Blog Bueno

terça-feira, 18 de junho de 2013

Música de hoje - Titãs

Comida (Antunes - Fromer - Brito)

Os protestos - uma das vozes (2)

Ainda o Movimento Passe Livre

Escrevi sobre o MPL sem ver a entrevista da Nina Cappello e do Lucas Monteiro de Oliveira - representantes do grupo - no programa Roda Viva. Uma temeridade. Melhor: burrice minha, mesmo. Eu tinha esquecido.

Assisti ao programa agorinha. Não passo o link porque são vários blocos e é muito fácil de achar no Youtube.

Os dois estavam um pouco nervosos, o que é normal. Eu também estaria. Mas são muito articulados. Definiram o movimento como "de esquerda", porque tem foco na igualdade social. Recusaram o rótulo de "socialistas". Escaparam bem das perguntas sobre estatização. Garantiram que aceitam bem os partidos, mas não à frente das manifestações. Se recusaram a personalizar o movimento, fiéis ao caráter de rede - palavra que o Lucas não quis usar, por motivos óbvios.

Os jornalistas tentaram, o tempo todo, ampliar a pauta das manifestações. Eles ficaram firmes nos vinte centavos. Corretíssimos. Também estão disputando hegemonia.

Os protestos - uma das vozes

Movimento Passe Livre

O MPL surgiu no Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre. Eu estava lá, mas não vi. Era muita coisa ao mesmo tempo.

O grupo é pequeno. Em São Paulo, por exemplo, tem menos de 50 membros ativos. Ele é construído em cima de quatro pilares: autonomia em relação a partidos ou outras entidades; independência, com cada coletivo atuando sem nenhum centralismo; apartidarismo, que eles distinguem bem de ser contra partidos políticos; e horizontalidade, sem direção nem hierarquias.

São princípios generosos, sem dúvida. Mas também limitam a atuação. Tanto que aos poucos estão sendo subvertidos por eles mesmos. Começam a aparecer porta-vozes, que dão entrevistas ou escrevem artigos na imprensa e na internet.

A impressão que dá é que eles mesmos não esperavam essa explosão nas ruas. E se protegem de duas formas principais: procurando restringir a pauta à questão da mobilidade urbana; e se eximindo de responsabilidade sobre as manifestações que convocam.

Exemplo. Em Brasília, um dos organizadores do protesto dizia mais ou menos assim, com voz desesperada: "quinze caras gritam 'vamos subir a rampa' e todo mundo vai atrás! a gente não pode fazer nada!" Eu já participei de muitas manifestações. Em várias, estava na liderança. Às vezes a gente perde o controle, sim. Mas não dá para tirar da reta. Você quer um protesto pacífico? Se expõe. Vai lá e resolve. Ou pelo menos tenta. Chororô para a TV não vale.

Quanto à pauta, já foi ampliada. Até demais. Reivindicações de todo tipo, às vezes contraditórias. O diabo saiu da garrafa. Vai botar ele lá dentro de novo!...

Os protestos - muitas vozes

Disputa de hegemonia

O MPL diz que não aceita a "direitização" dos protestos. Mas o grupo não tem condições de dirigir as multidões nas ruas. Isso não é uma crítica, é uma constatação. O MPL é um grupo pequeno, com pauta progressista, mas pontual. Estou lendo o que encontro a respeito deles. Ainda vou falar mais dos caras. Aviso desde logo: não acho que eles sejam "massa cheirosa", nem "mauricinhos da USP".

O movimento que acendeu o estopim não é dono da bomba. Então começou a disputa pela hegemonia.

Primeiro chegou a oposição de esquerda, especialmente PSOL e PSTU. É natural. Eles não são vidraça, a não ser, talvez, em Macapá. E têm a experiência das ruas. Mas não seguraram a onda. É muita areia para os caminhõezinhos deles.

Veio a direita midiática. A tentativa foi transformar os protestos numa espécie de "Cansei" que deu certo. A resposta foi imediata. Não vi, mas soube que hoje a Globo teve que transmitir as palavras de ordem contra ela mesma. O fantasma da hegemonia conservadora ainda não foi de todo exorcizado, mas já não assombra tanto assim. (em tempos de revolta, um dia vale por meses...)

A Juventude do PT entrou no bolo meio tarde, mas com tesão, pelo menos em São Paulo. Mas eles vivem uma contradição. O partido está no poder do país e do município. Simpatizo com o Haddad, mas ele custou a perceber a profundidade da crise, além de estar amarrado ao governo estadual tucano pela tarifa única para ônibus, trem e metrô.

A Rede da Marina está calada. Logo o pessoal que diz querer uma política diferente! É uma das coisas que ainda não entendi. Assim como a passividade da UNE. Não me venham com essa de que a UNE é governista e tal. O PCdoB - que a dirige - está mais esperto que a entidade estudantil.

A disputa de hegemonia, num movimento de massas, depende da construção de palavras de ordem simples, que sintetizem as aspirações e galvanizem os sentimentos. "Se a tarifa não baixar..."  é uma boa. Mas é pouco abrangente. O movimento ultrapassou em muito a reivindicação pontual. O PT tem a bandeira da reforma política. Pode resolver, ainda que parcialmente, a crise da representatividade política. Mas não é simples, não emociona muito, talvez nem aglutine.

O jogo está aberto. Faça a sua aposta. E jogue por ela.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Os protestos - a voz do MPL

Com causa

Copio texto do estudante Paulo Motoryn, militante do Movimento Passe Livre. O MPL não tem porta-vozes nem lideranças explícitas, por isso não tenho certeza se o Motoryn representa mesmo a opinião do grupo. Espero que sim.

Desde o ato da última quinta-feira contra o aumento da passagem do transporte público em São Paulo, em que a violência e a repressão policial viraram notícia em todo o planeta, mais uma ameaça ronda o sucesso das manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre: a instrumentalização do povo.

 A evidente mudança de postura da imprensa em relação aos protestos deve ser motivo de desconfiança, não de festa. Isso porque nos últimos dias, imperou o comentário: “Agora até a grande mídia defende as manifestações”. Como se isso fosse algo positivo.

Por um lado, a máxima “não é só pelos 20 centavos” conseguiu convencer diversos setores da população a ir às ruas, por outro, abriu uma questão polêmica: se o aumento da passagem foi só o estopim, o que mais nos incomoda? Quais são os reais motivos do fim da letargia política em São Paulo?

É fato, o reajuste do preço transporte só provocou a revolta necessária para que o paulistano percebesse o óbvio: política se faz nas ruas. No entanto, a recusa ao modelo de sociedade atual tem de ser deixada clara. Isso porque os perigos da apropriação do movimento são reais.

Na sua última edição, Veja contrariou sua linha editorial e se posicionou a favor das manifestações. Quando um veículo que representa o que há de mais reacionário na sociedade apoia movimentos sociais, há no mínimo um ponto de extrema relevância para refletir.

Mas as páginas de Veja só revelam a nova postura dos veículos da imprensa dominante: já que não podem mais controlar ou evitar a multidão, manipulam seus objetivos. De acordo com a revista, o descontentamento dos manifestantes se deve também à corrupção, à criminalidade… Falácia.

É evidente que essas questões também são importantes, mas os jovens que estão nas ruas estão preocupados com questões muito mais profundas. A juventude está mostrando que não quer compartilhar dos valores individualistas, consumistas e utilitaristas da geração de seus pais.

O grito dos jovens está longe de bradar contra os “mensaleiros”, contra a inflação, contra as políticas sociais de transferência de renda. O movimento é progressista por natureza e agora tem de saber lidar com uma ameaça feroz: a direitizacão.

O aparelho midiático que serve a esses interesses já foi acionado. A grande imprensa já está mobilizada para maquiar o movimento de acordo com um ideário conservador, por isso o povo precisa fazer seu recado ser entendido. Sob hipótese nenhuma podemos nos alinhar aos Datenas, Jabores e Pondés.

O que queremos é derrubar as barreiras entre ricos e pobres, quebrar os muros entre centro e periferia, consolidar o povo como um ator político de importância ímpar e lutar por um Brasil com justiça social, sem desigualdade e com oportunidades iguais para todos e todas. Nada mais. E nada menos.

 Vamos à luta!

Os protestos - minha participação inglória

Forfait

Eu tinha uns negócios para resolver na cidade hoje. Aqui no Rio a gente fala assim: "na cidade" quer dizer no Centro, que aliás não é central, fica numa ponta. Coisas do balneário.

Pois eu resolvi aproveitar para ir no protesto, marcado para a Candelária, às 5 da tarde. Vesti um colete que eu tenho, feito esses de fotógrafo. Num bolso, bem dobradinhos, os papéis que eu precisava - assim não ia ter que carregar pasta. Rádio de pilha em outro bolso, para ficar informado, que eu não uso celular. Máquina fotográfica pequenininha. Sapato confortável, que é o de sempre.

Esperava gastar mais de uma hora resolvendo meus negócios. Mas foi rapidinho. Fiquei zanzando pelas ruas. Lembrei que, na empolgação, nem tinha almoçado. Parei num restaurante alemão que eu gosto muito. Bolo de carne, bem tradicional. Uns chopes. Uns e outros. Apfelstrudel com creme. Café.

Saí pesadão. Ainda não eram quatro horas. Voltei para casa. Suprema vergonha: de táxi.

Os protestos - desdobramentos

Horizontalidade e Verticalidade

O movimento não tem dono. É horizontal. A verdade não precisa de porta-voz. As massas dispensam a vanguarda auto-proclamada.

Tem um quê de utopia nisso. Um negócio generoso. Protesto pós-moderno. Rede de resistências. Occupy Paulista Avenue. Sem ironia. O velho aqui ainda tem um coração.

O problema é que a política detesta o vácuo. Não tem liderança? Lideremos! Os conhecidos próceres da direita hidrófoba estavam divididos e um tanto perplexos. Mas não demoraram a encontrar o discurso. Apoio às manifestações - e ampliação da pauta. A ampliação da pauta é naquele velho sentido udenista de sempre.

Eles estão certos. Não vai ser a nossa indigente extrema-esquerda que vai levantar a taça. São muito poucos, muito inexpressivos, muito tatibitati. A esquerda moderada, esta é vidraça. Tem petistas nas manifestações, eu sei. Mas eles não conseguem disfarçar a timidez.

Outro dia, no Facebook, uma amiga empolgada com a revolta da juventude disse que eu não tinha o direito de ser ingênuo. Puxa vida, um direito tão básico! Estou excluído? Parece que sim. Quase uma vida inteira de desventuras inglórias me condena ao ceticismo perpétuo. Ceticismo enquanto método, meia palavra, espero que bem entendida.

Do alto, ou melhor, do baixo da minha desilusão, aguardo os desdobramentos.

Viver no Rio - carnaval e repressão

Chave de Ouro

Era um bloco que saía no Engenho de Dentro, simpático subúrbio carioca. Como o nome diz, era para encerrar o carnaval. Por isso, seu desfile era sempre na manhã da quarta-feira de cinzas.

Eram tempos de repressão. A polícia proibia. Que baderna é essa, de fazer carnaval fora de hora?

Os manifestantes, quer dizer, os foliões não desistiam. Não tinha twitter nem facebook, mas eles mudavam os pontos de encontro, dispersavam debaixo de porrada e se reuniam de novo, pulavam um pouco, corriam muito, era uma coisa.

Acabou a ditadura. A polícia autorizou o bloco. No primeiro ano, foram, sei lá, uns 20 mil. No segundo ano, diminuiu um pouco. Foi minguando.

Passou o tempo. O Chave de Ouro acabou. Uma pena.

domingo, 16 de junho de 2013

Os protestos contra as passagens - repercussões (3)

Greve geral

A moça com perfil do Anonymous compartilhou um cartaz chamando greve geral para o dia 1º de julho. Primeiro eu pensei: "é ruim, fazer greve geral a partir das redes sociais!" Uma coisa é reunir uma pequena multidão disposta a protestar. Outra é organizar uma greve. Eu sei. Já fiz muitas.

Depois eu resolvi ver de onde vinha o cartaz. E fui lá no perfil do cara "compartilhado". Entre outras pérolas, encontrei essas:

Agora que o povo descobriu como faz, muita coisa vai ter que mudar! Mas uma coisa muito importante ta sendo acobertada, que eh a pseudo-ditadura do PT, onde o partido dá bolsa isso, bolsa aquilo pra pobraiada e a mantém "refém", sem contar que, o que o PT menos preza eh a educação, pois quanto mais ignorante for o povo, mais manipulável será.

Tirar terra PRODUTIVA de fazendeiros, grandes ou pequenos, pra dar pra esses INDIOS INUTEIS, é nada mais nada menos do que um CRIME!!! Bando de vagabundos, ganham tudo do governo, de ongs, vendem madeira de "suas reservas" para madeireiros...e vem reclamar que são DONOS de terras aqui e ali, ah, faça-me o favor né!? 
#morramindiosdesgraçados

Basta, ou precisa mais?

Os protestos contra as passagens - repercussões (2)

Que se vayan todos???

Amigo meu, intelectual de esquerda, manda bala na internet: "que se vayan todos!" Todos, imagino, inclui Haddad, Alckmin e Dilma. Ou Paes, Cabral e Dilma. Ou Fortunati, Tarso e Dilma. Mas sempre a Dilma.

A palavra-de-ordem é espanhola. Não adiantou muito. Eles não se foram. Foram-se, isto sim, as manifestações, que se esgotaram por falta de projeto positivo. "Fora todos" não diz nada sobre o que, sobre quem vai ficar no lugar.

Dá para entender os jovens espanhóis. Eles veem um entrar e sair de governos, de um lado ou do outro, sem nenhuma solução, sem nenhuma tentativa de solucionar o desastre social do desemprego e da recessão. Mas aqui no Brasil?

É preciso muita insensibilidade social para jogar os governos de maioria petista no mesmo saco dos outros. Com as limitações políticas conhecidas, esses governos vêm trabalhando para dar condições de vida digna para milhões de pessoas. O sucesso é atestado em números. Você pode achar que é pouco. Que podia ser mais e melhor. Mas é uma inversão de valores "como nunca antes na História deste país".

Muita insensibilidade.... desse mal, a revista Veja não sofre. Já hipotecou seu apoio aos protestos.

sábado, 15 de junho de 2013

Blog da Copinha - Brasil 3 x 0 Japão

Em construção

Foto de Jefferson Bernardes
O Japão não conta, certo? É tudo japonês. Com a notável exceção do Kagawa. É, o nome é esse mesmo. Então vou falar só da seleção brasileira.

É um time de garotos, que ainda têm muito feijão para comer. É da vida. A geração que hoje estaria "no ponto", dos 25 aos 30, não dá muitas opções.

A defesa é exceção:  tem experiência. E são bons jogadores. Então não dá para entender a dificuldade com a saída de bola, contra o pobre japãozinho. Quem voltava para buscar, em geral, era o Hulk. Até gosto dele, mas não é o jogador mais indicado para isso. Devia ser o Oscar, não? Mas ele ficava lá na frente. Às vezes o David Luiz ou o Thiago Silva saíam com a bola. Mas a transição era quase sempre pela esquerda, com o Marcelo. Ficou cheio de japonês ali. Se é para proibir o Daniel Alves de apoiar, então não convoca o cara.

Os volantes são aquilo mesmo. Tira um, bota outro, para mim não muda muita coisa. Eles precisam participar mais na saída de bola. Todos sabem fazer. É questão de entrosamento.

No início, eu até fiquei um tanto empolgado com o ataque. O Hulk estava na esquerda, o Neymar no meio, o Oscar pela direita. Eu pensei: eles vão se movimentar o tempo todo, vai ser o diabo. Que nada. Foi para japonês ver. Logo, logo, ficou cada um no seu cantinho. O Oscar ainda caía pelos lados, tentando alguma coisa.

O Tostão não gosta de centroavante fixo. Eu sempre concordo com o Tostão, que eu não sou besta. O sujeito lá, paradão entre os beques. Facilita a defesa. Depois ele faz um gol, e vêm os espertos: "eu não disse?" Mas o gol custou, porque o time joga com dez. O Fred é o que temos, tudo bem. Mas ele precisa se mexer mais.

Enfim, é um time em construção, com um técnico conservador. Não promete empolgar muito, mas quem sabe?

Ah, o gol do Neymar foi uma pintura!

Os protestos contra as passagens - repercussões

Contra e a favor

Alguma coisa as manifestações contra o preço das passagens já conseguiram: racharam a minha timeline no Facebook. O pau está quebrando. O "racha" não é um corte transversal que divida ideologias ou preferências partidárias. Vai em ziguezague, separando antigos correligionários e forjando alianças improváveis.

Tem a moça que acha a bolsa-família um incentivo à vagabundagem, é contra as cotas nas universidades e diz que o MST é tudo bandido. Ela colocou aquela máscara do Anonymous como foto do perfil. E tem o calejado militante do PSTU, certo de que a Revolução finalmente bateu na porta. Ele só não consegue explicar por que a vanguarda do proletariado vai a reboque.

Tem o que foi universitário no tempo da ditadura. Ele garante que naquele tempo não se depredava nada - as passeatas até pareciam procissões de congregados marianos. E tem outro velho passeateiro, que publicou fotos dele na Cinelândia, todo sorrisos, no meio de uns meninos que podiam ser seus netos.

Tem a militante LGBT que nunca postou nadica de nada sobre qualquer outro assunto, e agora virou especialista em mobilidade urbana. E tem o conservador-sexista-direitista assumido, mas razoavelmente articulado. Este confessou que vai ficar calado, para não falar besteira. Podia fazer assim mais vezes.

Tem o petista que acha que é tudo manipulado pela oposição. Tem o petista que foi às manifestações. Tem o petista que compartilhou o chamado do Haddad para negociar. Tem o petista que exigiu a volta da Erundina e do projeto de passe livre para todos. Tem o petista que brigou com outro petista. E tem o petista que se fez de morto. O nome desse último é Legião.

E eu fico assim, perdido no tiroteio, míope que sou, mas não cego de todo. Eu acho.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Música de hoje - Dóris Monteiro

Garoto Paissandu (Mariozinho Rocha)

Brasil - O Supremo e a criação de novos partidos

Equilíbrio

Meu filho Daniel não gosta que se fale em ativismo judicial, judicialização da política, essas coisas. Ele diz que tudo isso tem origem na direita. E que as pessoas só reclamam quando a Justiça resolve contra seus interesses ou convicções.

O Daniel deve estar certo. Ele entende mais do assunto do que eu. Falemos, então, do equilíbrio entre os Poderes.

Supremo, para mim, só de frango. Mas parece que os meretríssimos acertaram ontem. Vão suspender a liminar que bloqueou o tramitamento do projeto de lei no Senado. A lei, se aprovada, vai dificultar a criação de novos partidos. Estou simplificando muito, tem várias explicações melhores na rede, você pode dar uma pesquisada se quiser.

Sem entrar no mérito. A lei pode não ser boa. Pode ser casuística. Pode até ser inconstitucional. Mas fica esquisito o Supremo definir isso a priori, quando é só um projeto que inclusive pode ser modificado no trâmite legislativo.

Depois da aprovação da lei, a Marina Silva - que se sente prejudicada - pode entrar com ação direta de inconstitucionalidade. Aí o STF decide. Sem se meter na cozinha do Senado.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Vida difícil - leituras

Férias

Não viajei, como pensou meu amigo Sérgio Vianna. Mas tirei mesmo umas férias no blog, que anda cada vez mais slow.  Aproveitei para ler à beça. Quase tudo no Kindle.

Menos que Nada (Slavoj Žižek)
Ainda estou no início. Não é moleza. Ele se baseia muito nos idealistas alemães, uma das minhas lacunas em filosofia. Uma erudição danada, mas sabe o que parece? Que ele usa as citações como enfeite. Olha só como eu acumulei conhecimento, eu sou demais.

Uma História Social do Conhecimento (Peter Burke)
Erudição ainda mais impressionante, mas driblando sempre para frente, na direção do gol. Leitura até fácil, considerando a pluralidade das fontes. Você pode discordar das teses, mas vai aprender muito.

Diário de Berlim Ocupada (Ruth Andreas-Friedrich)
Os primeiros anos, depois da derrota na guerra, narrados por uma alemã que fazia parte do movimento de resistência ao nazismo. A seco. Sem auto-piedade ou sensacionalismo. A gente lê num fôlego só. Impressionante.

Corpo de Delito (Patricia Cornwell)
Gosto de policiais, mais evito os best-sellers. Resolvi tentar. História boa, trama bem amarradinha, mas muito mal contada. Livro cheio de lugares comuns. Lixo perfumado.

O Ócio Criativo (Domenico de Masi)
Releitura. Leve e instigante. Ele chuta muito, mas tem umas sacadas interessantes.

As Religiões do Rio (João do Rio)
Delicioso, como todas as crônicas dele. Cheio de preconceitos, é verdade. Delicioso assim mesmo.

Melhores Crônicas (Zuenir Ventura)
Bom para ler no banheiro.

O Século do Vento (Eduardo Galeano)
Aquela fórmula do escritor uruguaio: textinhos curtos, romanceando um pouco a História. Divertido, como sempre. E dá para aprender alguma coisa, se você depois for checar as fontes.

E fico por aqui, que o post já está muito comprido.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sobreviver em Sumpaulo - ônibus, trem, metrô

Manifestações

Leio uns e outros para formar opinião. Os protestos estão acontecendo em várias cidades - inclusive aqui no Rio -, mas é em São Paulo que o bicho pega. É que lá o prefeito é do PT. Daí, as opiniões ficam exaltadas.

Sou velho de guerra e agora evito me exaltar à toa. Como dizia meu pai, não vale a pena comprar adrenalina barata. O que eu acho é marromeno isso:

1. Os protestos são válidos. Não interessa se o aumento foi pequeno. O preço é caro. A R$3,20, dá no mínimo umas 140 pratas por mês, só para ir e voltar do emprego ou da faculdade.

2. Não dá para exigir dos manifestantes um comportamento de monge beneditino. Lembro de um protesto antigo no Rio. Daqui de casa, dava para ver a fumaça dos incêndios de ônibus no Centro, a mais de quatro quilômetros. Ninguém "de esquerda" reclamou.

3. Uma característica dos protestos atuais - no mundo todo - é que eles não tem "dono". Não são liderados por partidos, sindicatos, por nenhuma organização estabelecida. Isso não os desqualifica. Maio de 68 também foi assim, de certa forma.

Por outro lado...

1. O problema é só o ônibus, que é da conta do prefeito petista? Metrô e trens podem cobrar à vontade?

2. A passagem só ficou cara agora, com o Haddad? No tempo dos tucanos era baratinha?

2. Por que diabos foram depredar a sede do PT? Aí tem um cheirinho de fascismo.

Resumindo: vale protestar, mas os protestos estão sendo claramente instrumentalizados. Os petistas que reclamam parecem uns velhinhos corocas falando mal da juventude. E certos apoiadores de última hora mal escondem as penas coloridas e o bico grande.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O PT de ontem, o de hoje, quiçá o de amanhã (final)

Hoje em dia

Demoro a fechar a série. Ficou muito maior do que eu esperava, quando comecei. Mas acho que teve pelo menos uns três leitores.

O PT cresceu, endireitou um tanto, chegou no poder. Mudou muito. Mas não virou o típico partido brasileiro, constituído de um bando de caciques e uma massa amorfa. (não falo nem das legendas de aluguel, mas dos partidos verdadeiros, com algum cunho ideológico, como o PSDB, o PMDB, o DEM)

É verdade que as tendências perderam espaço para grupos de influência, formados em torno de políticos profissionais. É verdade que os núcleos (de bairros, categorias profissionais, interesses culturais) se esvaziaram bastante. É verdade que a ideologia se uniformizou um pouco. Mas ainda tem debate interno, especialmente antes dos congressos ou encontros partidários. Mais importante: o PT é um partido vivo, que atua na sociedade, presente nos movimentos sociais, nas manifestações de rua, nas redes da internet.

Na rede, então, o que a gente mais vê é petista criticando o governo. O governo dá muito mole, não faz a lei dos meios de comunicação,  financia a oposição midiática, etc, etc, etc. Por motivos óbvios, a questão da mídia gera muita polêmica entre os internautas.

Sabe de uma coisa? Eu acho que o principal problema do PT é não ter uma oposição decente. A oposição de direita está mais perdida que cego em tiroteio. E o pessoal à esquerda não tem projeto alternativo e acaba a reboque, confraternizando com os tucanos nas eventuais vitórias no parlamento. Desse jeito, o risco é mexicanizar. Cristalizar as políticas compensatórias e se eternizar no poder, evitando cuidadosamente qualquer novo avanço.

Problema para o futuro. Hoje, o que a gente vê é a redução drástica da miséria e a ascensão social dos trabalhadores, que chamam de "nova classe média". Há um debate ideológico a travar com esse pessoal, que às vezes tende ao conservadorismo. Para mim, esta é a questão política principal  - a construção de uma nova hegemonia, que venha a sustentar um salto de qualidade no projeto da esquerda democrática. Poderia ser tema de uma nova série. Não, não, Joel, não se empolgue.

domingo, 26 de maio de 2013

Futebol - Estádio Mané Garrincha

Bonito e viável

Santos e Flamengo fizeram um joguinho legal, apesar do zero a zero. Teve menos erros de passe do que eu costumo ver por aí. É que os times melhoraram de um dia para o outro? Não. É que o gramado era decente.

As torcidas não estavam separadas por cordão de isolamento, zona desmilitarizada, cerca elétrica, campo minado, nada disso. E quem sentou na frente ficou pertinho do campo, que nem estádio inglês. Nada de alambrado. Não teve briga nem invasão.

O novo Estádio Mané Garrincha custou caríssimo. Dizem que teve mutreta. Pode ser. Não vou embarcar no denuncismo fácil, mas a obra foi cheia de percalços, passando por três governos, nenhum deles com fama de congregado mariano.

Dizem também que vai ser um elefante branco, porque em Brasília não tem futebol. Só se o governo do DF quiser. A capital tem um poder aquisitivo altíssimo e grandes torcidas dos maiores times do Brasil. É só alugar no Campeonato Brasileiro, até mesmo nos estaduais. Vai ter muito clube querendo. Só não precisa fazer igual ao Santos, que levou 800 mil num jogo que teve renda de seis milhões.

A bolsa-família e o preconceito

Renda é cidadania

Outro dia foi a moça. Ela garantiu que a bolsa-família é um absurdo que sustenta luxos nababescos dessa gente que não trabalha. A moça trabalha no comércio. Já viu comprarem até Play Station com cartão da bolsa-família.

Eu estranhei, porque o vídeo-game custa mais de mil pratas e o programa de transferência de renda não é tão generoso assim. Aos poucos, a magnitude da compra foi diminuindo. De Play Station virou tablet, depois telefone, no fim... era uma recarga de celular pré-pago.

Depois foi o moço. Ele foi esperto e juntou dois vídeos do Lula. Um é mais ou menos novo, parece que é do início do governo da Dilma. O Lula aparece defendendo o programa bolsa-família. O outro é bem antigo. O Lula está com o cabelo pretinho, pretinho. E diz que infelizmente tem pessoas tão pobres que votam por causa de um tíquete de leite ou uma cesta básica.

O moço esperto tentou explorar uma aparente contradição. É que ele não viu, não quis ver a diferença. Uma coisa é dar arroz, feijão e farinha. Aqueles caminhões cheios de comida, com um monte de famintos em volta. Outra coisa é um cartão de banco que dá acesso a uma renda básica. De um lado, a esmola; do outro, o reconhecimento de um direito do cidadão.

Repare que os dois preconceitos são exatamente opostos. O moço acha que a bolsa-família é a mesma coisa que a doação de alimentos. A moça reclama do direito de escolha dos beneficiários: tinha que ser para comprar só comida, caramba!

Os dois só concordam num ponto: o programa de renda complementar rende votos. Que horror! O governo faz uma política social bem sucedida, as pessoas reconhecem e votam para continuar assim. Aí é covardia. Devia ser proibido. O Tribunal Eleitoral precisa obrigar o PT a governar igual aos outros: só para os ricos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O PT de ontem, o de hoje, quiçá o de amanhã (9)

Movimentos sociais

Como é que o PT trata os movimentos sociais? E como é que fez, depois de 2002? Mais uma vez, o partido não tinha resposta pronta e foi se ajeitando ao correr dos fatos, um pouco na tentativa e erro.

A relação com a CUT, por exemplo, meio que azedou no início. A Central estava placidamente sentada no ativismo dos funcionários públicos, quando o Lula chegou lá e os barnabés resolveram tomar o paraíso celeste de assalto. Depois foi melhorando aos poucos, porque o governo de fato valorizou o funcionalismo, e também porque fez muitos concursos, colocando gente nova com mentalidade diferente. Dá para notar que não vejo a CUT como correia de transmissão, certo? Já disse que o partido parece incapaz de construir uma política sindical única.

A relação com o MST sempre foi ambígua. Mesma coisa com os trabalhadores sem teto, os movimentos ligados a interesses locais, etc, etc. O fato é que o Executivo tomou a frente. A imprensa livre não se esforçou demais para noticiar, mas foram dezenas de conferências nacionais, mecanismo de participação popular esquecido pelos governos anteriores. Dali saíram várias políticas públicas. O PT ficou a reboque, participando sem muita organicidade. Pelo menos me parece que tem sido assim.

Na verdade, o partido nunca teve tanto protagonismo quanto se pensa por aí. Como eu venho tentando mostrar, o PT teoriza pouco, ainda que haja ótimos teóricos petistas. Com isso, a prática é reativa, meio que ao vai-da-valsa - e nem sempre guarda estrita coerência. Talvez não possa ser muito diferente, num partido de massas. Questão que nos leva à qualidade do debate interno. Último capítulo desta longa série, sedeusquiser.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O PT de ontem, o de hoje, quiçá o de amanhã (8)

No poder, mas nem tanto

Eu não ligo muito para a dissidência que criou o PSOL. Tenho alguns amigos queridos lá. Mas é uma turma que não segurou a onda de ser vidraça. Uma vida inteira atirando pedra cria hábitos arraigados. Ainda acho que o PT é a alternativa à esquerda, por isso a dinâmica interna me interessa muito mais.

O PT está no poder há 10 anos. Isso tem um preço. O poder exige concessões. As propostas do partido vão-se diluindo nas ações de governo. O poder tem gravidade. Atrai tudo que é tipo de oportunista. Os interesses pessoais ganham força. A máquina estatal tem uma lógica própria, que muitas vezes encobre a lógica partidária.

O PT está no poder, mas nem tanto. É o tal "presidencialismo de coalizão". Os hipervalorizados deslizes éticos não me fizeram corar. Sou cascudo. O que me irritou mais, no episódio do "mensalão", foi a burrice. Os caras acharam que podiam pegar um esquema da direita, junto com bandidos direitistas, se lambuzar de melado, e tudo ia ficar por isso mesmo?

Para mim, a grande questão é - qual o papel do PT, enquanto partido, agora que chegou lá? Qual a relação partido/governo que se deveria estabelecer? Como manter os vínculos com os movimentos sociais, que muitas vezes têm que bater de frente com o governo, ou mesmo com o estado? As posições partidárias, quando o partido era oposição, não tinham maiores consequências. Qual é o caminho para manter o debate interno independente, agora que o PT é situação?

Temas para novas reflexões sem a menor relevância.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Música de hoje - Paulinho da Viola

Argumento (Paulinho da Viola)

O PT de ontem, o de hoje, quiçá o de amanhã (7)

No poder - um caso exemplar

Vou contar uma história. É uma coisa pequenininha, mas que para mim foi paradigma. Se não tiver nada a ver, desculpe.

O Lula ganhou a eleição. Eu fui encarregado de ir a Brasília, discutir o projeto para o Banco do Brasil. Cheguei lá e tinha uma reunião ampla. A primeira coisa que me impressionou foi a composição do plenário. Tinha um monte de altos executivos do banco, gente que tinha levado o BB a uma posição subalterna entre os bancos privados, enquanto massacrava o funcionalismo. Estavam todos com estrelinha na lapela do paletó. Eu rapidamente tirei a minha e pus no bolso. Tinha gente que não me conhecia e eu não queria que pensassem que eu era mais um "neopetista".

Pedi a palavra e falei o que pensava. O negócio era redirecionar o banco para uma atuação social e ao mesmo tempo disputar o mercado com os bradescos da vida. Não eram coisas incompatíveis, muito ao contrário. Também precisava consertar a relação com os funcionários, em termos profissionais, sem o paternalismo dos velhos tempos, sem a direção neoliberal-psicopata. E passar o rodo na alta hierarquia. Mudar quase todo mundo. Quem não era criminoso era cúmplice.

Quase apanhei. Contra o meu discurso se levantou um petista histórico de Brasília. Ele me arrasou. Disse que a minha proposta ia destruir a empresa. Defendeu ardorosamente o continuísmo, sem o que viria o caos. Ganhou muitos aplausos. Depois eu soube que ele tinha arrecadado recursos para sua campanha a deputado com a direção do banco.

O PT de ontem, o de hoje, quiçá o de amanhã (6)

1989 - 2002

A última esquerdice do PT foi dizer que o Plano Real era "eleitoreiro". O país inteiro contente, e o partido remando contra a maré. Se pelo menos estivesse certo... O resultado foi que, quando o remendo foi eleitoreiro mesmo, para garantir a reeleição do Imperador Fernando II, aí o PT não tinha mais discurso.

Nesse tempo, o partido foi cada vez mais assumindo uma feição social-democrata, reformista e moderadíssima. Quase todas as correntes internas se acomodaram assim, umas mantendo um discurso mais forte, outras assumindo numa boa.

Enquanto isso, acontecia outro fenômeno: com mais governos petistas e com mais parlamentares da legenda, o centro de gravidade foi-se deslocando: de correntes ideológicas para grupos de interesse, reunidos em torno desta ou daquela "personalidade" de destaque.

Não que as tendências tenham acabado. Elas existem até hoje. Se manifestam com muita clareza nas teses aos congressos partidários, que costumam ser densas e trazer propostas interessantes, ainda que quase nunca levadas à prática.

A vida partidária envelheceu. Os núcleos (ligados a categorias profissionais, interesses culturais, políticas específicas ou movimentos locais) se esvaziaram, em favor das instâncias mais burocráticas dos diretórios. A luta interna passou a ser um tanto sazonal, na hora de montar as chapas partidárias.

Falam muito da "Carta aos Brasileiros", mas eu acho que ela é desimportante. Ou importa apenas porque é um marco. O texto explicitava o que o PT já pensava há um tempão: "queremos administrar a crise do capitalismo sem rupturas, com políticas compensatórias e visão desenvolvimentista."  Algo assim. Nada muito ousado. Ou então, ousado apenas na medida em que se contrapunha à cultura politica dominante, saudosa dos tempos da escravidão.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sexta de poesia - Ana Cristina Cesar

O Homem Público N. 1 (Antologia)

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
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