"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A dissonância cognitiva e os eleitores do Aecim

Tem um experimento clássico em psicologia social. Você paga a dois grupos para fazer um trabalho maçante. Um grupo recebe uma boa grana. O outro grupo recebe uma merreca. Depois você avalia a satisfação de cada um com o trabalho.

Quem você acha que ficou mais satisfeito? O grupo que ganhou bem? Nada disso. Os que declaram mais satisfação são os que receberam pouquinho.

É que rola o que se chama "dissonância cognitiva". "Aceitei fazer um trabalho péssimo para ganhar pouco" é uma constatação dolorosa. O sujeito se defende desse sentimento. Então ele atribui mais satisfação ao trabalho chato.

Acho que aconteceu coisa semelhante com vários eleitores do Aecim. Foi gente que não resistiu à pressão do grupo. Votar nos petralhas ficou fora de moda na classe média do sul/sudeste. O cara não teve força para remar contra a maré. Tucanou.

Mas ficou aquela dissonância. No fundo, no fundo, o neotucano sabe quem é o candidato dele. Conhece seus antecedentes. Mais: ele passou pelos governos do PSDB. Vamos imaginar que é um coleguinha do Banco do Brasil: dos oito anos do reinado do imperador Fernando II, foram seis sem aumento. Nem meio por cento. Teve gente demitida por nada. Teve até gente que se matou.

O jeito é passar uma borracha na memória. Corrupção, é claro, é coisa que começou em 2003. Juros altos são os 11% de agora, não os 45% dos tempos áureos do FHC. A Petrobras era valorizada à beça. Tinha emprego para todo mundo. Crise mundial? Crise braba foi aquela da Rússia, foi aquela do México, foi aquela de... sei lá... Kuala Lampur - todas enfrentadas com galhardia e empréstimos do FMI.

Nosso herói faz de tudo para evitar o sofrimento psíquico. Acaba ficando mais reaça que o Malafaia.

As meninas do Canadá

A Gisela e a Liliane moram na província de Quebec e vieram bater aqui no blogzinho, não sei bem como. Deve ter sido alguma travessura do Google. O fato é que elas entraram sem cerimônia, sentaram no sofá de roupa molhada, puseram os pés na mesinha de centro e foram na cozinha abrir a geladeira para ver se tinha cerveja. Tinha. Sempre tem.

Maldade minha. Maldade e mentira. As duas são super na delas. Discretíssimas. Têm até medo de incomodar, veja só. O que blogueiro pobre mais gosta é de ser incomodado.

Por causa da Liliane e da Gisela eu acabei conhecendo o Allysson, que conheceu a Gisela e a Liliane no Canadá, mas mora na Austrália. Caramba. Isso está parecendo a Quadrilha. No bom sentido. O poema do Drummond.

O blogzinho sempre acusa umas visitas internacionais, mas eu não me engano com isso. Quase sempre é gente que errou de porta. Tem uns amigos que moram fora. Um ou outro brasileiro desgarrado, que vem só por causa do meu sotaque carioca. É, sotaque. Eu escrevo "mermo" e "marromeno".

Mas eu me perco. O que eu queria falar era outra coisa. É que as vezes esse ofício solitário de engarrafar bilhetes e jogá-los ao mar cansa. Eu penso em parar. Ficar só nas redes sociais, que não exigem muito. Só que aí eu lembro das duas. Faço uma faxina, mudo a cara do blog, arrumo um assunto - um pretexto - para escrever.

Não, eu não sou tão pretensioso assim. Não acho que elas iam sentir falta das besteiras que eu garatujo. Eu é que ia ficar com saudade das meninas do Canadá.

Pílulas paulistas (antologia das minhas besteiras no facebook)

Entrega de água mineral no Palácio dos Bandeirantes
A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que quanto um paulista fala pra outro:
- Ah! Vai tomar banho!
... é elogio.

A situação em SP tá tão ruim, mas tão ruim, que já começaram os saques às lojas de perfumes.

A situação em SP tá tão ruim que o pessoal tá comendo sopa Knorr direto do saquinho.

Falta d'água é chique: o metrô de SP já fede igual ao de Paris.

Dica pros eleitores de SP: leilão de água Perrier das safras de 1989, 1994 e 2001 - no hotel Fasano, neste sábado.

Nordestinos, cariocas e mineiros se solidarizam com os flagelados de SP:
Os quartéis dos bombeiros já estão recebendo doações: fraldas descartáveis, roupas, desodorantes, sucos de caixinha e água mineral. Leite em pó, NÃO.

Sugestões bem intencionadas para os eleitores de SP:
1. Banho a cada dois dias. De banheira. A mesma água para a família toda.
2. Uma descarga a cada três cocôs. Manter uma vela acesa no banheiro, pra queimar os gases.
3. Comida sem sal. Aí se bebe menos água.
4. Roupas: lavagem a seco, sempre que possível. A cueca - ou a calcinha - pode ser usada por dois dias, virando do avesso no segundo.
5. Não lave o carro. Melhor: venda o carro. Hoje em dia, qualquer um tem carro. Compre um helicóptero.
6. Não tem água? Beba champanhe. Veuve Cliquot não, que é bebida de pobre. Cristal, no mínimo.
7. Perfume. Muito perfume!
8. Votar melhor da próxima vez.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tremenda baixaria

Sóbrio
Um prócer do PSDB, cujo nome não lembro, estava esbravejando ontem. Dizia que com ele não tinha esse negócio de "diálogo", não. Que a campanha foi toda de difamação. Que a Dilma fazia insinuações nos debates e depois os petralhas desciam a lenha nas redes sociais.

Ele estava indignado com evidentes mentiras que saíram até na imprensa internacional: 1. que o Aecim bateu na mulher; 2. que ele cheira. Esqueceu da da lei seca. Esqueceu do aeroporto. Esqueceu das sinecuras. Esqueceu do nepotismo. Puxa, ele esqueceu de muita coisa. Se tivesse memória melhor, ia ter um troço, de tanta indignação.

Deixa ver quem foi. Ah, foi o senador Aloysio Nunes. Ele era o vice do plaboy. Perdeu uma boquinha boa. Tem lá os seus motivos para ficar chateado. Se bem que o Senado não é ruim.

Eu também não gosto de baixaria. E já falei várias vezes que não me importa se o Aecim cheira ou não cheira. Pessoalmente, prefiro um presidente maconheiro. O maconheiro vai ficar pensando... pensando... se privatiza ou não a casa da mãe joana. O cheirador tasca logo o jamegão.

Acontece uma coisa. Tudo o que o senador esqueceu está mais que provado. Já faz parte da biografia do moço. As que ele lembrou...

Bom, das que ele lembrou, a suposta agressão à suposta namorada numa suposta festa da Calvin Klein foi noticiada - sem nenhuma suposição - pelo jornalista Juca Kfouri. Você pode não gostar do Juca. Eu mesmo não gosto muito. Mas ele não é conhecido por fazer imprensa marrom. O Aecim disse que era uma calúnia torpe. Que ia processar. O Juca reiterou o que tinha escrito. Processo, que é bom, não teve.

Quanto ao pó... não sei. Mas o Mineirão inteiro já cantou que o Aecim cheirava mais que o Maradona. Não foi na campanha. Ele era governador. E muito bem avaliado. Pelo menos, foi isso que ele repetiu à exaustão nos últimos meses. Só não vi a prova.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dilma no fio da navalha

Pronto. Ganhou. Agora é governar. Vai ser dureza.

O segundo mandato da Dilma começou no domingo. E já começou debaixo de fogo cruzado. O discurso da vitória foi repleto de platitudes: chamada ao diálogo, promessa de mudanças, por aí. Era de se esperar. Teve uma única proposta concreta: o plebiscito para a reforma política. Aí caíram de pau.

Nem falo daqueles que veem a "revolução bolivariana" debaixo da cama. O PMDB gritou que não quer nada disso. O PMDB é aliado, certo? Me disseram que sim.

Economia. A Folha de SP já lançou seu ministro da Fazenda. O tal do "mercado" quer uma guinada à direita (eles não dizem "direita", dizem "ortodoxia"). As medidas anti-cíclicas pontuais chegaram no limite. Desenvolvimento exige capitais. Talvez seja preciso dar um passo atrás agora, para garantir dois adiante mais à frente.

Política. A tal da "base aliada" tem 2/3 da Câmara, Mais ou menos a mesma coisa no Senado. Mas são bancadas mais dispersas, mais conservadoras e menos confiáveis. E tem a pressão das ruas. O povo não quer só comida. Quer diversão, arte e serviços públicos decentes. Muita coisa é responsabilidade dos estados e municípios. E daí? A conta vai sempre para a Dilma.

O PT precisa se renovar. Não pode se confundir com o governo. Não pode ser um partido de deputados e senadores. A reta final da campanha deu fôlego para a base. Mas a direção mostrou o quanto está descolada das ruas no episódio da Cinelândia: desmarcaram o comício, com medo de não encher; a multidão tomou conta da praça, mesmo sem comício. Tem que manter esse pique.

O óbvio: disputa de hegemonia. O partido deixou isso de lado. Achou que as ações de governo bastavam. As pessoas estão melhorando de vida, por que iam votar na oposição? Pois é. Foi quase metade. Claro que não foram só os "ricos".

Partido e governo têm tarefas decisivas agora. E não são as mesmas. Tema para outras postagens.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Cinelândia vermelhou

O momento mais marcante dessa eleição foi o comício que não houve.

Era para ser na Cinelândia, praça mais politizada do Rio de Janeiro. Era para ser com o Lula e com a Dilma.

Um dia antes, a direção da campanha desmarcou.

Os sábios tiveram medo de não dar certo. Vai que não enchia a praça. Trocaram por uma carreata - se não me engano, em Duque de Caxias. Carreata sempre dá boas fotos. A campanha agora é midiática, é ou não é?

Começou a correr nas redes que não tinha mais. Começou a correr nas redes que ia ter de qualquer jeito.

O pessoal foi para a Cinelândia. Sem o Lula, sem a Dilma, sem o comício. Eram cinco mil, dez mil? Não sei. Encheu. Foi bonito à beça.

Que gigante, que nada. Foi a militância que acordou. Não só petistas. Todos os que perceberam o risco terrível do retrocesso.

Quem venceu essa eleição não foi o marketing, não foi o Nordeste, não foi Minas. Não foi nem o apoio dedicado do Lula. Foi a multidão vermelha de novo na rua. Contra tudo. Contra a imprensa de aluguel, contra o ódio de classe, contra a maré conservadora. Contra a maior articulação reacionária desde 1989.

Naquela noite, na Cinelândia, foi apesar da timidez da direção. Disse "apesar da timidez"? Está bem dito. É mais elegante do que "contra o cagaço".

No discurso da vitória, os sábios que desmarcaram o comício estavam todos lá. Nós vimos pela TV. Mas fomos nós que vencemos. É bom que eles se toquem.

Ex-diário

O "Diário das Eleições" nunca foi diário. E no final parou mesmo. É que a eleição não era mais guerra de posições. Era guerrilha. Não dava tempo de escrever um negócio maiorzinho, mas pensado, menos imediato. Mais para redes sociais que para blog.

Passou a tormenta. A Dilma venceu.

A DILMA VENCEU, CARAMBA!

Nós vencemos.

Vencemos a maior articulação das forças reacionárias no Brasil desde 1989. Foi moleza não.

Amanhã eu começo a pensar no assunto. Amanhã dou meus palpites. Hoje é ressaca cívica.

O blogzinho muda outra vez. É como o samba: "agoniza mais não morre".

Abraços. Beijos. Mais abraços.

ÉÉÉÉ DIIILMAAAAA!

sábado, 18 de outubro de 2014

Tempos tucanos - suicídios no Banco do Brasil

Plano de Demissões Voluntárias. De voluntário não tinha nada. Um grupo de funcionários era composto de "elegíveis". Eles recebiam cartinhas sugerindo que aceitassem uma merreca para ir para o olho da rua.

Foi um horror. O banco já tinha instituído a demissão sem processo, por simples decisão administrativa. Ninguém sabia o que ia acontecer, se o "elegível" não aceitasse a pressão.

Não lembro mais quantos suicídios foram. Um atrás do outro. Muitos vezes, dentro da empresa.

Eu coordenava o movimento sindical do BB. Estávamos completamente acuados. Fazíamos o possível. Agendamos uma audiência na Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

A Comissão de Direitos Humanos, você pode imaginar. Só trata de barra pesada. Trabalho escravo. Prostituição de menores. Tráfico de pessoas. Cheguei lá, eles não estavam muito interessados no que eu ia contar. O que podia acontecer de tão horrível no Banco do Brasil?

Na véspera, tinha sido um amigo meu. Mais um que se matou dentro do banco. Ele trabalhava na gráfica. Bebeu veneno. Eu comecei a falar. Não tinha jeito, a voz embargava. O Gabeira estava lendo jornal. Outros tratavam disso e daquilo. Aos poucos, eles foram prestando atenção. O Gabeira fechou o jornal, fez uma pergunta. No final, estavam todos chocados.

O representante do banco apresentou estatísticas. O quadro de suicídios estaria na média mundial. Tomou um esporro. Não se tratava de números. Era de gente que se tratava.

Depois vazou o original do plano. Era coisa de uma empresa de consultoria. Os consultores avisavam que não ia ser para estômagos fracos. Previam até os suicídios.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O voto do rancor

Meu amigo Pedro Ivo é marinero do primeiro barco. Aliás, ele é um dos principais articuladores da Rede. Nos conhecemos no sindicalismo bancário. O respeito mútuo passou a afeto (ao menos da minha parte) em um longo curso que fizemos no interior de São Paulo, seis semanas de imersão, uma pedreira.

O Pedro Ivo vai votar nulo. Diz que o governo da Dilma é conservador. Que rasgou compromissos ambientais e apoiou o "desmonte do código florestal". Seria "conservador", então, apenas quanto à política para o meio-ambiente. É uma crítica dura, ainda que pontual. Mas não pretendo discuti-la aqui.

Isso porque, para o meu amigo, o principal foi "a campanha sórdida de críticas e calúnias" que teria mostrado "uma face neofacista" da Dilma e do partido. Afinal, o PT chamou a Marina de " homofóbica, banqueira, conservadora, fundamentalista". Teria feito insinuações malévolas sobre a queda do avião de Eduardo Campos. E ainda teria feito "ataques preconceituosos a uma pessoa pela sua condição religiosa".

Ora, Pedro Ivo, baixaria tem em tudo que é eleição. Contra o PT é que sempre tem mais. Precisa primeiro descartar o que vem dos muitos e variados trolls do que é estratégia de campanha. O avião, por exemplo, foi coisa de troll. Menos aquela parte, até hoje não explicada, de quem pagava a conta.

O PT, de fato, escolheu desconstruir Marina. Talvez tenham ficado assustados com seu crescimento explosivo. Mas foi na base da mentira e da calúnia? Acho que não.

Falar das ligações da candidata com a herdeira do Itaú é mentira? Foi o PT que colocou no programa da Marina a independência do Banco Central? O programa não falava na redução do crédito direcionado? São questões do maior interesse dos banqueiros.

Homofóbica? É um termo forte. Mas a Marina voltou atrás, quanto a questões importantes da comunidade LGBT. "Voltou atrás" é bondade minha. Nesse tema, a Marina sempre se postou de maneira equívoca e o programa é que era mais avançado do que ela.

Conservadora? Chamar a Marina de conservadora é baixaria? E chamar a Dilma de conservadora é bonito? Menos, Pedro Ivo. O programa de vocês tinha parágrafos inteiros COPIADOS dos manuais do PSDB.

Finalmente, a religião, mais ou menos fundamentalista. Não sou eu quem pratica a "roleta bíblica" - abrir o livrão ao acaso para se inspirar nas decisões. Tomara que não caia nunca no Levítico. O Levítico, como sabemos, é barra pesada.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

De longe

Estou em Buenos Aires. Não teria vindo para cá, não nessa época, não fosse pelo casamento de uma amiga muito querida. Volto na terça. Até lá, acompanho a batalha eleitoral à distância, com uma conexão de internet marromeno.

Os resultados das primeiras pesquisas não me espantam, nem me desanimam. Assim que saiu o resultado do primeiro turno, achei que ia ser decidido "no photochart", como se diz no turfe, ou seja: por uma diferença mínima.

Meu filho me passou o link da pesquisa do Datafolha, desdobrada em classe social, faixa etária, região, etc. Não consegui abrir. Mas sei que a chamada "classe C" está dividida.

É uma contradição interessante: o cara subiu na vida nos governos do PT e agora vota no Aecim.

É uma contradição interessante, mas não é surpreendente. As pessoas tendem a achar que o próprio esforço foi responsável, quando melhoram de vida. E é claro que sempre tem muito esforço individual envolvido. Mas esse esforço só chega a resultado se há condições sociais para tanto.

O PT cometeu muitos erros nos últimos 12 anos. Mas o pior, sem dúvida, foi deixar de lado o debate ideológico. Fazer essa disputa só em tempos de eleição é muito pouco. A "nova classe média" é uma expressão bem imprecisa. Mas qualquer estudo sério mostra que esse extrato social é resultado de uma política de inclusão, valorização do mercado interno, prioridade na geração de empregos, ampliação do mercado de trabalho formal.

Olha a série estatística. Agora está difícil para mim. Como eu disse, conexão bem ruinzinha. A geração de empregos formais bombou, com Lula e Dilma. No tempo do FHC, os teóricos tucanos chegaram a dizer que a era do emprego tinha acabado. Não era mais para ter emprego. Era para ter "empregabilidade". Você lembra?

Pois é. Os caras falam sem pudor. Pleno emprego é um problema. O salário mínimo está muito alto. Tem que dar um choque na economia. Aquela receita que a gente já conhece - e que vai na jugular do pessoal que melhorou de vida, que forma a "nova classe C" e que agora está dividido no voto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Rescaldo do primeiro turno (2) - protestos e votos

Muitos amigos e amigas atribuem o crescimento do voto conservador aos protestos de junho. Aquele sentimento "contra tudo o que está aí" teria respingado na Dilma e alavancado a direita. Será?

Será que os desencantados com a política correram para o colo do Aecim? Será que os esquerdistas resolveram apoiar o neo-neoliberalismo da Marina? Será que os anarquistas se revelaram eleitores do Russomano ou do Bolsonaro?

Menos, gente.

Se for para comparar com experiências internacionais, temos o caso paradigmático da Espanha. Depois do "que se vayan todos", os jovens se abstiveram em massa. A direita se aproveitou. Foi isso aqui também? Vamos conferir. 2010: abstenção de 18,12%; 2014: 19,39%. Não é pesquisa, é resultado. Um pontinho percentual deve ter causas. Não houve nenhum problema climático. Não dá para ver a faixa etária do eleitor ausente. Mas parece significativo.

Aumentou o voto nulo? Cerca de um ponto percentual. E aí tem uma avalanche nos grandes centros. Contra 5% no Brasil, o Rio teve mais de 10%. Houve também aumento em relação a 2010. Não achei dados por município para 2010, então fiz uma comparação no Estado do Rio, onde a capital pesa muito: de 6% para 9%. O voto em branco também aumentou um ponto percentual, em todo o país.

E o voto para a oposição de esquerda? Foi pouco mais de 2%, considerando o Eduardo Jorge como "esquerda", o que força um pouco a barra em termos ideológicos, mas talvez não em relação ao eleitor. Em 2010, foi mais ou menos 1%. A Luciana Genro teve o dobro dos votos do Plinio, em 2010.

Um pontinho aqui, um pontinho acolá, parece que a influência da temporada de protestos foi esquerdista e bateu, mais ou menos, com a perda de votos da Dilma. Claro que não há nenhuma certeza aqui. Mas é uma boa hipótese de trabalho.

O fascismo enquanto nicho de mercado

No Facebook, escrevi esse pequeno post um tanto inconsequente:

meus amigos de esquerda - os liberais também - passam o ano todo levantando a bola do bolsonaro, chamando o cara de fascista, disso, daquilo. daí todos os que gostam de fascistas e dissos e daquilos votam no cara. ele é o deputado mais votado do rio. e os meus amigos de esquerda - os liberais também - ficam de mimimi

Teve uma polemicazinha. Meio que fui acusado de não levar a extrema direita a sério. Falaram numa expansão mundial do fascismo. Do perigo que os bolsonaros representam. Por aí.

Não subestimo o perigo. Mas também não vejo essa expansão toda. Da direita, certamente - em particular na Europa. Da ideologia fascista? Não acho.

Faz tempo que fascismo deixou de ser um conceito, para virar um xingamento. A ideologia de um Feliciano, por exemplo, tem pouco a ver com o fascismo. O milico carioca chega mais perto. Vamos juntar todos eles. O que eles têm em comum?

Em comum, essa extrema direita brasileira tem o repúdio ao avanço em termos de costumes. A homofobia. O machismo. O racismo mais ou menos explícito. A ideia de que se combate a violência urbana com violência estatal. Espera. Essa última, nem todos.

Esse "programa mínimo", se posso dizer assim, está longe de ser fascista. E é um ideário defensivo. Reação aos inegáveis avanços da sociedade nas últimas décadas. Pensa bem. A gente fica indignado quando agridem um casal homoafetivo na rua. Trinta anos atrás isso não acontecia - simplesmente porque os gays tinham que ficar escondidos nos seus guetos.

A sociedade avança mais devagar do que gente gostaria - e com muitas contradições. A atual extrema direita brasileira é a agonia do dinossauro. O dinossauro agonizante faz um estrago danado. Mas seus dias estão contados.

Os bolsonaros têm votações enormes porque são poucos e representam uma parcela razoável dos eleitores. Um nicho de mercado. Disputa de poder é outra coisa.

Rescaldo do primeiro turno (1) - retrato em preto e branco

Sem meias palavras. Sem tapar o sol com a peneira. O PT foi o grande derrotado na eleição. Personalidade, foi a Marina. Partido? Dos trabalhadores.

O PT deve perder 18 cadeiras na Câmara Federal. Passa de 88 para 70. São praticamente números finais. Pode mudar uma coisinha, por causa das impugnações que ainda vão ser julgadas. Um a mais ou a menos. Não é significativo.

Só na bancada de São Paulo, o partido perdeu 6 vagas. Foi de 16 para 10. Tremendo baque.

Não conferi, mas quero crer que é a primeira vez que a representação do PT na Câmara diminui numa eleição, desde que o partido existe.

No Senado, foi menos ruim - deve perder uma cadeira. Mas saiu o Suplicy, ícone.

O PT foi melhor na eleição para governadores. Ganhou em Minas, coisa inédita. Deu um banho nos ibopes na Bahia. Manteve o Piauí. Vai para o segundo turno, na frente, no Mato Grosso do Sul. Praticamente empatado, no Ceará. Em segundo lugar, em Roraima e no Rio Grande do Sul.

A coroa de maior partido (em termos de representação nacional) ainda é do PT. Mas ficou bem amassada. Não é só o segundo turno que vai ser barra. Governar, se vencer, também será complicado - o Congresso ficou ainda mais pulverizado do que já era, com novos partidinhos conseguindo eleger pelo menos um. E a oposição ficou maior.

Com tudo isso, acho que a Dilma ainda tem o favoritismo. Em termos numéricos, ela precisa pegar 1/3 dos votos da Marina. Foi mais ou menos o que aconteceu em 2010, dando em vitória de 54%. Com os números atuais, seriam 51%.

Isso é um retrato. A análise é outra coisa.

domingo, 5 de outubro de 2014

Segundo turno

Eu torço para a Dilma ganhar de uma vez, hoje. Mas tudo indica que vai ter segundo turno. Eu já falava isso há tempos. Ganhar no primeiro turno é muito difícil. Ainda mais com três candidatos competitivos e vários "nanicos", que no total abocanham coisa de 5% dos votos.

As teorias conspiratórias não contam comigo. Manipulação "na margem de erro"? O que é isso? Me parece coisa de quem não entende bem o conceito estatístico. São muitos institutos, inclusive um que trabalha para o PT. Vai ver. Os resultados são muito parecidos. Não tem como combinar.

Ah, mas eles seguram o resultado do PT até os últimos dias! Aí que vão ajustando mais perto da realidade! Quero crer que não. Acho que sempre tem "onda vermelha" mesmo. Por dois motivos principais: 1. o PT ganha forte no eleitorado mais pobre, que decide mais tarde; 2. a militância faz diferença na reta final.

Então, meu amigo petista, minha amiga dilmista: se prepara. Vai ter segundo turno. E vai ser pau puro.

Começa pelo seguinte: a primeira pesquisa vai mostrar um crescimento tremendo do Aécio - ou da Marina. Qualquer um que chegue em segundo. É natural. Os votos oposicionistas migram mais para a oposição. Aí vão começar as "análises", essas sim manipuladas e manipuladoras: Dilma estagnada! Salvador da Pátria crescendo!

E os "escândalos"? Até que seguraram a mão, no primeiro turno. É que não dava para derrubar a Dilma a esse ponto. Guardaram as cartas na manga. Agora vêm com tudo. Pouco importa o conteúdo de verdade. Mesmo a simples verossimilhança não é essencial. O negócio é publicar em série. Sem dar tempo de respirar. Para botar a candidatura petista nas cordas.

Mas a Dilma não tem chance de liquidar a fatura hoje? Tem alguma. Não é provável. Quando eu digo que vai ter segundo turno, é menos previsão, mais fortalecimento do espírito para o que vem aí. Torço para estar errado. Tomara. Mas me preparo para a continuar na luta.

sábado, 4 de outubro de 2014

Lula Lá - lembranças militantes (2)

Como eu já comecei a contar, no segundo turno de 1989 fui fazer campanha no interior do Estado do Rio, junto com o meu amigo Amaral. Rodávamos entre Rio Bonito e Itaboraí, cidades muito perto da capital, mas que em termos eleitorais eram outro mundo.

O PT era muito pobre. O Lula viajava em aviões de carreira. Muitas vezes se hospedava em casas de militantes. O material de campanha era todo vendido, para arrecadar algum. No interior, era mais pobre ainda. Chegamos carregados de santinhos, plásticos para carros, adesivos. Fizemos o maior sucesso.

Quase não tinha carros para ajudar. Nós tínhamos um. Então passávamos a maior parte do tempo na região rural. Nosso guia era o Badu, um negão de 1 metro e 80 de sorriso por 2 e 40 de generosidade. O Badu era "o petista" de Rio Bonito.

Nosso carro, sozinho, era uma mini-carreata. Plásticos em todos os vidros. No de trás, um enorme "LULA LÁ" vazado, mas que ocupava o espaço todo. Duas bandeironas do PT, uma de cada lado. Todo dia íamos de Rio Bonito a Itaboraí, ida e volta, várias vezes - pela BR. E íamos buzinando. Até que fomos parados pela Polícia Rodoviária. Era inevitável.

Sei lá quantos artigos do Código de Trânsito nós violávamos. Fui pegando os documentos, meio ressabiado. Chegou o guarda:

- Vocês têm umas estrelinhas pra dar pra gente?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O PSOL e a eleição no Rio

Ao contrário da maioria dos meus amigos petistas, não tenho nenhum ranço contra o PSOL.

Tem gente boa e gente nem tanto no partido. Gosto do Chico Alencar, por exemplo, que é meu chapa desde os tempos de ginásio. Hoje em dia a gente quase não se vê. Mas às vezes debatemos algum tema político na internet, sempre com respeito mútuo. Já não vou muito com a cara do Freixo, que depois de ser relator da CPI das milícias se cercou de guarda-costas, passou a andar de carro blindado, foi para a Europa se dizendo em risco, um escarcéu danado. O Gilberto Palmares, do PT, que foi o presidente da mesma Comissão de Inquérito, continuou a vida dele numa boa - podia (e pode) ser visto andando na rua desacompanhado, ou tomando seu chopinho com os amigos nos bares do Centro e da Tijuca.

Simpatias e antipatias à parte, acho que o PSOL tem uma opção política válida: ocupar o espaço à esquerda do PT, sem se confundir com a esquerda revolucionária. É meio que um fio de navalha. Mas é um direito deles.

Às vezes eles se confundem. Aí se juntam com a oposição de direita. Dá numas fotos feias à beça. Punhos cerrados na derrubada da CPMF, por exemplo. É doença infantil. Um dia passa.

Nessa eleição, aqui no Rio, eles lançaram o professor Tarcísio para governador. Não conheço a peça. Dizem que é um cara simpático. Ouvi um pouco do debate estadual. Achei ele muito chato. Parecia que estava num comício na Cinelândia. Mas deve ter quem goste. Ouço por aí que ele está tirando votos do Lindberg. Que se o Lindinho não for para o segundo turno, a culpa é do PSOL.

Besteira. Se o Lindberg não emplacar, a culpa é do PT, mesmo. O PT do Rio nunca emplacou ninguém - embora o Lula e a Dilma tenham se dado bem no estado. Os motivos são vários. Se eu enveredar discutindo isso, não acabo hoje. Botar a culpa nos outros é covardia. Ainda mais num "outro" tão pequenininho.

O PT se firmou fazendo exatamente isso - lançando candidatos sem chance eleitoral, para criar referências e passar a sua mensagem. Aí o pessoal da estrelinha era contra o tal do "voto útil". E agora querem patrulhar os outros? Deixa a garotada do PSOL vender o peixe deles, gente!

Lula Lá - lembranças militantes (1)

Em 1989, depois do primeiro turno, a gente não tinha o que fazer aqui no Rio. Todo mundo era Lula. O pessoal do Brizola não esperou a orientação do guru - correu rapidinho para o 13. Os eleitores do Collor, menos de 20%, eram irredutíveis. Resolvi fazer campanha no interior.

Peguei emprestado o carro da minha namorada. Fui no comitê, comprei adesivos, bandeirinhas, broches. É, a gente comprava material de campanha. Descolei pacotes de panfletos. Enchi o carro. Dois bandeirões enormes desfraldados, um em cada janela, completavam o visual. Junto com meu chapinha Amaral, fui para a região de Rio Bonito e Itaboraí. Ali pertinho. Outro país.

Pegamos a estrada num domingo. Chegamos em Rio Bonito quase à meia-noite. Cidade de uns 30, 40 mil habitantes. As ruas desertas. Um ou outro notívago esperando um ônibus improvável. Nossa orientação era procurar pelo "Badu", liderança petista local. Lembro que eu tinha perguntado à Imaculada, que foi quem deu a dica:

- Mas qual é o nome do Badu?
- Sei lá, todo mundo conhece ele por Badu, mesmo.

Chovia. Paramos o carro num ponto de ônibus. Uma senhora de capa e guarda-chuva:

- A senhora sabe onde é a sede do PT?
- Sei não senhor.
- Onde é a comitê do Lula?
- Não. Mas eu sei onde mora o Badu!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Meu primeiro voto

No distante ano de 1974, a gente não votava nem para presidente, nem para governador. E eram só dois partidos - MDB e Arena. O pessoal chamava de "partido do sim" e "partido do sim, senhor".

A extrema esquerda fazia campanha pelo voto nulo, mas eu não embarcava nessa. Voto de protesto era no MDB. Se possível, nos "autênticos'. Os "autênticos", hoje, fariam uma tremenda salada. Na época, era o que tinha de melhor.

19 anos, de ressaca de uma festa, fui lá e cravei: Lyzâneas Maciel para federal, Edson Khair para estadual, Danton Jobim para senador. O Lyzâneas não durou muito. Logo, logo, foi cassado pela ditadura.

Gostei de votar. Mesmo sendo um voto pela metade, um voto tutelado, tanta gente presa, tanta gente cassada, tanta gente no exílio.

A urna eletrônica é um progresso e tal. Mas não tinha nada igual ao papelzinho. Marcar sua opção ou escrever o número, dobrar, colocar na fenda da urna. Em 1989, eu imitei o Lula e beijei a cédula. A presidente da mesa era Collor doente e fez uma cara feia danada.

"Lula lá, meu primeiro voto". Eu já tinha 34 anos. Quem tinha 47 também votava para presidente pela primeira vez.

Hoje em dia, a garotada de 16 já está teclando na maquininha. Isso é muito bom. Mas eu queria que eles conhecessem um pouquinho mais da História.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Carta aberta a um(a) antipetista

Caro amigo, prezada amiga,

Não me leve a mal. Esta cartinha está recheada de boas intenções. Não tenho a pretensão de fazer você mudar de ideia. Muito menos desejo desqualificar os seus argumentos, que já não são muitos. Não vou abusar da sua paciência elencando estatísticas e mais estatísticas que demonstram que o Brasil melhorou muito nos últimos anos. Longe de mim o desejo de qualificá-lo pejorativamente, com termos de gosto duvidoso como "coxinha", "mauricinho", "patricinha" ou "udenista". Nada disso.

O que me move, acredite, é minha sincera preocupação com seu bem-estar físico e mental. Deve ser muito difícil viver assim, acenando apenas com uma agenda negativa, fazendo críticas sem apontar alternativas, sem ideário, sem referências, mudando de bandeira (e de candidato) a cada vento do Ibope.

Você quer derrotar o PT. A gente já sabe. Mas isso é muito pouco. No fundo do seu coraçãozinho, nos recôndidos mais profundos da mente, você guarda seus desejos, seus projetos, sua visão de mundo, seus planos para o Brasil.

Tenha coragem! Assuma! Saia do armário! Grite bem alto, com toda a força dos seus pulmões:

- SIM, EU SOU DE DIREITA!

Viu? Não é tão difícil. Você consegue. Vamos lá! Mais uma vez:

- EU SOU DE DIREITA!!!

Ser de direita não é crime. Nao é pecado. É só não exagerar. Nada de rondar quartéis nas madrugadas. Evite overdose: facismo, racismo, homofobia descarada, essas coisas que a boa etiqueta condena. Pronto. Agora você pode defender sem medo o individualismo, a ganância, a desigualdade e o darwinismo social.

Vai te fazer bem. Acredite. Tem outros iguais a você. Gente que quer manter seus privilégios intocados. Gente que se arrepia quando vê os pobres chegando perto. Junte-se a eles! Construa um partido de direita!

Pensando bem, nem precisa. Já tem o PSDB, o DEM, o PPS... são tantos! Pena que não têm votos.

Saudações democráticas.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Meritocracia

No Facebook, um amigo defende a tal da meritocracia. Eu coloco uma chargezinha a respeito, que diz que é fácil falar em mérito quando se nasceu em berço de ouro. Ele responde: o que precisa é de escola pública de qualidade.

Legal. Resolveu tudo.

Minha filha mais velha estudou numa escola pública de qualidade. As professoras faziam apelos patéticos aos pais mais abonados: que não comprassem borrachas bonitinhas, que não mandassem danoninhos na merenda, coisas assim. Era para não criar diferenças hierárquicas entre os alunos. E adiantava? Claro que não. As desigualdades sociais estavam no uniforme mais novo, nos carros do ano pegando as crianças na porta, na própria linguagem.

O Brasil é um país muito desigual. Isso é péssimo. Pior ainda é ter que lembrar disso, para quem acha que meritocracia é solução.

As pessoas partem de patamares desiguais, e não há "ensino público de qualidade" que resolva. Tem pai que pode ajudar no dever de casa, tem pai que não. Tem família com uma boa biblioteca, tem casa onde não se pode ler nem "Meu Pé de Laranja Lima". Tem quem viaje nas férias, conheça outras culturas, ganhe conhecimentos - e tem quem fique por ali mesmo, entre a vala a céu aberto e a boca de fumo. Ai, que falta de paciência para falar do óbvio!

Vamos examinar um país mais igualitário e mais rico? Noruega, Holanda, Finlândia. Escolhe um aí. Lá quase todo mundo estuda em escola pública. A rede de saúde estatal é excelente. Há menos diferenças econômicas, sociais e mesmo culturais entre as famílias. Nem por isso eles embarcam no pseudodarwinismo meritocrático. Existem sistemas de proteção social que custam o tubo aos Estados. Imposto de renda progressivo, e tome progressivo nisso. Toda uma série de medidas que se tornaram consenso na sociedade, visando uma coisa só: reduzir a diferença entre os cheios de mérito e os nem tanto.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Marina, o mimimi e a baixaria

Chororô pega mal. Candidato que se faz de vítima já sai perdendo. É preciso endurecer sem perder a ternura. Por aí.

Imagina se a Dilma chorasse a cada editorial da Folha. A cada matéria do Jornal Nacional. A cada vez que não deixassem ela falar na entrevista. Ia faltar lenço.

E chorou por quê, a seringueira? Foi alguma baixaria de nível ineditamente sublatrinário?

Baixaria tem sempre. Vejo todo dia, na internet. Baixaria azul, baixaria vermelha, baixaria laranja. Mas até que essa campanha está discutindo política. Foi por causa da discussão política que a Marina chorou.

Ela muda de ideia a toda hora, e não quer que mostrem isso? Mas tem coisa pior. Tem umas ideias que ela não muda.

A culpa não é do PT, se ela se cercou de economistas neoliberais. A culpa não é dos bancários, se as propostas dela para o sistema financeiro são o sonho da Febraban. A culpa não é da CUT, se ela quer liberar geral a terceirização e a precarização do trabalho.

A Marina esqueceu aquele ditado velho: quem fala o que quer, ouve o que não quer. A moça se acha. Ela não quer ser eleita. Quer ser ungida.

Baixaria, mas baixaria mesmo, foi do vice da seringueira. O Beto Albuquerque, como sabemos, é líder ruralista e adora um transgênico. Um homem de bem. Pois ele comparou o PT a Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Goebbels dizia que "uma mentira repetida mil vezes se torna verdade". O Beto só disse o que disse uma vez. Vai precisar de mais 999.

Marina e os bancos

Diz que a Neca Setúbal, tão simpática, não é banqueira. Ela é educadora. Não tem nada a ver com o Itaú, a não ser umas açõezinhas. Para ser mais exato, 1,29% do capital. Mais ou menos 800 milhões de reais. Tudo bem. Mas o programa da sua protegida dá a maior bandeira.

A Marina quer liberar a terceirização, inclusive nas chamadas "atividades-fim" das empresas. É o sonho dos bancos. Eles já terceirizam o que podem e o que não podem, enfrentando a resistência sindical, das delegacias do trabalho e até da justiça. É que os bancários conquistaram alguns direitos que nem todo mundo tem. Foi preciso muita greve, mas eles têm um piso mais ou menos, tíquetes-refeição razoáveis e outras coisinhas que custam grana. Bota um terceirizado aí, ganhando uma merreca. Se já é assim com uma legislação restritiva, imagina se abrir a porteira.

A Marina quer o Banco Central independente. Independente de quem, cara pálida? Do Executivo eleito pela maioria absoluta dos eleitores? Quando a Dilma tentou reduzir juros, foi o maior pega-pra-capar. Os bancos lucram horrores sem trabalho e sem risco, só emprestando para o Estado com taxas de agiota. Banco Central independente da democracia é tudo o que eles querem. Garantia de juros altos per omnia secula saeculorum.

A Marina quer acabar com o direcionamento do crédito. Hoje, 25% dos depósitos à vista nos bancos têm que ir para o crédito rural. E 2% têm que ser aplicados em microcrédito. Sem falar na poupança, onde 65% da grana tem que ir para o crédito imobiliário. A seringueira garante que os banqueiros vão saber usar essa bufunfa de maneira mais sábia, preocupados com o desenvolvimento econômico e comprometidos com a justiça social.

A Marina quer reduzir o papel dos bancos públicos. Hoje, eles respondem por 51% do crédito. A candidata laranja acha que é muito. Mas tem que ver como isso aconteceu. Em 2008, a participação dos  bancos públicos no mercado era de apenas 36%. Aí estourou a crise mundial. A banca privada puxou o freio de mão. Os bancos públicos foram à luta. Orientação de governo. Política anticíclica. O Brasil se safou do pior. A Marina, pelo visto, não gostou.

Caramba! Se a Febraban escrevesse o programa, não ia ser diferente. Eu disse "se"?

Mapa da fome

O Brasil está fora do "mapa da fome" produzido pela FAO - o órgão das Nações Unidas que cuida de agricultura e alimentação. 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. No Brasil, são 3 milhões e meio. Ainda é muita gente, mas eram 22 milhões no início da década de 90. No inicio deste século, os desnutridos eram mais de 10% da população. Hoje são 1,7%. O desempenho brasileiro coloca o país entre os dez mais bem sucedidos no combate à fome. E pinta de branco nosso território, no mapa mundial.

A FAO destaca o programa Fome Zero, criado em 2003 pelo Governo Federal, que "colocou a erradicação da fome no centro da agenda política do Brasil e implementou uma abordagem compreensiva para promover a segurança alimentar". O "Fome Zero", como sabemos, é o precursor da bolsa família e das outras ações emergenciais de combate à pobreza extrema.

Era para comemorar, não era não? Era para ter banda de música e fogos de artifício. Mas o anúncio chegou em plena campanha eleitoral. Sucesso do governo petista? Melhor esconder.

Não faz mal. Comemoro aqui. Um país sem fome parecia coisa utópica. Sonho de idealista alienado das contingências históricas, dos determinismos geodemográficos e das forças implacáveis do livre mercado. Que nada. Estamos quase lá.

Não foi por acaso. Não foi uma evolução natural. Não foi uma súbita tomada de consciência do topo da pirâmide social. Foi ação de Estado. Foi política pública. Foi aquilo que uns e outros chamam de paternalismo, de demagogia, de atraso ideológico e de populismo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A gorda, a feia, o machismo e a politica

Como diz a piada velha, a Dilma pode emagrecer. A Marina, coitada, nem com Pitanguy. Mas a piada, além de velha, é sem graça.

Machismo. Imagina o Lindberg, que é até bonitinho, chamando o Pezão de gordo. Ninguém quer saber da tonelagem do Pezão. Ele é homem.

Não diria que a seringueira baixou o nível. Até porque o nível já foi muito mais baixo. Esta campanha, espantosamente, tem até discussão política. E ainda não descambou para os temas sublatrinários. Talvez seja pela ausência do Serra. A ausência do Serra preenche uma lacuna.

Foi, digamos, um momento infeliz da candidata. Mais um. Um dos menores. Desdizer tudo o que tinha dito 24 horas antes é bem pior. O chororô também não foi legal. "Quem tá na chuva é pra se queimar", dizia o Mendonça Falcão.

A presença da Marina tornou a disputa mais acirrada e mais interessante. Quem diria que íamos discutir temas como a independência do Banco Central? Não sou de acompanhar a propaganda, mas a inserção do PT eu vi. Foi muito feliz. Conseguiu traduzir um tema árido, coisa de iniciados, para uma linguagem que todo mundo entende. O pré-sal também deu num bom debate. Era tema mais conhecido, pelo menos aqui no Rio. E ainda tem gente que acha possível abrir mão daquela riqueza toda! Depois quem é ideológico sou eu.

Enquanto isso, o Aecinho... coitado do Aecinho!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Bicicletas

Diz que o inventor da bicicleta foi o Leônidas da Silva. O juiz anulou o seu primeiro gol de bicicleta - jogo perigoso. Mas parece que não foi ele o pioneiro. Foi um chileno, Ramón Uzaga Asia. Por isso, a jogada é conhecida como "chilena" na América espanhola.

Quem inventou a ciclovia, isso eu não sei. Certamente não foi o Fernando Haddad.

O Haddad só espalhou ciclovias pelo asfalto cinza paulistano, assim como o Leônidas espalhou bicicletas pelos verdes campos de futebol. Um gol de placa... que tentaram anular. Anti-petistas motorizados e petistas pedestres se uniram para bater no prefeito. Ciclovia não é prioridade. Atrapalha o trânsito. É só modinha. É elitista. Precisa é melhorar o transporte de massa. Ele faz ciclovias e tem gente esperando na fila do posto de saúde.

Aimeudeus! Enquanto tiver gente esperando na fila do posto de saúde, não se pode fazer mais nada. Imagina que desperdício, cuidar do patrimônio histórico! Promover concertos de música erudita, quer coisa mais elitista? Controlar a emissão de gases poluentes. Tapar buracos nas avenidas. Dar transporte escolar para as crianças. Enquanto tiver gente esperando... etc.

Agora vem o Datafolha e diz que 90% da população aprova as ciclovias do moço. Parece que o prefeito até recuperou um pouco da popularidade, abalada quando ele deu o braço para o Alckmin durante a temporada de inverno dos protestos. Noventa por cento??? Mas não era coisa para uma pequena minoria???

Não moro em São Paulo. Não acompanho de perto a gestão do Haddad. Não invejo o cargo dele. Um município de 12 milhões de habitantes, centro de uma megacidade de mais de 20 milhões... sei lá, me parece ingovernável. Mas o cara topou o desafio. Foi para a rua, dialogar com o movimento social. Criou conselhos populares. Fez um plano diretor que mexeu com os interesses da especulação imobiliária. E está plantando ciclovias pela cidade.

O jogador se lança para trás, como se fosse dar uma cambalhota. O impulso eleva o movimento. Aí vem a mágica. Parece que ele para no ar. E pedala. A primeira pedalada ajeita o corpo para a segunda - que atinge a bola inalcansável. Gol! Não basta ser craque. Tem que sair da mesmice.