachelet), no Equador, na Bolívia e na Venezuela tem isso em comum - governos que não aceitam a receita neoliberal e buscam alternativas desenvolvimentistas com distribuição de renda.

Vai chegar o esquerdinha e dizer que os governos do Lula e da Dilma são neoliberais. Ai meu saco. Já argumentei bastante por aqui. Agora, só vou lembrar que um certo alinhamento entre os governos que citei existe e não é à toa.

Acompanho a Venezuela de longe, mas com preocupação. BBC: a oposição rachou e quem está dando as cartas é o setor mais radical, que os ingleses chamam, com a fleugma que lhes é característica, de "ultraconservador". Esse setor não "quer esperar pelas eleições" para derrotar o governo. Que elegantes, os ingleses.

Minha preocupação vai além, quando vejo uma campanha de calúnia se difundindo internacionalmente na internet. São fotos de repressão na Grécia ou no Egito, como se fossem lá. É twitter falso da Michelle Bachelet. É foto do exército cubano marchando na ilha, para dizer que há uma intervenção militar estrangeira. É acusação de censura e controle da internet, quando em dois minutos de pesquisa dá para acessar jornais venezuelanos, em domínios .ve,  metendo o pau no governo à vontade. A gente pega uma mentira, vêm mais dez. É a justificativa prévia do golpe.

Já falei aqui, mais de uma vez, que não sou fã do modelo bolivariano. Sou mais a transição cautelosa, sem maiores rupturas, que acontece no Brasil. Questão de pragmatismo. A esquerda no poder não acirra as contradições e a violência da oposição é mais verbal que outra coisa. O governo venezuelano radicaliza mais e enfrenta ameaças de golpe dia sim, dia também. Mas talvez não fosse possível fazer muito diferente, numa sociedade que já era tão dividida.

Não sou alarmista. Mas na Venezuela toca uma alarme ruidoso à beça. Já houve ensaios em Honduras e no Paraguai. Agora é coisa grande. E pode ser o primeiro dominó. Porque a esquerda viável é também a esquerda que incomoda o Império.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sexta de poesia - Nicolas Behr

Receita

Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar:

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões