"Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio"

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Marighella

O cara diz que o Marighella era bandido, assassino, que queria implantar uma ditadura comunista, essas coisas que a gente sabe.

Eu nem conheço. Mas resolvo responder. Lembro que o Marighella era da ALN - Ação Libertadora Nacional. O programa da ALN era o retorno às liberdades democráticas.

Aí ele garante que isso é o que a esquerda propaga através das escolas.

Caramba. Eu não sabia que a escola de hoje tratava da ALN, da Di-GB, da APML, da Molipo, da VAR-Palmares, da Polop, dos mais de vinte grupos clandestinos que combateram a ditadura de 64. Mais de vinte, se não me falha a memória. As diferenças programáticas eram muitas vezes sutis, mas levavam a "rachas" terríveis, que rompiam amizades e separavam amantes. Até porque os guerrilheiros, todos somados, eram muito poucos. E era ruim de acompanhar.

Mas da ALN eu sei. Não de aprender na escola, e sim da fonte primária: a publicação clandestina onde o grupo explicitava o seu programa. Meninos, eu vi.

O Marighella não estava para brincadeira. Escreveu um manual de guerrilha urbana, que era implacável. Ele lutava uma guerra desigual. Não é necessário ter vivido sob ditadura para entender. Mas talvez seja preciso, para sentir na pele. Nem falo do horror absoluto da tortura, que se abateu sobre opositores armados e desarmados, revolucionários e reformistas, comunistas e liberais. É a supressão da liberdade. O reino do arbítrio. A insegurança permanente. O medo como estilo de vida.

Ele lutou contra isso. Foi torturado pela ditadura de Getúlio. Foi cassado no regime não tão democrático do Dutra. Foi morto em emboscada em 1969, na fase mais hedionda do regime militar.  E agora me vêm uns basbaques ignorantões chamar o cara de bandido. Que merda.

Mil amigos

Fui atualizar meu perfil no Facebook. Notei que tenho 966 amigos. Quase mil.

Desses, quantos são amigos de verdade? Sei lá. Também depende da definição de "amigo".

Amigos, amigos do peito, aqueles com quem você conta no luto e na dor de cotovelo, esses são muito poucos. Mas tem outros, de outro tipo, também valioso: gente que a gente gosta de graça. De graça, porque não há essa intimidade toda, mas não sem motivo. Existe alguma coisa em comum, algo não facilmente perceptível. Não é opinião política, não é clube de futebol, não é religião, não é filosofia. Talvez seja apenas compreensão mútua.

No Facebook, me pedem amizade, eu aceito. Sempre posso "desamigar" depois. Na vida é diferente. Nem me pedem, nem eu aceito - acontece.

Dos amigos, das amigas que eu creio serem "de verdade", tem um certo número que eu nunca encontrei cara a cara. Tem amizades virtuais que migraram para o chamado "mundo real". Se tenho melhor amiga (não sei bem o que é isso), com a minha melhor amiga foi assim. Tem uma meia-dúzia que mora tão longe, provavelmente nunca vou ver ao vivo. E tem aqueles - e aquelas - que retornaram depois de décadas. Ou fui eu que retornei?

Uma foi minha namorada, durou tão pouco, ficou o quê? Uma eu nunca namorei, mas sempre quase. Um trabalhou comigo e a gente se protegia naquele ambiente inóspito, depois eu mudei de setor, até mais. As meninas da faculdade - caramba, lá se vão mais de 30 anos. Os companheiros de partido, que continuaram no partido depois que eu saí. Aqueles que dobraram à direita com vontade, no entanto. Outros com quem convivi durante anos, só foram virar amigos depois, nas artes do virtual. Não são 966. Mas são mais do que eu consigo abraçar.

Essa lua, esse conhaque. Às vezes até parece que a vida vale a pena.

Um amigo

Conheci o Mário há quase 40 anos. Não nos víamos há mais de 30.

Eu tinha uns vinte, o Mário era trintão, mas a amizade foi imediata. É que a gente trabalhava no Banco do Brasil. Um lugar cheio de bancários. Ele não era. Era poeta. E eu era qualquer coisa que não sei bem. O que sou até hoje.

O Mário era (é) muito ruivo, cabelos vermelhos, mesmo. Ganhou logo o apelido de "Foguinho". Ele detestava. Mas o pessoal evitava abusar, porque ele era "intelectual". Um ser estranho. Parte do grupo, mas outsider. Pairava por ali como se não fosse com ele. Trabalhava direito, mas queria ficar nas seis horas por dia do horário bancário, sem ganhar mais com comissão de função, que exigia horas extras.

Nós conversávamos sobre literatura, psicanálise, filosofia, abobrinhas. Conversávamos tanto que o chefe me mudou para outra mesa, mais longe. Passamos a trocar ideias aos berros. Não demorou muito e eu voltei para o meu lugar.

Graças ao Mário eu tomei contato com a cozinha chinesa, o queijo roquefort, a poesia de Mallarmé e o pensamento de Schopenhauer. Não fui eu quem o apresentou a Freud, é claro. Mas quero crer que mostrei a ele certos caminhos nas elucubrações do bruxo vienense.

Às vezes, ele me trazia versos ainda em formação. Eu dava poucos palpites. Mas uma vez fiz uma sugestão mínima, que ele aceitou. Me lembro que era um texto chamado "Poema Úmido", sofisticado exercício de imagens mentais que a gente quase podia ver com os olhos. Eu propus trocar a expressão "os cogumelos", por simplesmente "cogumelos", sem o artigo. Tudo isso. A partir daí, eu me proclamava seu parceiro.

Pois é. Acabamos por seguir caminhos diferentes e perdemos o contato. Até outro dia. Foi o Mário quem apareceu, "pedindo amizade" no Facebook.

Que pedir, que nada, Mário. Pode entrar. A casa é sua. Tem cerveja e roquefort na geladeira. Em todos os cômodos, muitas estantes para você fuçar.

Poesia de segunda

foi ontem só
hoje não tem mais
era pra ser (não era mesmo?) tão bonito
faltou desejo, faltou
sentir falta do desejo

mas tem o seguinte, minha camarada

quem não gosta de samba
quem não gosta de susto
quem não gosta de dar o salto nem que seja pra se quebrar
mau sujeito não é
mas que falta de imaginação

................................................................................................................................................................

carrego as minhas coisas na sacola: 
            um celular, um livro eletrônico, esperança, três revistas, um pendrive de oito gigas,  
            maço de cigarros pela metade, isqueiro, escova e pasta de dentes, sorriso, uma caixa
            de fósforos com quatro palitos, analgésico, moedas, mentiras, manias, óculos de sol
            
vou-me embora pro meu canto
um brinquedo que eu mesmo joguei num canto
porque cresci

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quando o Windows tinha uma ampulheta

Ela ficava virando, virando. Era tudo demorado. E a internet! Minha filha foi de férias para Nova Iorque e voltou empolgada: "cara, você digita um endereço e a página entra! entra direto!" Porque aqui era aos pouquinhos. Página com foto, então, era um problema. Baixa resolução, mas mesmo assim. Conexão discada: prrriiiiii, priiiiii, priiiii...

Havia um ambiente só para chat, um para baixar arquivos, um para correio eletrônico... Aos poucos, a WWW, ambiente multimídia, negócio moderníssimo, foi absorvendo tudo.

Eu tinha um notebook 386SX e um endereço de email. O problema é que ninguém mais tinha. Eu só podia escrever cartas para mim mesmo. Joguei muito xadrez contra aquele computador.

(quando eu era criança, meu pai foi a uma demonstração de um computador IBM cheio de válvulas e ficou impressionado porque o bichão jogava o jogo-da-velha)

O mundo gira e a Lusitana roda. Hoje em dia, quem usa smartphone também opera em vários ambientes. Recebi um, para um trabalho que estou fazendo. Tem um ícone para o Facebook, um para o Google, um terceiro para a internet e assim por diante. Tem até um só para telefonar! Coisa difícil: quando o meu aparelho moderníssimo não está sem serviço, é o da pessoa com quem quero falar. Mas deixa para lá. Quando privatizar, vai melhorar.

Tem também um para o Whatsapp, que o pessoal chama de "Zapzap". Era para mensagens, mas pode mandar imagens, videos, o diabo. Agora vai poder falar também, com Voip - voz sobre IP. Quem já testou diz que funciona muito bem - o que não se pode dizer da ligação convencional.

As teles que se cuidem, com seus pacotes caríssimos e limitados. O Zapzap ameaça virar a WWW dos telefones celulares.

Mercado? Livre???

Quando alguém fala "mercado", eu ouço "ideologia". Se o desinfeliz fala "livre mercado", meus ouvidos captam "ideologia e ignorância".

Não precisa ser um marxista severo, um leninista aplicado, muito menos um anarquista militante. Até as calçadas de Wall Street sabem que esse tal de mercado não existe. Não na forma que ele é idealizado pelos conservadores.

Para os conservadores, o mercado é o lugar - lógico, mais que físico - onde compradores e vendedores se reúnem para fazer negócios, de forma livre, independente, pulverizada. Cada agente econômico defende seus interesses o melhor que pode, mas como eles são muitos, certas regrinhas definiriam o comportamento coletivo.

Isso pressupõe que todos estão mais ou menos em pé de igualdade; que todos têm acesso às mesmas informações; que não existem monopólios, oligopólios, trustes, carteis. Talvez seja assim no marché aux puces; duvido um pouco, mas pode ser.

Infelizmente, minha amiga conservadora, meu amigo direitista, trustes e carteis não são exceção; são a regra. Sete companhias dominam o mercado de petróleo e derivados. Dez conglomerados mundiais controlam o que você compra no supermercado (amplie a imagem). Fala-se muito do tal 1%, que detém metade da riqueza do mundo, mas mesmo aí há estratificação: 0,1%  tem 1/5 de todo o patrimônio, de todos os habitantes da Terra. No Brasil, quinze ilustres famílias controlam 5% do PIB. Cinco bancos abocanham 80% da oferta de crédito.

Para essa gente, não há mercado. Ou melhor, o mercado é o que eles querem que o mercado seja. Para o resto de nós, é uma armadilha.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O pior chope do Rio

É o do Bar & Restaurante Cerejinha, que fica na esquina de Presidente Vargas com Uruguaiana.

Maldade minha. Tem muito chope pior. O do Cerejinha, pelo menos, é da Brahma. Está cheio de chope marca barbante por aí. Mas... convenhamos... é mal tirado à beça.

Chope é coisa do Rio. Qualquer botequim oferece um chope marromeno. Em São Paulo, é raridade. Em Brasília, sempre prefira a cerveja em garrafa. Em Belo Horizonte... bom, em Beagá tem um monte de barzinhos, não vou emitir juízo definitivo, mas minha experiência pessoal é desalentadora. E por aí vai.

Chope é coisa do Rio, e o carioca é metido a entender do assunto. Na verdade, são poucas coisas que definem um bom chope. A marca, é claro. A quantidade de copos servidos: o chope não é pasteurizado, por isso estraga logo - bar sem movimento não presta. O comprimento da serpentina - importantíssimo. Por fim, um cara que saiba tirar o chope, na pressão, com espuma e sem mesquinharia, porque um pouco sempre vai derramar.

O chope do Cerejinha tem apenas as duas primeiras qualidades. Logo, não é grande coisa.

Minha saudosa companheira Sandra não gostava de lá. Ela dizia que o Cerejinha não era um bar, era uma calçada. Isso porque a loja é bem pequena, então todas as mesas ficam na rua. Não é um grande problema, porque os prédios da Presidente Vargas, naquele pedaço, têm todos enormes marquises. Hoje em dia, chega a ser uma vantagem, porque não reclamam quando a gente fuma, embora não seja e-xa-ta-men-te permitido pela nova lei.

De resto, os tira-gostos são escassos, a pizza é gordurosa e não servem refeições, apesar do "& Restaurante".

Mas tem uma coisa. Eu fui para Brasília em 2003. Quando voltei, estava aposentado e não ia muito no Centro. Fazia uns doze anos que eu não aparecia no bar. Outro dia eu passava por ali, parei para um chopinho vadio. O garçom abriu o maior sorriso: "seu Joel!... há quanto tempo!"

Pequenas centrais, grandes negócios

Quando a CUT era a CUT, queria acabar com o imposto sindical.

A CUT não é mais a CUT, e não é porque virou "chapa branca" ou outra besteira parecida. A CUT não é mais a CUT porque o movimento sindical está numa draga tremenda, com as mudanças no mundo do trabalho. Os metalúrgicos, por exemplo. Eles eram os bam-bam-bans da Central, categoria politizada, organizada, numerosa. Hoje são meia dúzia de gatos pingados. A automação passou um trator.

Menos trabalhadores, menos associados, menos receita. O processo é mais complexo, mas fiquemos por aqui. O imposto sindical - aquele dia de trabalho descontado de todo mundo - cresceu de importância, no balanço dos melhores sindicatos. Cadê o povo que era contra?

Desde março de 2008, as centrais sindicais são reconhecidas. Assim, elas também abocanham sua fatia do imposto. São mais de cem milhões por ano. Caramba! Isso é que se chama "janela de oportunidade"!

O PCdoB, que não é bobo nem nada, saiu da CUT e fez logo a sua centralzinha - a CTB. Até se antecipou, olha que esperteza: a CTB foi fundada em dezembro de 2007, para ninguém chamar de oportunista. Só que 90% da sua arrecadação vem do imposto. Depois surgiram outras. A CSB - não me pergunte o que quer dizer - é a mais novinha: foi reconhecida só este ano.

No total, hoje temos 12 centrais sindicais. É muito cacique para pouco índio. Segundo o portal Vermelho, as três menores representam, somadas, a multidão de 1.645 trabalhadores sindicalizados.

Enquanto eu garatujava essas mal traçadas, uma amiga me perguntou, no Facebook: "e a reforma sindical, tão falada nos anos 90?" Respondi que estamos precisando de uma revolução sindical.

Política e negação da realidade

Tenho um amigo que é stalinista. Um jovem amigo. Quando a União Sovíética acabou, ele estava largando a chupeta.

É difícil dialogar com o meu amigo. Ele é um cara inteligente e até saudável - em todos os aspectos, menos no que se refere ao Pai dos Povos. Nem fale com ele dos expurgos. Do assassinato de centenas de bolcheviques. Do Estado policial. Da morte de milhões de camponeses, na coletivização forçada da agricultura. É tudo propaganda imperialista. No máximo, houve alguns erros. Errinhos danados, esses.

E eu faço o quê? Levo na brincadeira. Meu amigo tem tatuagens enormes, que lhe cobrem os dois braços. Eu digo que papai Stalin não ia deixar, não. Ele gosta de rock. Eu falo que desse jeito ele ia parar na Sibéria.

Processos de negação da realidade são mais comuns do que a gente pensa. O do meu amigo é até benigno. Tem gente que nega o Holocausto. Há quem jure de pés juntos que o homem nunca pisou na lua. Ou que Elvis não morreu. Há quem garanta que o Plano Real é obra do Fernando Henrique. Ou que o Zé Dirceu é um congregado mariano.

Parte da atual virulência do debate político vem daí. Pessoas que habitam alegremente um universo paralelo. A imprensa livre não ajuda. "Imprensa livre" é ironia, não atire a primeira pedra. A imprensa livre entrou pesado no partidarismo e construiu um mundo de vilões - os petralhas - e mocinhos - a oposição, qualquer que seja. OK, eu exagerei. Mas foi só um pouco.

Realidade (1): a vida da maioria mais pobre melhorou muito nesses 12 anos de governos de maioria petista. Realidade (2): o modelo de crescimento baseado na expansão do consumo da base da pirâmide chegou a um limite. Isso na economia. Na política (1): o PT tem o crédito óbvio de incluir milhões que estavam à margem. E tem um débito pesado (2): não peitou a reforma política e se enfiou até o pescoço na lama dos financiamentos de campanha.

Essas premissas podem servir de base para qualquer discurso, governista ou de oposição, à esquerda ou à direita. Mas não. É "quadrilha", é "fascista", é "traidor"... muito adjetivo para pouca análise. A realidade está aí, para quem quiser... mas é um bichão duro de encarar.

E não dá para levar na brincadeira.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

PL 4330 - o admirável mundo novo da terceirização

O Congresso está para cometer um crime contra os trabalhadores: a aprovação do projeto de lei 4330, que abre a porteira da terceirização.

A principal mudança é a seguinte: hoje, as empresas só podem terceirizar atividades-meio. A nova lei vai permitir terceirizar qualquer trabalho, inclusive atividades-fim.

Por exemplo: uma montadora de automóveis. Hoje, ela pode terceirizar a limpeza, a segurança, a cozinha, a jardinagem. Coisas assim. Com a nova lei, toda a cadeia de montagem poderá ser feita por trabalhadores sem vínculo empregatício com a empresa - e possivelmente com outro enquadramento sindical. Ou um banco. Os caixas poderão ser terceirizados. Vão ganhar menos e terão menos direitos trabalhistas.

A situação é ainda mais grave no serviço público, que poderá contratar sem concurso. É o fim da estabilidade do servidor e da impessoalidade do Estado.

Todo mundo está de olho na Petrobras, na Operação Zelotes, nas trapalhadas políticas da Dilma. Um protesto contra a PL 4330, em São Paulo, não reuniu nem mil gatos pingados. Militantes da CUT foram para Brasília, tomaram porrada e gás de pimenta, eram poucos, não adiantou nada. A Força Sindical, acredite, está a favor do projeto!

O movimento sindical está numa draga danada. Ele representa cada vez menos gente. É que o mundo do trabalho mudou, e mudou o perfil do trabalhador. O novo proletário é um nômade, pelo menos um nômade metafórico: ele não permanece na mesma firma, passa grandes períodos sem emprego, trabalha part-time, por empreitada, em contratos de tempo definido, terceirizado, por conta própria, em situação de informalidade.

Essa é a tendência mundial. Ter emprego fixo, com salário decente e direitos trabalhistas - isso está virando raridade. Durante os governos de maioria petista, o Brasil fez um movimento inverso: aumentou o número de empregos com carteira assinada e os concursos públicos se multiplicaram. A renda média do trabalhador aumentou. A vida ficou melhor. Todo o avanço gradual de 12 anos vai por água abaixo, com uma única votação no Congresso.

Companheiros, companheiras, bem-vindos à pós-modernidade! Admirável mundo novo, onde ser explorado é um privilégio!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Somos reformistas

O pessoal da direita adora falar de Cuba, da Coreia do Norte, até da União Soviética, quem nem existe mais. Mas eles não têm o mesmo prazer em discorrer sobre a Finlândia, a Noruega ou a Suécia.

Menos, gente! A esquerda brasileira - aquela que conta - é profundamente democrática e assumidamente reformista. Até o Psol, que dizem ser da "extrema". Que nada. São uns carolas. Estamos todos mais para a Escandinávia que para o Vietnã.

Somos solidários a Cuba. Ah, somos sim! Como não ser solidário a um país pequeno e pobre, acossado pelo vizinho que é o maior império do mundo, e que ainda assim mantém serviços exemplares de saúde e educação? Isso não quer dizer que sejamos cegos aos defeitos do castrismo. Apenas não olhamos a História com viés moralista - tentamos entender as circunstâncias e buscar saídas possíveis. No caso cubano, como abrir o regime sem voltar a ser quintal.

De volta à Finlândia. À Suécia. Exemplos que a gente gosta mais. São países ricos, é verdade. Mas a Finlândia tem um PIB per capita menor que os Estados Unidos. O da Suécia é comparável ao do Qatar. Pergunta onde se vive melhor.

Aqui no Brasil. Quem é que propõe reduzir o poder econômico nas eleições? Quem é que senta em cima do processo? Quem quer criar um lei reguladora da mídia parecida com a da Inglaterra? Quem é que deturpa a proposta e quer manter o oligopólio? Quem é que defende a Constituição? Quem é que vai à rua pedir golpe?

Meu amigo, minha amiga direitista!... Você garante que é democrático até os ossos, que fez passeata para protestar contra a corrupção e isso e aquilo, que não foi para pedir ditadura militar. Pode ser. Mas... cá entre nós... você estava muito mal acompanhado.

terça-feira, 31 de março de 2015

Sociopatas

Quanto eu estava na faculdade, o termo era outro: "PP." Sigla para "personalidade psicopática". É que a doença mental, a psicose, desestrutura a personalidade. Não é o caso do PP. Muito ao contrário. Ele tem a personalidade muito bem estruturada. Só que é estruturada de modo patológico.

A principal característica do sociopata é a falta de empatia. Ele não consegue se colocar no lugar do Outro. Deriva dai o egocentrismo. E a falta completa de sentimento de culpa. Uma combinação explosiva.

Nem todos são serial killers. O assassino serial tem outras complicações. A maioria dos sociopatas está por aí, vivendo a vida. Alguns são muito, muito simpáticos. Todos são mentirosos. Todos são manipuladores. E pisam no pescoço da mamãe, se for para conseguir o que querem.

Pesquisa recente tentou localizar os monstrinhos. Claro que estava sujeita a falhas, porque se baseava em testes psicológicos, que são notoriamente imprecisos. Mas deu umas coisinhas interessantes. Sabe onde é que se encontra o maior percentual de sociopatas? Entre os altos executivos das corporações. Em segundo lugar, políticos profissionais.

Se a gente para para pensar, não se espanta. Quanto aos políticos, o velho Ulisses Guimarães já dizia: "O sujeito entra para a política por um de dois motivos. Ou ele quer se dar bem, arrumar sua família, se arrumar; ou ele quer salvar o mundo. Ou seja, a politica é a reunião do mau caráter com o.paranoico." Mau caráter é a expressão popular para sociopata.

E nas empresas? Quem é que consegue subir, se tiver um grilo falante de estimação? Quem é que chega ao topo sem atropelar os concorrentes, sem enganar os consumidores, sem ferrar a vida dos funcionários, sem tomar medidas que envergonhariam Átila, o bárbaro?

Sobe na vida quem tem uma personalidade doentia. O mundo está muito, muito doente.

Percepção, realidade, certezas

Os dois círculos centrais são do mesmo tamanho
A construção da imagem, a separação de figura e fundo, certamente é o maior problema da psicologia. Talvez seja também um dos grandes problemas filosóficos.

A retina é um mosaico de células sensíveis à luz. Elas não se relacionam entre si. Imagina uma imagem bem simples. Por exemplo, a bandeira do Japão: um círculo vermelho sobre um fundo branco. Um raio de luz de determinada frequência (vermelho) atinge uma célula da retina. Uma célula adjacente recebe luz branca. Uma não sabe da outra. No olho, não há nada que indique que esses dois estímulos são parte da borda do círculo.

Parêntese. Faço tábula rasa do problema da cor. Cor não é um atributo objetivo. É a sensação que atribuímos a faixas de frequência eletromagnética. Ou nem isso, em termos precisos, como os impressionistas provaram bem. Depende do contexto.

O cérebro reúne os estímulos que recebe da retina e constrói a imagem. A questão é: como ele faz isso? Segundo a teoria da gestalt, certas formas são fortes, o círculo mais que todas. É um negócio inato. A forma forte se impõe. A imagem constrói a si mesma. Já a psicologia elementarista do século XIX garantia que é tudo aprendido. Mais tarde, os behavioristas também foram nessa. Racionalismo e empirismo. O dilema de sempre.

A percepção dos objetos se confunde com a consciência de si. Sabemos que, para um bebê pequeno, tudo é indistinto. Ele não reconhece os limites do próprio corpo, nem a materialidade do mundo exterior. Até os seis meses, mais ou menos, todos nós vivemos num mundo de puros fenômenos.

Construímos a nós mesmos enquanto construímos o mundo, e essas duas entidades - o Eu e o Outro - têm muito de arbitrário. As ilusões de ótica, tão divertidas, não são exceção - são regra. Não é o engano provocado por uma imagem habilmente desenhada que é maravilhoso. Maravilhoso é a gente perceber um objeto que realmente existe. Se é que a gente consegue.

Pense nisso, quando você tiver muita certeza de alguma coisa.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Bebês, carboidratos e lipídeos

Ana Lua é fofinha 
A gente gosta dos bebês, mas não é porque eles são pequenos e fofinhos. A gente gosta dos bebês porque eles têm a cabeça grande, em relação ao corpo.

Os mamíferos nascem com cabeças grandes. Por isso um filhote de elefante é fofinho, mesmo não sendo exatamente pequeno. Nós somos geneticamente programados para gostar de seres cabeçudos. Nós e quase toda a classe Mammalia. Funcionou para a sobrevivência da espécie. Funciona, ainda hoje, para os fabricantes de bonecas.

Deixa eu explicar. Imagina o Brucutu. É tarde da noite. Amanhã cedo ele tem que sair e caçar um ou dois brontossauros para alimentar a família. A criaturinha começa a chorar. Não tem chupeta, não tem lenço umedecido para limpar o bumbum. O que impede nosso herói de silenciar o berreiro de encontro às paredes da caverna? É que o emissor do insuportável ruído é cabeçudinho e isso mexe com determinado gene, provocando o impulso de cuidar, não o de esmagar a caixa craniana. O primo do Brucutu não tinha esse gene em particular. Sua prole não viveu muito. O Brucutu passou algumas noites em claro, mas sua descendência proliferou, trazendo esse especialíssimo código de DNA até o século XXI.

Eram tempos difíceis. Nem sempre um brontossauro estava dando sopa. Não tinha pizza delivery nem supermercado 24 horas. O Brucutu, sua dedicada esposa e seus filhos fofinhos comiam até não aguentar mais, sempre que podiam. E preferiam os alimentos mais energéticos: os ricos em carboidratos e lipídeos. Até hoje é o que a gente mais gosta. Só que a oferta é muito, muitíssimo abundante: massas, pães, doces, linguiças, carnes suculentas...  Na etologia, isso se chama "superestímulo". O resultado é obesidade, diabetes, alergias e coronárias entupidas.

Moral da história: será que tem? Se tiver, é mais ou menos assim: nossos genes nos trouxeram até aqui, mas não confie neles para nos levar mais adiante. O bastão passou para a cultura. Não perca tempo estudando etologia. Leia Shakespeare. Ou Proust. Heidegger. Freud. Dashiell Hammet. Por aí.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quantos milhões?

Meus amigos governistas que me desculpem. A oposição deu show de bola.

Ah, mas foi convocado pela Globo! Não tem a menor importância. Botar gente na rua é sempre difícil.

Ah, mas só tinha classe média! E daí? Classe média também é gente - e eleitor.

Ah, mas não tinha tanta gente assim! É... se você pegar a Paulista todinha, bem cheia, dá marromeno 800 mil. Calculei no Google Maps. Claro que ninguém nunca encheu a avenida completamente. Nem no réveillon. Muito menos ontem. Mas é como eu disse em outra postagem: manifestação é isso - uns inflam, outros desinflam. Depende do interesse do freguês.

Eu gostei. Gostei da sexta e gostei do domingo. Acho legal que o debate político fique bem claro. Cartas na mesa. Gente na rua. Democracia sem povo é muito chato.

Já não lembro da minha primeira passeata. Foi lá pela década de 70. Ditadura. Era mais difícil. Saúdo a chegada da direita às ruas, com todas as suas contradições. Golpe militar. Impeachment. Encurralar o governo até 2018. Neonazistas. Cristãos fundamentalistas. Fascistoides. Conservadores mais ou menos democráticos. Faz parte. A esquerda também não tem essa unidade toda.

A senhorinha que fez sua estreia de sapato de salto alto, coitada. O único negão da manifestação da Bahia. A moça que virou meme, que tem problemas mentais por causa da "corrupissão". Aquela gente toda que protestou contra a corrupção vestindo a camisa da CBF. A fãzoca do Bolsonaro. O cara que queria participar, mas saiu correndo quando viu o Bolsonaro. Bem-vindos às ruas, todos vocês.

Repito: bem-vindos. Prometo que não vou chamar ninguém de "coxinha".

sábado, 14 de março de 2015

Quantos mil?

Nunca vi manifestação que não fosse inflada ou desinflada, de acordo com o observador. Também não precisa exagerar.

Existe método para calcular com razoável precisão. Precisa de uma boa foto aérea. O que a Folha fez ontem na Paulista, com pesquisadores no meio da massa, me parece uma sofisticada picaretagem.

O exagero começou para valer na campanha das Diretas Já. É que todo mundo era a favor. Cada um aumentava um ponto. O famoso comício da Candelária consagrou o número de um milhão. Não cabia. Fui conferir no Google Maps. São mais ou menos 125 mil metros quadrados. Na boa, umas 500 mil pessoas. Não tinha isso tudo. Mais para trás, perto da Rua Uruguaiana, a multidão estava bem dispersa.

De lá para cá, se não reunir cem mil é fracasso. Caramba. Nem jogo do Flamengo.

Vamos combinar que 10 mil fazem uma boa manifestação. 50 mil arrebentam. De cem mil para cima, só em grandes ocasiões: visita do papa, seleção campeã do mundo, show dos Beatles - mas só se for com o John e o George.

As manifestações de ontem foram bonitas à beça. Tinha muita gente. Faz tempo que a turma não ia para a rua com essa força. Valeu.

quarta-feira, 11 de março de 2015

"Vaca"

Palavras não me chocam. Fui criado na arquibancada do Maraca. Meu vocabulário é extenso. Só acho que é muita falta do que fazer.

Madame quer o impeachment da Dilma porque ela é uma "vaca"? É isso mesmo? Não tem um motivozinho melhor?

Ladra. Aí eu gosto mais. Crítica política - e das fortes. Motivo para impedir a presidenta. Pena que ela não é. Ou pelo menos não acharam até hoje o mínimo indício de que fosse. Corre atrás, madame. Contrata um detetive. Um hacker. Quem sabe, eles desencavam alguma coisa. Antes disso, é melhor guardar a boca para comer farinha. Ou trufas do Piemonte. Porque é um tipo penal bem conhecido - calúnia. Não chega a dar cadeia, mas desmoraliza quem faz.

Fico satisfeito que apareça uma direita atuante e mobilizada - mesmo que a mobilização seja mais virtual que outra coisa. O Brasil precisa disso. Antes, ninguém era de direita - nem o Zé Serra, que andava em cada companhia que vou te contar. Agora, não. O eleitorado tucano mostra a cara. O jogo fica aberto. Cartas na mesa.

Só queria que eles fossem um pouquinho melhores. A direita já teve um Gustavo Corção. Um Carlos Lacerda. Hoje, quem é o ideólogo? O Olavo? Quem é o líder? O Bolsonaro? Os direitistas se veem condenados a votar no Aecim, perder, depois pedir golpe militar.

Sou otimista. A direita vai melhorar. Por enquanto, é só um infantilismo.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Panelaço

Tem uns tipos de protesto que eu não gosto. Panelaço. Sei lá. Mania minha. Me parece coisa de argentino. Nada a ver, eu sei. Repito: é mania.

Agora... panelaço na varanda é bom demais!

Imagina só. Domingão. Madame assistindo ao Fantástico. Foi na hora do Fantástico? Não sei. Não vejo TV. Para mim, foi. Então madame está escarrapachada no sofá e o maridão cochila na poltrona. Um pouco ele ressona, um pouco ele arrota a cerveja do futebol. De repente, sai o apresentador bonitão. Entra a carantonha da Dilma. Ó, céus! Logo no Fantástico!

Trim-trim no Whatsapp, no Facebook da madame. Vamos bater panelas! Ela corre para a cozinha. Onde que a Creosoldette guarda as panelas, meudeus? Debaixo da pia. Tem que agachar. Ui, meu joelho! Madame pega a panela de pressão. Muito pesada. A frigideira. Muito sambista. Enfim, acha uma que serve. Já começou a bateção no bairro. Colher de pau! Colher de pau! Onde? Onde? Escancara as gavetas. Derruba tudo. O espremedor de alho cai no dedinho do pé. Aaaaiii!

Finalmente apetrechada, madame sai à varanda. Na pressa, derruba as rosas colombianas que ganhou pelo Dia da Mulher. A água do vaso encharca o tapete persa falsificado. Madame nem repara. Está possuída pelo espírito cívico. Bate-que-bate. Gritos politizados: Vaca! Puta! Gorda!

Não acredito! A panela da vizinha do 401 é Le Creuset!

Roída de inveja, madame se recolhe a seus aposentos. Lá fora, o panelaço vai minguando.

domingo, 8 de março de 2015

Essas mulheres - minhas histórias

Contar histórias é mister feminino. Desde sempre. Para acalentar. Instruir. Proteger. Divertir. Memorizar. Para fiar o fio que liga as gerações e tecer o tecido que a gente chama de cultura.

Fiar e tecer.

Um dia, os homens se apossaram das histórias - e foi para cantar suas guerras e seus heróis. Histórias de morte.

As minhas histórias são simples. Não têm nada de mais. Mas são histórias de vida. De gente que passou o seu tempo no mundo tentando fazer o melhor.

Eu quase não sei da Luciana. Minha mãe falava muito pouco da mãe que não teve. Só fui saber o seu nome - acredite - por causa da lápide no túmulo que também é o da Ruth.

O que eu lembro da Zezé é uma passarinha. Passando pela vida sem se fazer notar. Suave, suave. Depois é que eu percebi o quanto ela era forte.

Custei a entender a Ruth. Só quando fiquei mais velho. Uma vida toda contida pelos limites impostos pelos azares da vida e pelos poderes dos homens. Mas ela nunca se entregou.

Dos amores da minha vida, eu achava que a Sandra era até que a morte. Só não sabia que ia ser tão cedo. Cicatriz que de vez em quando ainda abre.

Histórias de mulheres que foram, para as mulheres que estão aí. Fiando o fio. Dedicadas à Júlia, à Joana, à Tereza - filhas - e à Diana, à Manu, à Olívia e à Ana - netas.

Para a Sandra, minha companheira (1951 - 1998)

Maria, Maria (Milton Nascimento)

Essas mulheres - Sandra

Detonada, a Baixinha. "Baixinha". Era assim que ela era conhecida em Porto Alegre. Só um metro e 50. Ou melhor: um metro, 51 centímetros e meio, como ela fazia questão de precisar.

Imagina só: ela passou no vestibular sem ter tirado carteira de identidade. Foi enrolando a burocracia universitária até se formar em direito. Por toda a vida, sua única identificação formal foi a da OAB. Mas isso não é nada. Lá pelos 18 anos, ela viajou para o Uruguai com uns amigos. Como passar pela fronteira sem documento? A Sandra se escondeu na mala do carro. Ditaduras sanguinárias nos dois países. Se ela fosse pega, eu não ia ter história para contar aqui.

Pois é. Como tanta gente, a Sandra chegou à Universidade sem muita coisa na cabeça. Mas aí mudou tudo. Tinha uma escola de direito progressista no sul. Direito como resistência. Defesa corajosa dos fiapos de liberdade. E proteção dos trabalhadores - foi aí que ela encontrou sua vocação. Vinte anos de militância no direito do trabalho. Nunca defendeu empresas. E por isso jamais ganhou dinheiro a valer.

A Sandra era emoção à flor da pele. E ódio visceral à injustiça. Deixa eu contar uma história, que você vai entender.

Era o início dos anos 90. Violência urbana fora de controle. O governo fez a "Operação Rio": ocupação das favelas pelas tropas do exército. A Sandra estava na Av. Copacabana, quando viu um rapaz sendo espancado por quatro soldados. Era noite alta, mas já estava juntando gente. Todo mundo passivo. Ela não pensou... não digo duas vezes. Ela não pensou nem meia vez. Investiu contra os caras, dando bolsadas e xingando nomes que eu não escrevo aqui no blog. Uma cena. Precisou o namorado intervir, para ela cair em si, puxar a carteira de advogada, botar respeito.

A violência parou, mas levaram o moço. Era um tempo em que sumia gente. Lá foi a Sandra, Ladeira Saint Roman acima, até o QG da tropa. Um cara vestido a paisana, que se dizia coronel, ameaçou: "aqui não entra advogado". A Sandra não recuou. Garantiu que o rapaz tivesse atendimento médico. Exigiu que formalizassem a detenção. Acabou expulsa, escoltada por dois soldados armados até os dentes.

Nem assim ela desistiu. Encontrou a família. Fez  contato com associações de direitos humanos. Deu entrevistas para a TV. Acabou localizando o preso no quartel da PE. Ele foi solto uns quinze dias depois.

Com 40 e poucos anos, a Sandra estava cansada. Tanto trabalho, nenhuma recompensa. "Eu só sei fazer direito, eu não sei fazer negócios, mas o direito virou balcão de negócios." Ansiedade. Insônia. Anorexia. Úlcera aguda. Parada cardíaca. Coma vegetativa. Fim.

Sandra, minha companheira, mãe da Tereza, minha filha mais nova.

Para a Ruth, minha mãe

Jesus, Alegria dos Homens (Bach)

Essas mulheres - Ruth

Ela não conheceu a mãe. A tuberculose a levou quando a Ruth era um bebezinho. Tempos machistas. Mais machistas que hoje. Pai viúvo com a filha, nem pensar. Ela foi criada pela avó.

A Ruth queria ser médica. O pai disse que não. Não era profissão de mulher. Profissões de mulher eram muito poucas. Ela foi para o Instituto de Educação, se formou no Normal: professora primária. A primeira escola foi em Bangu. 19 anos. Uma turma cheia de repetentes. Os excluídos do sistema. Rapazes taludos de 14, 15. Mais altos que ela. Protegiam a professorinha no trem. O primeiro orgulho: todos acabaram o primário. Nenhum desistiu.

Para trabalhar no primeiro mês, a Ruth tinha pedido dinheiro emprestado com o pai, para as passagens e algumas roupas. O almoço ia na marmita. Com o primeiro salário, ela pagou os empréstimos e ainda comprou uns presentes: cortes de tecido para as duas irmãs menores, uma caixa de bombons para a madrasta.

Professora das antigas. Os olhos verdes, com uns raios amarelos de jeito felino, faiscavam, paralisavam os meninos que saíam da linha. Mas também era toda atenção, cuidado, carinho austero. Chegava a comprar material para os mais pobres. E fazia diagnósticos precisos, antes mesmo dos doutores. Não sei se também receitava. Mas bem que podia.

Os filhos lembram dela brava, mas também boa de beijo e abraço. Os netos passaram nos vestibulares com muita aula na mesa de jantar - qualquer matéria, de Português a Química. Os ex-alunos a reconheciam, chamavam a lembrança, agradecidos, olhos úmidos: eram padeiros, garçons, guardas de trânsito, caixas de supermercado. Gente de bem. Ela disfarçava a emoção desses encontros.

Quando a Ruth se aposentou, tinha bursite - de tanto escrever no quadro-negro - e calos nas cordas vocais - de ensinar em classes com 40, 50 alunos. Só não tinha comodismo. Depois dos 60, se formou em Teologia. Com 70 e poucos, em Filosofia. Foi dar aulas de lógica. Mas largou logo, que o marido estava doente e precisava do seu cuidado. Ou ela precisava cuidar dele.

Seu sonho era visitar Jerusalém. Viúva, ela podia. Mas nunca foi. Tinha medo de avião. Ou era porque não dava vontade de ir sem o seu homem. Como é que se diz? Na alegria e na tristeza, todos os dias da vida.

Ruth Carolina. Ela odiava o segundo nome. Minha mãe.

Para a Zezé, mãe do meu pai

Horizons (Genesis)

Essas mulheres - Zezé

Ela tocava violão. Não parece nada demais. Mas era o início do século passado. Violão era instrumento de malandro. Não tinha entrada nos salões da sociedade. Ainda mais sobre as coxas de uma moça de família. Instrumentos femininos eram o acordeon, o piano, e olhe lá. Tanto assim que quando casou - lá por 1920 - ela parou de tocar. "Violão não era pra mulher casada", ela diria depois, minimizando o preconceito .

A Zezé tinha suas manias. Bebia o café mais fraco do mundo. Arrumava gavetas como ninguém. Gostava de comer deitada. Não o almoço, a janta. Guloseimas. O filho trazia marrom glacé da Confeitaria Colombo. "Hummm... vou já pra cama pra comer!"

Ela estava com uns 60 anos. Contente à beça. A família ia aumentar. Sua primogênita ia ter mais um neném. Foi um desastre. Morreram mãe e filha na sala de parto. Não passaram nem duas semanas. O marido da Zezé teve um troço. Rompeu um aneurisma. Morreu na hora, em plena rua.

A Zezé quase enlouqueceu. Sozinha, com uma pensão magra que não dava para nada, foi morar com o filho casado. Passava os dias perambulando pelo apartamento, chorando sem alarde. O netinho mais novo disse: "vovó, não cho'a... p'ocu'a lê." Ela pegou os pocket-books do filho. Tudo em inglês. Um dicionário. Foi decifrando. Depois de uns meses, ela lia correntemente, em tradução mental. Entendimento de mão única: se você perguntasse o significado de "window", ela respondia logo. Se você perguntasse como era "janela" em inglês, ela não sabia.

Passaram-se anos. A Zezé mudou do luto fechado para uns vestidos em preto e branco, que ela mesma costurava. Com um dinheirinho economizado, comprou um violão Di Giorgio. E voltou a tocar. Bem baixinho, que era para não incomodar ninguém.

No fim da vida, ela foi esquecendo. Esqueceu até quem era. O filho precisou interná-la numa casa de repouso. Todo dia ele ia visitar. Levava um pacote de biscoitos maizena, os favoritos. Ela abria um sorriso sem dentes: "hummm... vou já pra cama pra comer!"

Zezé, mãe do meu pai.